Capítulo 11. Problemas no conforto

1035 Palavras
Sarah passou três dias praticamente fundida à cadeira. O apartamento cheirava a café requentado, papel e madrugada. As cortinas ficaram abertas por descuido, e a luz do sol entrou e saiu sem que ela percebesse. Quando enfim digitou o ponto final da décima página, sentiu aquela exaustão boa a de quem entregou algo honesto. Releu tudo com o olhar crítico que sempre teve. O texto estava limpo, inteligente, denso. Cada palavra no lugar certo. Nenhuma concessão barata. Ela anexou o arquivo ao e-mail com uma precisão quase cerimonial. Capítulo fechado. Dez páginas. Como combinado. A resposta veio rápido demais para ser boa. Sarah estava no meio de um banho quando o celular vibrou insistentemente sobre a pia. Enrolou a toalha no corpo, pegou o aparelho ainda pingando água e leu. A testa franziu. Depois os lábios se apertaram. Depois o silêncio. — Você só pode estar brincando… — murmurou. Minutos depois, já vestida, ela ligou. — Você leu? — perguntou, sem rodeios. — Li — respondeu o agente. — Tecnicamente impecável. Como sempre. — Então? — Então isso é você jogando seguro demais. Sarah fechou os olhos, contando até três. — Seguro? — repetiu, incrédula. — Esse é um dos textos mais honestos que eu já escrevi. — Honesto, sim. Arriscado, não. — Ele foi direto. — Você está confortável nesse tipo de protagonista. Mulher inteligente, controlada, emocionalmente blindada. Seus leitores já esperam isso. — E isso é um problema desde quando? — Desde que o mercado pede novidade. Ela apoiou o cotovelo na mesa, a mão na testa. — Você quer que eu escreva algo que não acredito? — Eu quero que você experimente — corrigiu. — Talvez um clichê dessa vez. Enemies to lovers. Conflito real. Diálogo afiado. Uma história que faça o leitor sentir antes de admirar. Sarah soltou uma risada curta, sem humor. — Um clichê. — Um bom clichê — insistiu ele. — Com a sua inteligência. Mas com risco. Você precisa sair da sua zona de conforto. A palavra clichê ficou ecoando como um insulto pessoal. Ela sempre evitou esse território. Histórias de amor m*l resolvidas, reaproximações, ressentimentos não ditos. Não por desprezo literário mas porque conhecia bem demais o preço emocional disso. — Eu não escrevo personagens tolas — disse, fria. — Então não escreva tolas. Escreva humanas. — Houve uma pausa. — Às vezes, Sarah, parece que você tem medo de deixar suas personagens sentirem de verdade. O silêncio pesou. Ela encarou o arquivo aberto na tela. As páginas bem construídas. Seguras. Frias. — Eu vou pensar — respondeu, por fim. — Pense rápido — ele disse. — Dois meses. A ligação caiu. Sarah fechou o notebook com mais força do que pretendia. Caminhou pelo apartamento, irritada, organizada demais para alguém tão furiosa. Tudo estava no lugar. Tudo sob controle. E talvez fosse exatamente esse o problema. Ela parou diante da estante, puxou um livro antigo seu, folheou distraída. Amores bem resolvidos. Distância emocional elegante. Nenhum risco real. — Um clichê… — murmurou, quase como ofensa. Mas, contra a própria vontade, uma imagem surgiu em sua mente. Um reencontro indesejado. Conversas afiadas. Um passado m*l resolvido. Alguém que provoca. Que desarma. Sarah fechou os olhos com força, como se pudesse expulsar o pensamento. Não. Ela não precisava disso. Não precisava voltar a esse tipo de história. E, ainda assim, sentiu algo raro e perigoso se instalar no peito não saudade, não desejo… Curiosidade. E aquilo, mais do que qualquer prazo ou investidor, a deixou verdadeiramente indignada. Os dias seguintes foram um desastre silencioso. Sarah acordava no horário de sempre, fazia o café do jeito exato de sempre, sentava-se à escrivaninha como se fosse cumprir um ritual sagrado. Abria um novo arquivo. Olhava para a tela branca. Nada. Tentou forçar. Digitou um título provisório qualquer, algo genérico demais para o seu gosto. Apagou. Recomeçou. Criou personagens que não tinham peso, diálogos que soavam artificiais, conflitos que pareciam emprestados de histórias que ela jamais escreveria de verdade. Uma protagonista impulsiva demais. Um homem misterioso demais. Um primeiro encontro previsível demais. — Patético — murmurou, apagando tudo com um atalho seco. A ideia de “clichê” a irritava de um jeito quase físico. Não era soberba era estranhamento. Aquilo não a reconhecia. As palavras não obedeciam porque não acreditavam nela. No terceiro dia, percebeu o corpo denunciando o bloqueio. Roía a unha do polegar hábito antigo, ressuscitado. Caminhava pelo apartamento sem rumo. Abria a geladeira sem fome. Fechava. Abria de novo. O celular ficava virado para baixo, como se pudesse acusá-la. Ela tentou mudar de cenário. Levou o notebook para um café. Pediu chá, depois outro. Observou casais, ouviu conversas alheias, anotou frases soltas no bloco de notas. Nada se conectava. Tentou escrever algo leve. Algo bobo. Algo fácil. Mas toda vez que a história começava a se aproximar de um afeto menos controlado, Sarah travava. O texto ficava duro. O ritmo quebrava. As personagens perdiam verdade. — Eu não faço isso — sussurrou, fechando o arquivo pela décima vez. À noite, deitada na cama, encarava o teto como se ele tivesse respostas. O silêncio do apartamento, antes confortável, agora pesava. Ela não estava sem ideias. Estava evitando uma. Sarah sentou na cama de repente, como se o pensamento tivesse gritado alto demais. — Não — disse em voz alta. Não era sobre Noah. Não podia ser. Mas a mente era c***l quando se recusava a obedecer. Um homem debochado. Um sorriso fácil demais. Uma presença que desestabiliza. Um olhar que queima por dentro. Ela virou de lado, puxou o cobertor, fechou os olhos com força. O coração acelerou sem motivo lógico e isso a deixou ainda mais irritada. No dia seguinte, tentou escrever de novo. Abriu Votos de Gelo e Fogo. Leu o que já tinha feito. Estava bom. Estava seguro. Estava incompleto. A pressão do agente ecoava. A palavra risco latejava. Sarah fechou o notebook com um suspiro cansado e passou as mãos pelo rosto. Ela não estava com bloqueio criativo. Estava em conflito com a única coisa que sempre evitou transformar em literatura: um amor que não era mais seu mas que ainda tinha fogo suficiente para derreter o gelo que ela construiu com tanto cuidado.
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