Capítulo 18. Difícil de escrever

975 Palavras
Sarah respirou fundo, limpou o rosto com as costas da mão e voltou para o teclado. Não havia mais escolha. Ela não estava criando Aruna estava lembrando. As palavras vieram com uma precisão dolorosa, quase clínica. No livro, o dia seguinte começava cedo demais. A escola ainda meio vazia, o barulho dos passos ecoando nos corredores. Aruna entrava na sala diferente. Maquiagem pesada demais para o horário. Base espessa, aplicada com cuidado excessivo, cobrindo cada sarda. Os cílios mais escuros do que o habitual, não por vaidade, mas por armadura. O cabelo ruivo antes solto, às vezes preso de qualquer jeito agora escondido sob o capuz de um moletom largo. Como se ocupar menos espaço fosse uma forma de sobrevivência. Sarah parou um segundo para respirar. Depois continuou. Aruna sentava no mesmo lugar de sempre. Abriu o caderno. Alinhou a caneta com a régua. Postura reta demais. Olhar baixo demais. Ela não falava. Não ria. Não observava mais ninguém. Estudava. Estudava como quem constrói um muro. Como quem transforma foco em escudo. As palavras entravam, organizadas, eficientes, seguras. Ali, ninguém podia tocá-la. Ben tentou. No livro, ele jogava comentários no ar. Provocações leves, como se nada tivesse acontecido. Chamava o apelido uma vez. Depois outra. Aruna não reagia. Não levantava os olhos. Não sorria. Não respondia. Sarah sentiu o peito apertar ao escrever essa parte. Ben começava a estranhar. A inquietação dele aparecia nos detalhes: o pé balançando, o olhar insistente, o silêncio desconfortável quando as piadas não encontravam eco. Mas Aruna permanecia imóvel. Ela descobriu que ignorar dói mais do que responder. Sarah digitou essa frase e parou. Engoliu em seco. Continuou. No intervalo, Aruna ficava na biblioteca. No recreio, revisava matéria. Quando alguém falava com ela, respondia educada, curta, neutra. Não era tristeza escancarada. Era retirada. E isso, Sarah sabia agora, era o ponto de virada. Ela escreveu Aruna não como vítima passiva, mas como alguém que aprende cedo demais a se proteger do mundo reduzindo a própria presença. Quando terminou o capítulo, Sarah se afastou da mesa, passando as mãos pelo rosto cansado. Não chorava mais. Doía, sim. Mas havia algo novo ali: clareza. Ela não tinha ficado fria por acaso. Não tinha se tornado metódica por talento natural. Tinha sido um mecanismo de sobrevivência. Sarah salvou o arquivo e fechou o notebook por alguns segundos, sentindo o peso daquela história assentando dentro dela. Aeuna ignorava Ben. Estudava. Se fechava. E, enquanto escrevia, Sarah percebeu algo que nunca tinha formulado com palavras: O gelo não nasce do desprezo. Nasce da repetição. E ela estava, finalmente, escrevendo exatamente o momento em que o fogo começou a se apagar não porque Aruna deixou de sentir, mas porque precisou aprender a não demonstrar. Sarah abriu o notebook de novo. Ainda havia muito a contar. Sarah não hesitou ao escrever a próxima cena. Sabia exatamente onde doía e por quê. No livro, a biblioteca estava quase vazia. O tipo de silêncio que amplifica tudo: passos, respirações, intenções. Aruna estava sentada perto da janela, cercada por livros empilhados com cuidado. O capuz ainda cobrindo o cabelo, o rosto inclinado demais para o caderno. Caneta em movimento constante, como se parar fosse perigoso. Ben apareceu sem anunciar. Ele não fez piada dessa vez. Sarah descreveu o jeito como ele ficou parado por alguns segundos, observando. Como se estivesse tentando reconhecer aquela garota que sempre esteve ali mas que agora não reagia mais a ele. — Você vai fingir que eu não existo pra sempre? — Ben perguntou, num tom meio debochado, meio inseguro. Aruna não levantou os olhos. Virou a página. Continuou escrevendo. Ele puxou a cadeira ao lado dela, invadindo o espaço. — Ei. — Mais baixo agora. — Dá pra falar comigo? Nada. Sarah fez questão de mostrar: Aruna ouvia. Aruna entendia. Aruna escolhia não responder. Ben se inclinou mais, impaciente. Tocou o braço dela. Aruna se afastou um centímetro quase imperceptível, mas suficiente para irritá-lo. — Para com isso — ele disse, num sussurro duro. — Você sabe que eu gosto de você. Aruna finalmente levantou os olhos. O olhar era neutro. Cansado. Fechado. — Então para — respondeu, simples. A frase o desarmou por meio segundo. Sarah escreveu o beijo não como romance, mas como ruptura. Ben não respondeu com palavras. Respondeu com impulso. Ele segurou o rosto dela e a beijou. Foi rápido. Inesperado. Intenso demais para um lugar tão silencioso. Aruna congelou por um segundo e esse segundo importava. Sarah fez questão de escrever isso. Mas então Aruna cedeu. Não porque fosse fraca. Mas porque gostava dele. Porque ainda gostava. Ela correspondeu ao beijo com a mesma intensidade que sempre teve quando estavam sozinhos. As mãos tremendo levemente, o coração traindo a razão. Sarah sentiu os olhos arderem enquanto escrevia. No livro, o beijo não resolvia nada. Quando terminou, Aruna se afastou primeiro. Arrumou o moletom. Pegou o caderno. A mochila. — Não faz isso — disse, baixo. Não havia acusação. Só exaustão. Ben tentou sorrir, como sempre fazia depois. — Viu? — ele disse. — Você ainda gosta de mim. Aruna o encarou por alguns segundos. E então respondeu algo que Sarah nunca tinha dito naquela época mas que agora precisava existir na história: — Eu nunca disse que não gostava Ben. Esse não é o problema aqui. Ela saiu da biblioteca sem olhar para trás. Sarah parou de digitar. Aquela cena doía mais do que as outras porque era honesta demais: não havia vilão claro, nem heroína perfeita. Havia uma garota inteligente, magoada, ainda apaixonada. E um garoto imaturo, confuso, incapaz de gostar sem ferir. Sarah respirou fundo, sentindo o peso daquilo tudo se acomodar no peito. Ela não estava escrevendo para justificar Aruna. Nem para condenar Ben. Estava escrevendo para mostrar o ponto exato em que o amor deixou de ser suficiente. E isso… isso era literatura de verdade
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