Capítulo 25. Lançamento do livro

752 Palavras
Alguns dias depois, o interfone tocou no meio da tarde. Sarah estava sentada à mesa da cozinha, revisando anotações antigas sem realmente prestar atenção em nada. O som a fez erguer o olhar, confusa, como se não estivesse esperando ninguém porque não estava. — Entrega para a senhora Dunclin — disse a voz metálica. O coração dela acelerou. — Deixa subir. — respondeu, levantando-se rápido demais. Minutos depois, a campainha tocou. Sarah abriu a porta e recebeu uma caixa média, simples, sem logotipo chamativo. Assinou o recebimento com a mão levemente trêmula e fechou a porta devagar, como se o silêncio fosse necessário para o que vinha a seguir. Colocou a caixa sobre a mesa. Ficou alguns segundos apenas olhando. A etiqueta trazia o nome dela impresso com clareza: Sarah Dunclin. Ela respirou fundo antes de abrir. Dentro, envoltos em papel protetor, estavam os primeiros exemplares físicos de Beijo com sabor de menta. Sarah pegou um deles com cuidado exagerado, como se pudesse quebrar. O livro era mais pesado do que ela imaginava. Real. A capa estava exatamente como a foto escolhida. Ela ali, de bruços, o rosto quase se misturando às folhas de menta. O verde intenso contrastando com a pele clara, o cabelo ruivo espalhado, as sardas visíveis, honestas. O título em letras simples, firmes, sem enfeites desnecessários. Por um segundo, Sarah não se reconheceu. Depois reconheceu demais. Passou os dedos pela capa, sentindo o relevo sutil da impressão. Virou o livro, leu a sinopse, o nome dela na lombada. O nome. O peso disso fez os olhos arderem. Sentou-se à mesa com o livro aberto, mas não leu. Folheou as páginas devagar, sentindo o som do papel, o cheiro da tinta fresca, o corpo físico de algo que por tanto tempo existiu apenas dentro dela. Quando chegou à dedicatória, fechou o livro rapidamente. Sorriu de leve, com emoção contida. O celular vibrou na mesa logo depois. Agente: Chegou? Sarah digitou com cuidado. Sarah: Chegou. Segundos depois: Agente: Parabéns. Ele existe agora. Ela pousou o livro ao lado do coração por um instante, os olhos fechados. Existia. E, naquele momento, Sarah entendeu que aquele não era apenas o começo da divulgação, das críticas, dos leitores. Era o fim de algo antigo. O passado estava, finalmente, encadernado. E ela estava pronta para o que viesse depois. O lançamento foi marcado para um sábado à tarde. Nada de evento grandioso, nada de palco ou discursos longos. Apenas o livro colocado no mundo como Sarah sempre acreditou que histórias deveriam ser lançadas: com verdade, não com espetáculo. Mesmo assim, o impacto foi imediato. As primeiras horas passaram tranquilas demais. Sarah tentou se distrair, organizando o apartamento, fazendo café que esfriava esquecido na xícara. O celular, no entanto, não parava. Mensagens. Notificações. Atualizações do agente. — Primeira tiragem quase esgotada. — Leitores postando fotos da capa. — Resenhas aparecendo antes do previsto. Sarah sentou no sofá, o livro nas mãos, tentando acompanhar. À medida que a tarde avançava, os números cresceram de forma absurda até mesmo para os padrões altos que ela já tinha como autora consagrada. Livrarias físicas ficaram sem exemplares antes do fim do dia. Plataformas digitais travaram por alguns minutos. A hashtag com o nome do livro começou a circular, puxada por leitores que se reconheciam demais na história. Sarah leu alguns comentários, com cuidado. “Isso doeu.” “Nunca me senti tão exposta por um livro.” “Não é romance. É sobrevivência.” Ela sorriu. Depois fechou o aplicativo. A felicidade vinha em ondas quentes, quase eufóricas. O alívio de saber que não estava sozinha naquela experiência. Que alguém, em algum lugar, estava se sentindo visto. Mas junto vinha a insegurança. E se fosse demais? E se as pessoas achassem que ela tinha se exposto além do necessário? E se alguém reconhecesse a história… reconhecesse ele? O celular vibrou de novo. Agente: Acabou em mais três cidades. Vamos precisar reimprimir. Sarah fechou os olhos e respirou fundo. — Eu devia estar só feliz — murmurou para si mesma. E estava. Mas felicidade, quando vem grande demais, também assusta. Ela olhou para o exemplar sobre a mesa, para a capa que agora circulava nas mãos de desconhecidos, carregando pedaços que antes eram só dela. Sarah entendeu que sucesso não era apenas ser lida. Era sustentar o que se disse em voz alta. E, mesmo insegura, uma coisa ela sabia: Ela não se arrependia. O livro tinha encontrado quem precisava dele. E isso, no fim, era tudo o que importava
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