Capítulo 20. Afastamento

815 Palavras
Sarah abriu um novo capítulo. O cursor piscava na tela, insistente, quase impaciente. Ela apoiou os dedos no teclado, respirou fundo… e nada veio. As imagens voltaram rápidas demais. Os dias seguintes. O peso no peito ao acordar. A sensação de entrar na escola como quem entra em território inimigo. O cuidado exagerado para não chamar atenção. A vergonha que não fazia sentido, mas se instalava mesmo assim. Ela tentou escrever Aruna atravessando aquele período. Digitou uma frase. Apagou. Tentou outra. Apagou de novo. O nó na garganta cresceu. Sarah fechou o notebook com mais força do que pretendia e se levantou, andando pelo apartamento sem rumo. Passou pelo espelho do corredor e evitou o próprio reflexo, como fazia naquela época. O corpo lembrava antes da mente. Ela se deitou na cama ainda vestida, encarando o teto branco. O silêncio do apartamento era ensurdecedor. E então veio. Não o choro bonito de catarse. Veio o choro preso, silencioso, aquele que aperta o peito e faz o ar faltar. As lágrimas escorreram sem aviso. Sarah virou de lado, abraçando o travesseiro como se estivesse de novo com dezesseis anos, sentindo aquela mistura confusa de humilhação, saudade e culpa culpa por ter gostado, culpa por ter acreditado, culpa por ter deixado acontecer. Ela lembrou de como se sentiu pequena. Substituível. Ridícula. Lembrou de se perguntar o que havia de errado com ela. Se o problema era o rosto. O corpo. As sardas. O jeito. A inteligência. O choro aumentou quando percebeu que, por muito tempo, ela realmente acreditou que merecia aquilo. — i****a… — murmurou para si mesma, a voz embargada. Não para a garota que foi. Para o mundo que permitiu. Ficou ali por longos minutos talvez horas até o corpo cansar de doer daquele jeito agudo e a dor virar algo mais fundo, mais silencioso. Quando o choro finalmente cessou, Sarah respirava pesado, os olhos inchados, o peito sensível. Ela não escreveu mais naquela noite. Mas, deitada no escuro, entendeu algo importante: Não era bloqueio criativo. Era luto. Luto pela menina que gostou sem malícia. Que acreditou sem cinismo. Que aprendeu cedo demais a endurecer. Sarah fechou os olhos. No dia seguinte, ela sabia, teria que escrever isso também. Mas naquela noite, ela apenas se permitiu sentir. E isso por si só já era um tipo de coragem. Sarah acordou cedo, com o corpo ainda pesado, mas a mente estranhamente clara. Lavou o rosto, prendeu o cabelo de qualquer jeito e fez café forte demais. Não abriu mensagens. Não ligou para o mundo. Voltou direto para o notebook. Abriu o arquivo. Respirou fundo. E escreveu. No livro, os dias seguintes não tinham grandes eventos. Não tinham confrontos. Tinham ausência. Aruna passou a ocupar menos espaço. Sentava sempre na frente. Falava apenas quando chamada. Andava pelos corredores com livros apertados contra o peito, como se aquilo a protegesse. Sarah descreveu como Aruna aprendeu a se tornar quase invisível não por timidez, mas por estratégia. Invisibilidade doía menos do que exposição. Ben ainda olhava. No começo, olhava demais. O olhar dele a seguia pela sala, pelo corredor, pela biblioteca. Não havia mais provocações, nem sorrisos tortos. Havia algo diferente ali incômodo, talvez arrependimento. Aruna percebia. E fingia não perceber. Sarah fez questão de escrever isso: fingir também é um aprendizado. Com o passar dos dias, os olhares diminuíram. Ben passou a conversar mais alto com os amigos. A rir de outras coisas. A se distrair. Até que parou de olhar completamente. E Aruna achou que estava preparada para isso. Não estava. O capítulo avançava, e então veio o dia. No pátio, no meio do burburinho do intervalo, Aruna viu Ben chegar de mãos dadas com ela. A garota que todos conheciam. Jasmine Belford Alta. Corpo desenhado como se não tivesse precisado se esconder nunca. Cabelo loiro claro, sempre solto. Olhos azuis, chamativos, fáceis de admirar. A menina que ocupava espaço sem pedir desculpas. Sarah descreveu o contraste com precisão quase c***l. Ben sorria diferente com ela. Um sorriso aberto, exibido. Orgulhoso. Aruna sentiu o impacto no peito, rápido e silencioso, como um soco sem barulho. Mas não chorou. Não ali. Ela apenas abaixou os olhos e continuou andando. Naquele dia, Aruna entendeu que ser esquecida dói menos do que ser substituída mas apenas depois que você aprende a fingir que não sente. Sarah parou de digitar por um segundo, engolindo em seco. Depois continuou. Aruna não odiava a garota. Não a invejava de verdade. O que doía era a confirmação. Ben não tinha vergonha de quem namorava agora. Não precisava esconder. Não precisava explicar. E isso dizia tudo. Sarah salvou o arquivo e se recostou na cadeira. O coração ainda apertava, mas havia algo novo ali: uma frieza lúcida, quase elegante. Ela não estava mais escrevendo para sobreviver à memória. Estava escrevendo para dar sentido a ela. Ela sabia esse livro não seria gentil. Mas seria honesto
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