Capítulo 27. Sessão de autógrafos

703 Palavras
O dia da sessão de autógrafos chegou rápido demais. Sarah acordou cedo, mesmo tendo dormido pouco. O estômago estava apertado, as mãos frias. Vestiu algo simples nada que chamasse mais atenção do que já chamaria e prendeu o cabelo ruivo de forma leve, deixando algumas mechas soltas. Quando chegou à livraria, entendeu. A fila dobrava a esquina. Gente sentada no chão, livros apertados contra o peito, celulares em punho. A maioria eram meninas adolescentes, jovens, algumas mais velhas todas com o mesmo brilho nervoso no olhar. Sarah parou por um segundo. — Respira — o agente murmurou ao lado dela. Ela respirou. Entrou. O burburinho aumentou assim que a viram. Algumas mãos se levantaram em acenos tímidos, outras em euforia contida. O nome dela foi sussurrado como um segredo compartilhado. Sentou-se à mesa preparada para os autógrafos. Um copo de água ao lado. Uma pilha de livros à frente. A primeira leitora se aproximou com os olhos marejados. — Seu livro… — a voz falhou. — Obrigada. Sarah sorriu, tocada. — Obrigada por ler. As horas passaram rápido demais. Autógrafos. Fotos. Dedicatórias personalizadas. — “Para quem aprendeu a se esconder cedo demais.” — “Com carinho, para você que sobreviveu.” — “Que a menta não apague quem você é.” Algumas meninas tremiam ao falar. Outras falavam rápido, como se precisassem tirar aquilo do peito antes de perder a coragem. — Eu fui a Aruna — disse uma delas, baixinho. — Eu também — respondeu outra, logo atrás. Sarah ouvia mais do que falava. Sorria. Agradecia. Segurava mãos. Em alguns momentos, o nó na garganta era quase insuportável. Ela pediu pequenas pausas, respirou fundo, voltou. Quando uma menina muito jovem colocou o livro sobre a mesa, hesitando, Sarah notou as sardas no rosto dela. — Você gostou da capa? — Sarah perguntou, gentil. A menina assentiu rápido. — Porque ela parece comigo. Sarah sentiu os olhos arderem. — Então ela é sua também — respondeu. Ao fim da tarde, o braço doía, a cabeça girava, mas o coração estava cheio de um jeito novo. Não era vaidade. Não era ego. Era reconhecimento. Quando a última leitora foi embora, Sarah se recostou na cadeira, exausta. O agente sorriu para ela, orgulhoso. — Eu disse que o livro pedia encontro. Sarah assentiu. Ela nunca tinha se sentido tão exposta. E nunca tão compreendida. Quando a última porta da livraria se fechou, o silêncio caiu quase estranho. Sarah ainda estava sentada, caneta largada sobre a mesa, os dedos dormentes. O agente conferia algo no celular, falando baixo com a equipe, até que levantou o olhar para ela com um sorriso incrédulo. — Cento e cinquenta. Sarah piscou. — O quê? — Cento e cinquenta pessoas — repetiu ele. — Todas passaram por você hoje. Uma por uma. Ela soltou uma risada curta, desacreditada, levando a mão ao rosto. — Eu não senti como cento e cinquenta… — murmurou. — Pareceu menos. Pareceu… íntimo. — Porque foi — ele respondeu. — Não foi só um evento. Foi quase uma confissão coletiva. Sarah encostou as costas na cadeira, fechando os olhos por um instante. As vozes vinham em flashes: “eu me escondia no banheiro”, “ninguém me defendia”, “eu achei que fosse só comigo”. Cento e cinquenta histórias. Cento e cinquenta Arunas. E, em cada uma, um pedaço dela. Quando se levantou, as pernas estavam bambas. A equipe começou a desmontar tudo ao redor, mas Sarah ainda segurava um dos exemplares do livro, passando o dedo pela capa seu rosto entre folhas de menta. — Você tá bem? — o agente perguntou. Ela assentiu, respirando fundo. — Tô… só tentando entender quando foi que a dor virou ponte. Ele sorriu de lado. — Quando você decidiu escrever sem se proteger. No caminho para fora, algumas pessoas ainda esperavam do lado de fora, mesmo depois do encerramento. Algumas acenaram. Outras apenas sorriram, como quem compartilha um segredo antigo. Sarah retribuiu. No carro, já indo embora, o cansaço finalmente caiu sobre ela. Encostou a cabeça no vidro, olhando as luzes da cidade passarem. Cento e cinquenta. E ela não sentiu vontade de se esconder depois de ser vista.
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