"A desconfiança é a mãe da segurança."
(...)
Dores em meu corpo inteiro.
Tentei me mover com muita dificuldade e a dor que senti na cabeça me fez abrir os olhos em um susto ao ver flashes da noite passada em minha cabeça, logo me levantando com medo.
Estou em um quarto. As paredes são rosadas junto igualmente ao teto e estou em uma cama enorme de casal cheia de colchas finas e brancas. Alguns móveis bem delicados de cor clara tomam o resto do quarto. Mas aonde é que eu estou?
Me levantei e tentei abrir a porta desesperadamente, mas estava trancada e não sou tão forte assim para arrombar. Olhei ao redor e não vi nenhum sinal de vida ou de como posso sair daqui, havia apenas uma folha em cima da escrivaninha. Caminhei até ela hesitante e a peguei na mão.
Querida Mariana, não fique assustada. Logo logo nós dois nos veremos e várias coisas serão passadas a limpo. Seu passado te espera.
Ass: Yekun
Analisei bem o pepel antes de amassa-o e joga-l fora. Quem diabos é Yekun? E que nome é esse!?
Ele é algum tipo de anjo do mau? Meu Deus eu estou pirando! Mas o que explicaria o homem com asas negras em meu quarto? Me sentei tentando achar alguma resposta, algum sinal que passou despercebido por mim, mas não me lembrei de nada.
O que está acontecendo e porque eu estou aqui?
Ouvi passos largos se aproximando da porta. Corri o mais rápido que pude para trás da cama com medo de poder ser aquele homem outra vez.
Primeiro um barulho de chaves chacoalhado e depois o trinco girou, abrindo a porta. Me abaixei atrás da cama com o coração acelerado e com o corpo trêmulo, com medo do que me aguarda. Medo de ter seu olhar frio e n***o no meu outra vez.
- Apareça logo. Não tenho tempo pra joguinhos. Melhor você sair antes que eu te pegue.
A voz rouca e grossa me fez arrepiar de medo. Me levantei lentamente, temendo o que ele faria comigo se não o obedecesse. Pude ouvir até o barulho de meus dentes tremendo, e vi em minha frente o mesmo homem que estava em meu quarto e que me trouxe aqui.
- O... Onde eu estou? - Perguntei com a voz trêmula, apertando minha blusa com força tentando parar a tremedeira.
- Logo saberá, preciosa - Ele falou em um tom risonho, praticamente rindo do meu medo. Me ajeitei e tirei a expressão de assustada do meu rosto.
- Porque me trouxe aqui? Quem é você ou... O que é você...
Ele fechou a porta e ficou passeando pelo quarto, como se estivesse analisando a cor das paredes e dos móveis, uma coisa bem estranha. A porta estava destrancada, o que me deu uma grande vontade de sair correndo.
- Meu nome é Samyaza - Falou caminhando até mim - Sou um anjo caído.
- Um o que? - Perguntei curiosa. Isso explica as asas, mas também explica a minha loucura. - Isso é um sonho não é? A qualquer hora eu acor...
Ele tapou minha boca com a mão direita e ficou em minha frente, com seus olhos cravados no meus. Minha respiração acelerou. A íris escura de seus olhos fez eu me perder em uma escuridão medonha, uma onda de terror.
- Não é um sonho meu amor - Ele maneou a cabeça para o lado - É a Mais pura realidade.
Ele me soltou e pude voltar a respiração normal. Minha visão ficou embarcada e aos poucos também voltava ao normal. Eu já ouvi falar em anjos caídos, mas não me lembro o que são.
- O... Que são anjos... Caídos? E quem é Yekun?
Perguntei ainda atrás da cama. Ele tem um cabelo preto que vai até o ombro e está sem camisa, com a mesma calça de antes. Suas costas não tem nenhuma asa ou marca. Eu vi coisas?
- Porque acha que vou te explicar alguma coisa? - Perguntou sarcástico.
- Se você me trouxe aqui, mereço explicações. Se quisesse me m***r ou algo do tipo, já teria feito.
Ele me olhou de cima a baixo surpreso e bateu palminhas. Suspirei espantando a insegurança do meu corpo.
- Até que você não é tão burra - Ele disse sorrindo e voltando outra vez para minha frente. - Usam a expressão " Anjos Caídos" para os anjos que foram expulsos do paraíso, ou céu como vocês humanos chamam.
- Certo. - Disse revirando os olhos. - Vamos fingir que eu acreditei... E porque você foi expulso mesmo?
- Convenci os anjos de descerem a terra atrás das mulheres, sem poder voltar mais mais para o céu - Disse se vangloriando - Ficar observando as belas mulheres de longe não era o suficiente para mim. Era chato!
- Então você desviou os anjinhos ao pecado? - Falei sarcástica. Ele cruzou os braços e concordou.
- Seja como for, não me arrependo, e nenhum dos outros se arrependem do que fizeram para ser expulsos também.
- Dá pra parar de conversa mole e me dizer o que quer comigo? Você me sequestrou. Você vai ser preso se alguém descobrir meu sumiço.
Ele andou até mim com rapidez e se aproximou ainda mais. Seus olhos estavam outra vez fincados aos meus. Ele pegou em meus punhos e os apertou com força, não consegui segurar um gemido de dor.
- Você ainda acha que é mentira, minha linda Mariana? - Ele disse com um sorriso - Então observe atentamente.
Ele soltou os meus punhis e afastou um pouco, virando de costas. Relaxou os músculos e pude ver algo se mexendo dentro de suas costas, como se fossem ossos movendo de lugar para o outro, uma cena agoniante. Logo um par de asas negras saiu de dentro das suas costas. Tapei minha boca para segurar o grito ao ver as asas negras ficando maiores e mais abertas. Ele se virou e sorriu ao me ver completamente horrorizada e com medo.
- Ai está - Disse olhando para as asas - Elas pegaram uma cor escura quando saí do céu, mas eu gostei assim. Me deixou mais sério sabe...
- Não não não isso é um sonho. Não pode ser real. Nada aqui é real - Começei a chorar de nervosismo - Quero acordar! Me tira daqui! ALGUÉM ME AJUDE!
Gritei sem saber o que fazer. Não pode ser real. Nada disso pode ser real.
- Você acha que sou seu amiguinho? - Ele perguntou e voou parando em minha frente, me fazendo ficar paralizada - Se me derem a ordem de te m***r, será feito sem pensar.
- O... Q...Que vocês q... querem comigo? - Perguntei trêmula.
- Você logo saberá - Disse parando em frente a porta e a abrindo, fazendo um gesto para que eu saísse do quarto.
(...)
No mesmo instante...
- Eu. Não. Consigo! - Falei nervoso.
- Você é o Anjo Gabriel! Tem que conseguir! Seus feitos na humanidade são históricos, você consegue fazer isso.
- Não consigo fazer nada quando estou nervoso, Miguel. Não dá simplesmente para rastrea-la no estado em que me encontro.
Bati em minha testa me reprimindo por não conseguir acha-la. Estamos no topo da torre Eiffel, tentando achar um jeito de encontrar Mariana. Miguel foi quem veio em minha mente quando começei a me desesperar ao ver o quarto vazio e vestígios dos A.C.
Eles gostam de fazer saídas triunfais, como por exemplo, o teto do quarto de Mariana.
- Você deveria estar com sua protegida Miguel - Falei olhando pra ele, já frustrado - Não ocupe seu tempo aqui.
- Você é meu amigo e minha protegida está bem. Temos que encontrar Mariana. Sei o quanto ela é importante pra você - Falou com a mão em meu ombro - Nós poderiamos pedir ajuda aos arcanjos...
- Não. Eles vão falar que ela pode ter sido sequestrada ou sumida por algum acontecimento mundano e que eu não prestei atenção. Não vão querer ajudar.
- Você tem certeza que foram os A.C?
- Certeza absoluta. Eu sei que eles estão atrás dela, mas não sei ainda o porque - Falei me lembrando de alguns anos atrás quando o Anjo Rafael me alertou que há algo obscuro por trás de Mariana, isso me deixou bastante pensativo e apreensivo.
- Se concentre - Miguel falou.
Fechei meus olhos e respirei fundo, tentando localiza-la.
- Pense nela - Ouvi a voz de Miguel - Pense no desejo de ve-la.
Fiz o que mandou. Logo a imagem do rosto de Mariana tomou meus pensamentos. O rosto angelical e os olhos claros, junto com algumas sardas na bochecha que eu gosto de ver e seus lábios rosados e carnudos. Pensamentos impuros que eu não deveria ter.
Pensei no desejo de ve-la com todas as minhas forças. Cada centímetro do meu corpo ansiava para encontra-la antes que acontecesse algo mais grave.
- Pense no quanto você se preocupa e no quanto se importa com ela. Mostre sentimentos.
Ouvi sua voz como um sussurro em meu ouvido, eu já estava perdendo a consciência.
Pensei no quanto me importo, a ponto de ser descoberto por salva-la de algo que seja mundano. Não consigo ve-la passando por alguma dificuldade, o desejo de ajudar é maior que tudo.
Sentimentos?
Logo a imagem de Mariana apareceu outra vez em minha mente, quase como uma lembrança. Ela estava na frente do espelho arrumando o cabelo. Me aproximei e fiquei ao seu lado, observando-a contornar seus olhos com o lápis preto. Ela tinha apenas doze anos.
De repente ela olhou para algo específico no espelho, olhou em meus olhos, mesmo não me vendo. Ficou me encarando por um bom tempo e depois sorriu. A partir desse momento, eu senti. Senti que devia protege-la, senti carinho, amor... E até humaninade florescendo dentro de mim.
- Agora ache-a! - Outro sussurro.
Tudo o que eu estava imaginado ou lembrando, foi embora, e apenas um borrão branco apareceu.
Eu a vi.
Estava caminhando por um corredor com os olhos assustados e meio trêmula. Não reconheci o local, apenas vi o semblante de quem estava ao seu lado. Samyaza. Eu Sabia!
Mas como é que vou tira-la de lá?
É como se eu estivesse caminhando ao seu lado, só que não posso ser visto por ninguém.
"Mariana! " tentei chamar sua atenção. Ela não ouviu, continuou seguindo Samyaza.
Peguei em seu pulso em um ato já desesperador. Ela olhou para o braço na mesma hora e se assustou. Parou de andar e ficou imóvel olhando para o braço, enquanto Samyaza perdia a paciência.
"Vamos garota, não tenho o dia todo"
Ele falou, puxando-a.
Ele a levou para uma sala com apenas uma cadeira que estava virada de costas, alguém estava sentado nela... Eu já posso imaginar quem seria.
Nervoso, peguei em seu braço outra vez, mas não soltei. A puxei para mim com força e ela se soltou dele.
A apertei em um abraço forte e desesperado, ouvindo alguém gritar enfurecido. Desejei com todas as minhas forças sair dali, ir embora e ficar na paz com ela, sem problemas e sem perigo. Logo, os barulhos cessaram.
Ainda sentia o abraço quente e confortável entre nós dois. Nenhum barulho ou grito, vento ou brisa. Meus olhos estavam quase doendo de tão apertados.
- Gabriel... - Ouvi a voz de Miguel, o que me fez abrir os olhos.
Estou na torre Eiffel, junto a Miguel que me olhava assustado.
Afrouxei o abraço sem acreditar que deu certo e encarei Mariana. Ela estava assustada, com a respiração cortada e o coração acelerado.
Quando ela percebeu onde estávamos e me olhou, arregalou os olhos sem me soltar, percorrendo seu olhar por meu rosto e corpo, mas principalmente, por meus olhos.
- É vo... Você... - Ela disse com a testa franzida. Acariciei seu rosto e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, sorrindo. Ela fechou os olhos sentindo a sensação morna que transmito sem tirar os olhos dos meus.
- Sim, sou eu.