Capítulo 3 O Quarto Revirado

1020 Palavras
Leonor desceu do ônibus com a mochila nos ombros e o coração leve. Tinha acabado de prestar vestibular para Letras na capital e, pela primeira vez, sentia que o mundo estava ao alcance das suas mãos. O céu de Cendro de Abete estava limpo, e os cedros balançavam suavemente com o vento da tarde. Mas ao abrir a porta de casa, o ar mudou. Silêncio. Um silêncio denso, cortante. Subiu as escadas com passos cautelosos. Quando empurrou a porta do quarto, congelou. Tudo estava revirado. As gavetas abertas, papéis espalhados pelo chão, livros rasgados, o computador desligado e fora do lugar. O mural de fotos com os amigos havia sido arrancado da parede. O baú onde guardava os seus manuscritos estava escancarado. — O que é isso? — perguntou num sussurrou, sem fôlego. Foi então que ouviu a voz. — Finalmente chegou. A escritora voltou da sua viagem secreta. Isabela estava parada na porta, braços cruzados, olhos em chamas. — O que você fez? — Leonor perguntou, tentando conter o tremor na voz. — Eu fiz o que qualquer mãe faria. Descobri a verdade. Você mentiu pra todos nós. Escondeu dinheiro, contratos, livros! — gritou, avançando um passo. — Você não é minha mãe — disse Leonor, firme. Isabela riu com desprezo. — Ah, claro. A ingrata. A menina que vive fingindo ser vítima. Você deve estar ganhando muito bem com esses livrinhos, não é? E enquanto isso, seus irmãos usam roupas doadas, e eu me mato pra manter essa casa funcionando! — Eu nunca tirei nada de vocês. Tudo que conquistei foi com o meu trabalho. Com as minhas histórias. Com a minha dor. — Dor? Você quer falar de dor? Eu perdi a minha juventude cuidando dessa casa! E você, escondida atrás de uma professora e de um advogado, construiu um império infantil! — disse, jogando um dos cadernos no chão. Leonor se abaixou e pegou o caderno com cuidado. Era o original de “O Menino e a Estrela”, o seu primeiro livro publicado. — Você não tem direito — disse, com os olhos marejados. — Esse dinheiro é meu. É o que me salvou. O que me manteve viva quando você me tratava como um estorvo. Isabela se aproximou, com o rosto a centímetros do dela. — Você vai transferir todo esse dinheiro pra mim. Ou eu conto pra seu pai. E pra cidade inteira. Vamos ver se a escritora perfeita sobrevive ao escândalo. De que deixou a família passando necessidades. Leonor respirou fundo. Pela primeira vez, não recuou. — Conte. Grite. Espalhe eu não me importo. Mas o que eu construí ninguém pode tirar. Nem você. Nem seu veneno. Isabela ficou em silêncio. A menina diante dela não era mais uma criança que tinha medo dela. Era uma mulher. Uma mulher que havia aprendido a transformar rejeição em força e isso a assustou. Leonor recolheu os seus papéis, fechou a mochila e saiu do quarto. Naquela noite, dormiu na casa de Iva. E pela manhã, começou a planejar sua saída definitiva O sol m*l havia nascido quando Leonor voltou para casa. O portão rangeu como se protestasse a sua entrada. Ela respirou fundo, tentando se preparar para o que viria. Subiu os degraus com passos firmes, mas o coração acelerado denunciava o medo que ainda carregava. Ao abrir a porta, encontrou o pai na sala, de pé, com os olhos vermelhos e a expressão carregada de fúria. — Então é verdade — disse Afonso, com a voz baixa, mas cortante. — Você ganha dinheiro com esses livros e nunca deu um centavo pra casa. Leonor parou, surpresa. Não esperava que ele soubesse tão rápido. — Eu... nunca escondi por m*l. Eu só queria ter algo meu. Algo que ninguém pudesse tirar de mim. — Algo seu? — ele riu, amargo. — E a sua família? E seus irmãos? Você come aqui, dorme aqui, vive aqui! E nunca ajudou com nada! — Eu vivi aqui, pai. Mas nunca fui parte disso. Nunca fui sua filha de verdade. O senhor nunca me abraçou. Nunca me chamou de filha. Eu cresci implorando por um olhar, por um gesto. E tudo que recebi foi silêncio e pai eu trabalho fora desde os 14 anos e todo o meu salario sempre ficou com a Isabela o senhor sempre soube disso! Afonso se aproximou, os olhos faiscando. — Você não sabe o que está dizendo. — Eu sei, sim. Eu sei que a única coisa que herdei da minha “mãe” a sal esposa foi o desprezo. E agora o senhor quer o quê? O dinheiro que eu ganhei escrevendo sobre a dor que vivi aqui dentro? Afonso cerrou os punhos. — Você é igualzinha à sua mãe. Fria. Manipuladora. Uma cobra. Leonor sentiu o golpe antes mesmo de acontecer. O tapa veio seco, ardido, e a fez cambalear um passo para trás. — Era pra ter morrido com ela naquele parto maldito — cuspiu ele, com ódio nos olhos. O mundo parou por um segundo. O ar ficou pesado. Leonor levou a mão ao rosto, onde a dor física se misturava à dor de existir. Ela não chorou. Não gritou. Apenas olhou para o pai com uma calma que vinha do fundo da alma. — Agora eu entendo tudo. E não vou mais implorar por amor onde só existe rancor. Virou-se e subiu as escadas. No quarto, o caos da noite anterior ainda estava ali. Mas Leonor não hesitou. Pegou duas malas, dobrou as suas roupas com precisão, recolheu os seus cadernos, seus livros, seus sonhos. Guardou tudo com o cuidado de quem sabe que está deixando para trás não apenas uma casa, mas uma história de dor. Ao descer, Afonso ainda estava na sala, imóvel. — Estou indo pra casa da Iva. E não volto mais. Ele não respondeu. Nem olhou. Leonor saiu, fechando a porta com firmeza. O vento da manhã tocou o seu rosto como um afago. Pela primeira vez, ela sentiu que estava livre, ferida, sim, mas livre. E com as malas nas mãos, caminhou em direção ao que realmente merecia: um recomeço.
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