• Eric •
Quatro, Joanne e Tori entraram numa discussão quando me viram fora da prisão. Enquanto as pessoas discutiam sobre o que acabara de acontecer e eu via Drew e Jessie voltarem a si completamente assustados.
— Ele deve voltar para a prisão agora mesmo! — Tori esbravejou
— Temos coisas maiores para nos preocupar. — Joanne diz — Não sei se você viu, mas Sam acabou de se jogar neste abismo por causa da Jeanine.
— f**a-se a Sam e f**a-se a Jeanine! Nada disso estaria acontecendo se este homem não tivesse liderado o ataques à Franqueza e injetado essas coisas na gente! — ela grita e dá um tapa no meu peito
Eu rosno alto e Joanne toma a frente, ficando entre Tori e eu para evitar que eu a jogue do abismo.
Quatro dispersa todo mundo e então percebe que Tris não está mais na multidão. Ela deve ter aproveitado a confusão para ir se entregar pra Erudição. Isso me deixa um pouco aliviado, já que agora Maria não está sozinha com a louca da Jeanine.
— Iremos atacar a Erudição mais breve do que pensei e Eric será muito útil nesse ataque. — Quatro diz
***
Quatro atirou em todas as câmeras da Torre da Liderança, um pouco antes de me mandar de volta para o meu apartamento. Há guardas armados de prontidão nas saídas do complexo com ordens explícitas para atirar na minha cabeça, caso eu saia daqui sem permissão.
Meu apartamento tem o cheiro de Maria e a cama bagunçada me mostra que ela esteve aqui nas horas antes de ir embora.
Sorrio ao pensar que ela esteve aqui.
Mas fico bem irritado ao ver a poeira nas minhas coisas.
Sei lá, é a Erudição em mim.
Depois de limpar tudo, eu tomo um banho e fico deitado na minha cama, esperando que Quatro me chame. Passo a noite inteira acordada e, quando já são oito da manhã, ouço batidas na minha porta. Me levanto rápido pensando ser Quatro com um jeito de tirarmos Maria e Tris das garras de Jeanine, mas na verdade é Drew com sua melhor cara de desagrado.
— O que é? — franzo o cenho
— A gente pode conversar? — ele pergunta
— Eu tô te ouvindo. — cruzo os braços
— Eu vim aqui te agradecer por ter salvado a minha vida, embora eu não faça a menor ideia do motivo. — ele também cruza os braços
— Eu não gosto de você, Drew.
— Eu sei. — ele afirma — Eu não gosto de você, Eric.
— Eu sei. — confirmo
— Então, por quê? — me encara
— Foi uma reação involuntária. — dou de ombros — Eu só queria agarrar a mão de alguém e, coincidentemente, foi a sua.
— Eu, realmente, não entendo o que caralhos ela viu em você. — ele me analisa inteiro
— É, nem eu. — o olho
— Eu nunca fiquei tão feliz em tomar um tiro. — ele se refere ao tiro que eu dei em seu ombro, no dia do ataque — Não sei como reagiria se acordasse e descobrisse que eu tinha matado ela.
— Sei, sei. — murmuro — Você gosta dela. Isso deve fazer você me odiar mais ainda.
— Fazer o que, né?! — ele sorri irônico
— Aliás, onde é que você estava quando ela saiu do complexo? Amigos tomam conta um do outro, não?
— Eu não vejo Maria desde o café da manhã de ontem. — ele se justifica — Ela discutiu com Jessie por sua causa e passou o dia trancada aqui.
— Por que não veio atrás dela? Por que não insistiu? — elevo meu tom de voz — Por que, caralhos, não armou plantão nesta porta?
— Não ponha a culpa em mim por ela ter se sacrificado, Eric. — ele diz sério — Qualquer um que a conheça bem sabe que ela faria isso de qualquer jeito, porque sempre faz de tudo pra salvar quem ela ama. Aliás, não tire o corpo fora, porque ela está lá por você também.
— Uau. Eu só queria entender porque você me odeia tanto. — sorrio irônico — Claro que isso não é só porque você quer estar na cama dela. — não perco a oportunidade de alfinetar
— Ela pode até amar você, mas você não merece esse amor e sabe disso. E você mesmo deve se odiar por isso.
— Não devia me odiar tanto, Andrew Paxton. — o olho nos olhos — Você veio da Erudição, assim como eu e ficou entre os primeiros, assim como eu. Está olhando para o seu futuro. — abro os braços
— É, mas eu não sou totalmente como você, não? — ele sorri debochado — Diferente de você, eu não fiquei entre os primeiros, eu sou o primeiro.
— Tem sorte da Maria te querer vivo, se não eu iria acabar com você agora. — diminuo o tom de voz, soando ameaçador, e reviro os olhos
— De qualquer forma, obrigado.
— Não espere que aconteça de novo.
***
— Eric! — ouço Quatro gritar do lado de fora, enquanto esmurra minha porta
Me levanto rápido e visto meu colete, pronto pra atacar. Pego uma touca em cima da mesinha e abro a porta do apartamento, vendo um Quatro nervoso ali.
— Estou pronto. — digo colocando a touca na cabeça
— Não vamos atacar agora. — ele diz, pra minha infelicidade — Meu contato na Erudição ajudou Maria a fugir.
— Onde ela está? — franzo o cenho
— Vem comigo, mas não tente nada.
— Tá, já sei. — reviro os olhos — Se não você me mata. Me leve até ela.
Corremos feito dois malucos pelo complexo e eu percebo que está tudo muito vazio. Quatro diz que estão todos acampando no Fosso, como medida de segurança, caso Jeanine reative a simulação suicida.
Saindo do complexo, pegamos o trem e eu apenas sigo o Quatro, me perguntando pra onde é que estamos indo.
★★★
— Quatro atirou em você? — Jeanine pergunta — Eu não vi isso.
— Será que foi porque você estava no chão, desmaiada? — pergunto impaciente
— Alguém chutou minha cabeça. Não me lembro quem. — ela franze o cenho
Fico em silêncio. Eu chutei o rosto dela e a apaguei. Foi o meu sapato que causou a marca arroxeada em sua testa.
— De qualquer forma, talvez ele estivesse se vingando por você estar transando com a irmã dele.
— Como é? — quem franze o cenho sou eu — Que loucura é essa, agora?
— Sol de Maria não é filha do Logan, aquele amigo do seu pai que morreu em um confronto há três anos. — ela diz com tranquilidade — Ela é filha da falecida mãe do Tobias Eaton.
— O que?
Como isso é possível?
Eu era pequeno, mas me lembro da minha mãe dizendo que a esposa do líder da Abnegação havia falecido e que tinha pena do menino que havia ficado. Me lembro que eu sempre agradecia aos Céus por ter minha mãe ao meu lado, já que eu tinha a idade do Quatro e ficava me colocando no lugar dele, tentando me imaginar sem minha mãe.
— Marcus Eaton teve uma filha? — pergunto confuso
— Eu não disse Marcus, eu disse Evelyn. — ela parece despreocupada, teclando em seu computador — Ela forjou a própria morte pra fugir dos maus tratos do marido. Ela deixou o filho pra trás porque estava grávida de um homem sem facção. Nos vasculhamos a cidade inteira, porque tínhamos curiosidade sobre sua morte tão repentina. Seu pai a achou, para mim. Ela havia acabado de dar à luz em um beco sujo terrível. Ele tirou a criança dela e injetou um soro nela que a levou à morte.
— Meu pai matou a Evelyn? — arregalo os olhos
— Eu só soube da criança anos depois. — ela para, pensativa — Eu realmente fui tola por achar que Sol de Maria era realmente filha de Logan com aquela hippie horrenda com quem ele se relacionou no passado. No fim das contas eu a matei a toa. Cheguei a cogitar a ideia de matar a tal Lana também, mas ele morreu antes. Que azar.
★★★
Sinto uma coisa estranha dentro de mim ao me lembrar de uma das minhas conversas com Jeanine. Meu pai é responsável pela morte da mãe do Quatro. Responsável pela morte da mãe do menino que virou o homem que vem me enfrentando há anos.
— Quando eu tava na Erudição, depois do ataque, fiquei sabendo que sua mãe não morreu como realmente pensamos que ela morreu. — começo a falar enquanto observo a cidade passar pela porta aberta do trem
— O que você sabe sobre isso? — Quatro me olha na defensiva
— Jeanine me disse que investigou a cidade inteira, porque achava que sua mãe estava mentindo. Ela disse que colocou meu pai pra procurá-la e ele a achou quando ela tinha acabado de parir Maria em um beco. — respiro fundo — Essa história você já sabe, mas... — coço a cabeça sem jeito
— O que foi? — ele franze o cenho
— Meu pai injetou um soro na sua mãe, logo após tomar Maria dos braços dela. Meu pai matou sua mãe, Quatro. — o olho nos olhos — Você pode até não acreditar, mas por isso eu sinto muito. — deixo claro que somente por isso eu sinto
Quatro franze os lábios me encarando em silêncio. Espero que ele surte e me xingue, mas invés disso ele se aproxima de mim calmo.
— Não se sinta m*l por isso, Eric. — ele dá dois tapinhas em meu ombro — Não precisa.
— Quando eu era pequeno eu costumava imaginar minha vida sem minha mãe, assim como o pequeno menino da Abnegação. — digo me referindo a ele — Isso era muito doloroso.
Fico em silêncio por um tempo e então me dou conta de que falei demais e Quatro me olha de maneira estranha. Eu endireito minha postura e endureço minhas feições, tentando parecer o mesmo Eric de sempre.
— Chegamos. — ele avisa
Franzo o cenho ao perceber que estamos passando pelo setor da Abnegação. Quatro pula do trem em movimento e eu o sigo pensando no porquê de estarmos aqui. Agora, as casas que antes pertenciam aos membros da Abnegação estão servindo de acolhida aos Sem-Facção e tudo é uma verdadeira mistura de cores. Há alguns tonéis de fogo iluminando o local.
Quatro e eu caminhamos lado a lado pelo corredor de casas e chamamos a atenção de algumas pessoas.
— Aqui. — ele diz parando em frente a uma casa — Era a minha casa.
— Maria está aqui? — pergunto curioso — Como?
— Já vai entender.
Parados no portãozinho, vejo um rosto familiar se aproximar. É Ezra, o segundo da lista da iniciação da Maria. Ele está usando um casaco cinza da Abnegação, mas usa roupas pretas por baixo, mostrando que ainda pertence à Audácia.
— Então você o trouxe com você. — ele ri fraco
— Ele precisava ter certeza de que ela está bem. — Quatro diz se referindo a mim — E sei que vai melhorar o humor dela.
— Maria e seus gostos esquisitos. — ele comenta brincando — Elas estão lá em cima. Se preparem antes de entrar. — ele intercala o olhar entre Quatro e eu — Ela chegou aqui delirando e bem pálida.
— Onde está Tris? — Quatro pergunta
— Na casa dos Lawrence, do outro lado do setor. Ali veio junto com elas. Aposto que Drew, Jessie e Maria ficarão bem felizes ao vê-la.
— Por favor, pode pedir que elas me encontrem aqui? — Quatro pede e Ezra assente — Obrigado. — abre o portãozinho e entra
— Boa noite, Eric. — Ezra me cumprimenta e se afasta
Sigo Quatro pra dentro da casa e tento não reparar muito no local, já que pouco me importa a casa de uma família Careta. Subimos os degraus da escada e, no fim do pequeno corredor há uma cantoria baixa. Uma mulher com voz trêmula está cantarolando uma música.
Graças a pouca iluminação da casa, tudo o que conseguimos ver quando chegamos na porta do quarto é o que o abajur ilumina. Maria está deitada na cama que suponho ser de Quatro e está coberta até o pescoço, deitada de lado. Ao pé da cama, uma mulher de cabelos idênticos aos dela está sentada choramingando e cantando. Essa cena me deixa confuso, mas parece deixar Quatro comovido.
Ele entra no quarto e se aproxima, pondo a mão no ombro da mulher, que chora ainda mais quando percebe que ele está ali. Eu fico em silêncio, na porta, observando Maria dormir pesado. A luz do abajur me permite observar suas olheiras e seus lábios pálidos.
— Tris estava com um sedativo e injetou nela. — a mulher diz parando de chorar — Pelo menos ela se acalmou. Vá vê-la, meu amor.
Quatro se aproxima da cama e se ajoelha no chão, observando Maria dormir. Ele parece intrigado ao observá-la. Talvez esteja comparando seus traços.
Agora que sei que eles são irmãos, consigo perceber coisas em comum entre eles. O gênio difícil, o jeito mandão, as sobrancelhas grossas, a postura impecável.
Quatro põe a mão na testa dela em um estranho momento de afeto e se levanta, indo para perto da mulher que observa os dois maravilhada.
— Você pode entrar agora, Eric. — ele murmura
Quando ele diz meu nome, a mulher se dá conta da minha presença e se levanta para me encarar. Ela se exalta, perguntando o que eu estou fazendo aqui, mas eu a ignoro e entro no quarto, me ajoelhando ao lado da cama e mexendo nos cabelos da Sol de Maria.
Sol.
Meu Sol.
A luz da minha escuridão.
Sorrio bobo enquanto a observo e sinto uma sensação de alívio me invadir. Beijo sua testa e percebo que ela franze o nariz quando me aproximo, talvez reconhecendo o meu cheiro.
— O que esse homem faz na minha casa? — a mulher pergunta com raiva evidente
— Calma, Evelyn. — Quatro interfere — Eric será necessário no ataque.
Eles entram numa discussão baixinha, mas eu não presto atenção porque minha mente buga, por um segundo.
Ele disse Evelyn?
Evelyn Johnson?
Como ela pode estar viva após esses anos todos?
Arregalo os olhos olhando para eles e finalmente olho o rosto da mulher, reconhecendo os mesmos traços físicos de Quatro e Maria. É ela. Ela está viva.
Então meu pai mentiu para Jeanine?
— Não vamos conversar aqui. — Quatro a faz se calar — Vamos descer e nos reunir. Maria precisa descansar.
— Não sei se estou de acordo com isso, Tobias. — ela retruca
— Lá embaixo, Evelyn. — ele diz mais duro — Vamos, Eric.
Eu o olho contrariado.
Seja lá que p***a vão conversar, eu não quero fazer parte. Não quero sair de perto da Maria de novo.
Ele mantém o olhar firme em mim.
— Não ache que vou te deixar sozinho com a minha filha. — Evelyn diz séria
Dou um beijo nos lábios secos de Maria e fico de pé. Retiro o meu colete e o ponho ao lado dela, em suas costas, sabendo que ela logo irá trocar de posição e procurar algo para abraçar. Foi assim que ela fez comigo quando dormimos juntos. Ela procurou por mim na cama e se enroscou em meu pescoço e meu travesseiro, sentindo meu cheiro.
Dou uma última olhada nela e saio do quarto, sendo seguido por Quatro e Evelyn, que encosta a porta e vai descendo na nossa frente.
— Não achou mesmo que eu fosse deixar você dormir com ela na minha cama, não é? — Quatro me olha e percebo uma pitada de humor em seu olhar
— Vai bancar o irmão mais velho agora? — ergo uma sobrancelha
— Com certeza.