• Maria •
O vento frio da noite soprava e, com ele, meus cabelos balançavam. Eu apenas seguia meu grupo em silêncio, sendo liderada por Eric e estando ao lado de Jessie e Ezra.
Assim que Eric parou, todos nós também paramos. Eu o vi tirar a bandeira laranja fluorescente de dentro do casaco e todos começarem a falar ao mesmo tempo sobre a melhor tática para escondê-la e tomar a bandeira adversária.
Me afasto um pouco do grupo, sentindo-me um tanto aérea. Fico embasbacada pelo tamanho da torre desativada que há naquela parte do terreno. Eu nunca havia ido àquele parque desativado. Acho que, no fundo, há uma hippie caipira dentro de mim, que fica admirada com coisas absurdas.
— É bem simples. — ouço Eric dizer — Vamos deixar dois de guarda e pôr a bandeira lá em cima.
— Não. — digo e volto pra perto do meu grupo, que me encara — A bandeira deve ficar em um lugar baixo.
— Como é? — Eric me olha
— Aquela roda gigante está no terreno do Quatro, não é? — aponto para o brinquedo enorme — De lá eles podem ver tudo.
— Quatro não gosta de altura. — Eric murmura me observando curioso
— Mas o grupo todo não é só ele, não é? — ergo uma sobrancelha
— Precisamos escolher um lugar baixo pra esconder a bandeira e ficarmos espalhados na área. — Ezra diz — Se ficarmos juntos, chamaremos atenção e todos saberão o que estamos protegendo.
Eric franze o cenho pensativo e olha pro chão. Parece estar pensando em alguma coisa.
Ele se abaixa e pega uma lata de ração amassada. Fica um tempo em silêncio e depois me olha.
— Vamos colocá-la aqui dentro. — ele murmura
— E colocá-la no chão. — sorrio concluindo o raciocínio — Sob aquele pedaço de manilha. — aponto com o queixo para o pedaço de manilha fincado no chão
— Ótimo. — vejo a sombra de um sorriso em seus lábios e ele põe a bandeira na lata — E agora? — joga a lata para mim
— Ataque e defesa. — Ezra diz
— E distração. — pego a lata no ar e dou para Jessie
— Nos dividimos em dois grupos básicos — Jessie diz amassando mais a lata e a colocando semi enterrada embaixo da manilha — E cada grupo terá um subgrupo de apoio.
— Os de defesa ficam por aqui e se espalham na área. — Ezra explica — Sua responsabilidade será abater todos que tentem se infiltrar em nosso terreno. Seu subgrupo deve ficar escondido. Uma parte no alto da torre, outra atrás dos contêineres. Caso alguém passe pela barreira inicial, não chegará perto desta manilha. Mas não podemos deixar que percebam o que estamos protegendo, se não irão investir com mais força na manilha e aí podemos perder o controle.
Ezra é uma mente brilhante.
Pisco e continuo seu raciocínio.
— O ataque terá que invadir a área do Quatro. — digo — Mas com cautela. Terão que mantê-los distraídos para que outra parte do grupo passe despercebido e vá atrás da bandeira deles.
— Gostei. — Eric nos observa — Ataque e defesa.
— Vamos nos dividir o mais rápido possível. — Jessie diz — E precisamos ser silenciosos, então com excessão dos grupos de distração, mantenham a boca calada.
— Você conhece o outro lado do terreno, não é? — olho para Eric
— Como a palma da minha mão. — ele responde me olhando sério
— Está jogando contra o Quatro desde a sua iniciação, não é? — Ezra o olha
— Na verdade, não. — ele não parece feliz em murmurar isso — Mas não vem ao caso.
Isso quer dizer que, em algum momento, Eric e Quatro jogaram no mesmo time? Eles já foram amigos?
É demais pra minha mente.
— Você o conhece bem, Eric. — Jessie o olha também — Onde Quatro esconderia sua bandeira?
Eric parece estar com os miolos fervendo. Ele encara a roda gigante do outro lado do terreno e respira fundo. Parece se lembrar de alguma coisa um pouco antes de dizer.
— Na base daquela roda gigante há uma torre mediana de controle. — parece se esforçar para lembrar de todos os detalhes — Não é muito alta, mas é um bom esconderijo. Fica em cima da plataforma da roda.
— Você tem certeza? — Johnny, um babaca que também está na equipe pergunta
— Absoluta. — ele endurece suas feições e enrijece o corpo — Está lá.
— Ótimo. — Jessie sorri — Tá na hora da gente ganhar essa bagaça.
— Eu lidero a defesa. — Ezra se pronuncia — Sou o segundo mais forte e o único que não deixou barato pro Drew nas lutas. Ele, com certeza, deve liderar o ataque. Se passar pela nossa barreira, eu o pego.
— Ótimo. — Eric diz — Johnny o ajuda. Com dois, ficará mais fácil de neutralizar.
— Não me parece muito justo. — murmuro
— Os jogos da Audácia não são só pra divertir, Maria. — ele me olha — São pra ensinar. E, na vida, não espere situações muito justas. Elas raramente são assim.
— Eu quero liderar a barreira. — Timothy diz
— Eu vou liderar o ataque. — Eric diz — Sam, Madison e Toby vão atrás da bandeira.
— Não. — eu me pronuncio — Eu quero ir atrás da bandeira.
— Você? — ele me encara debochado
— Exato. — afirmo irredutível
— Eu quero você no ataque comigo.
— Sei ser bem silenciosa, Eric. Eu vou atrás da bandeira.
O vejo trincar o maxilar e rosnar baixinho, mas ele não se opõe. Diz que então Toby, Jessie e eu iremos atrás da bandeira. Mas ele deixou bem claro que se perdêssemos, eu levaria todo a culpa por isso.
Apagamos as luzes de nossos trajes e empunhamos as armas, seguindo para onte a luta seria.
Estava silencioso, não parecia haver ninguém. Até que eu vi um fortão pular do contêiner para as costas de Eric e então o tiroteio começar. Eric logo se livrou do cara, deixando-o fora do jogo.
Me escondo atrás de um contêiner branco e fico agachada, esperando o sinal de Eric para que eu passe.
— Eu vou cobrir você. — ele sussurra ao se aproximar de mim — Siga em frente, quando chegar ao fim do corredor dos contêineres azuis, vire à esquerda e depois à direita. Você verá uma estrutura com cadeiras flutuantes e, ao seguir em frente, verá os pés da roda gigante e a plataforma. — ele mexe no bolso de sua jaqueta e me dá uma pequena pistola vermelha com uma cápsula igual — Solte o sinalizador quando estiver com a bandeira.
— Ok. — respiro fundo memorizando e ponho o sinalizador preso na minha cintura — Me deseje sorte. — murmuro
— Você não disse que é da Audácia? — Eric me encara — Então não precisará de sorte.
Vou me esgueirando pelas fileiras de contêineres e logo pego o caminho que Eric me indicou. Está silencioso no corredor de contêineres azuis, mas eu me abaixo e empunho minha arma quando ouço passos apressados.
— Ei. — ouço um sussurro e vejo Jessie e Toby ali
— Onde estavam? — murmuro quase sem som
— Ajudando o Eric a cobrir você. — Toby
— Certo. Passaram pelo grupo de ataque? Viram o Drew?
— Drew não estava liderando o grupo. — Jessie sussurra
— Merda.
Ótimo!, ironizo mentalmente.
Drew está de guarda. Minha luta será com meu melhor amigo.
Corremos silenciosamente pelo corredor e, ao chegarmos ao final de contêineres daquela cor, viramos à esquerda. Seguimos caminho até eu achar a primeira direita e então eu vejo a estrutura que Eric disse. É esquisita.
Parece que foi um brinquedo enorme cujo seu objetivo era tirar do chão as pessoas sentadas em suas cadeiras.
Já precisamos erguer bem a cabeça para enxergar a roda gigante toda.
Quando voltamos a caminhar, Toby é jogado contra o chão.
— Merda! — Jessie aponta sua arma para Quatro, que está em cima dele
— Vão! — Toby grita
Eu ainda fico tempo o suficiente para ver Toby jogar Quatro pra longe, se levantar e chutar sua mão, fazendo com que sua arma vá pra longe. Eu pego a arma de Quatro do chão, ficando com duas armas e saio correndo na direção da roda gigante.
Peggy surge furiosa atirando contra mim, mas eu consigo desviar enquanto atiro de volta. As munições da minha arma acabam, então a jogo no chão e uso a de Quatro.
Quando Peggy joga sua arma longe, provavelmente por estar sem dardos, Jessie se joga em cima dela e a imobiliza no chão.
— Vai, Hippie! Anda! — Jessie grita
Continuo a correr, mas um dardo passa por mim, fazendo com que eu me abaixe e me esconda atrás de uma cabine em ruínas. Espreito pela lateral e vejo que quem atira contra mim é Joanne e Drew se mantém impassível na plataforma da roda gigante.
Respiro fundo.
Sei que logo a arma que peguei do Quatro ficará sem munições. Preciso acertar em cheio.
Me ajoelho atrás da cabine e observo pelo lado oposto de onde estava. Joanne para de atirar para observar. É como um felino espreitando sua caça. Ajeito a arma e atiro, vendo que sua perna é atingida e ela cai urrando de dor.
Saio correndo de trás da cabine e Drew desce da plataforma, se dando conta de que agora somos só nós dois.
— Eu não vou atirar em você. — ele joga sua arma pro lado
— Ótimo, porque isso facilita as coisas. — ironizo o fato dele não atirar em mim, como se eu tivesse alguma chance contra ele numa luta
— Eu disse que esse jogo seria bom. — ele murmura
— Melhor ainda quando eu pegar sua bandeira.
— Vai ter que passar por mim prime...
Drew é interrompido por alguém que se choca contra ele e o leva contra o chão. Vejo que é Eric que luta para imobilizá-lo.
Ele não deveria estar atacando?
Forço minhas pernas a correrem e subo na plataforma, logo entrando na pequena torre. Subo os degraus de ferro e chego na área de controle.
Não tem nada aqui.
— Merda! — murmuro — Merda!
Começo a revirar as máquinas dali com desespero. Do lado de fora, ouço os grunhidos dos dois homens que se atracam feito animais. Apesar de ser mais novo, o físico de Drew não perde em nada para o do Eric. Sei que o confronto deve estar acirrado.
Entre as máquinas, vejo um vão e uma luz rosa. Bato algumas vezes nas máquinas ao lado e então consigo puxar a bandeira adversária dali.
Mas ainda não acabou.
Me penduro para fora da janela e tiro o sinalizador da cintura. O aponto pra cima e atiro, vendo a luz vermelha disparar no céu, indicando que meu time ganhou. Uma sirene alta dispara e então eu ouço gritos. Provavelmente, gritos do meu time.
Ganhamos!
— Tá aqui a hippie machucada. — rosno dando uma alfinetada em todos
***
Após recusar o início da comemoração com a galera, alegando ainda sentir dores e precisar de um banho, sigo para o dormitório. Lá, tomo um banho e visto uma saia preta, uma blusa preta e uma jaqueta. Calço meus coturnos que estão russos de terra e sigo para o refeitório, onde pretendo comer algo e depois ir para o Fosso.
— Parabéns, Hippie.
A voz grave me parou no corredor vazio e sombrio, antes mesmo que eu chegasse ao meu destino. O modo como esse apelido saía da boca dele me deixava arrepiada e num misto de medrosa e extasiada.
Caminhando até mim, Eric surgiu todo super confiante, com seu traje preto, cara de mau e cabelos molhados, penteados para trás.
Não sei se já admiti antes, mas Eric é lindo. Há dois piercings em cima de sua sobrancelha direita, tatuagens em seu pescoço e braços. O típico garoto mau dos livros que eu roubava na escola. Livros antigos, é claro. Isso é considerado tolice para nós, hoje em dia.
Eric se colocou bem na minha frente e deu seu melhor sorriso sombrio. Senti um arrepio na espinha. Ele tem alguns arranhões no rosto, mas nada muito grave não. Espero que Drew também esteja apenas com arranhões superficiais.
— Você é boa. — ele diz me olhando por inteiro e, por um momento, não sei se está falando apenas das minhas habilidades audaciosas
— Eu agradeço o cumprimento. — aceno com a cabeça — Você também não foi nada m*l. Achei que ficaria no ataque.
— Mas se eu não tivesse aparecido, você não pegaria a bandeira. — ele diz em sua habitual pose militar, com as mãos para trás
— Vamos dizer apenas que um ajudou o outro. — sorrio
— Combinado. — ele sorri para mim
Eu não me lembro de tê-lo visto sorrindo. É uma visão linda. Me seguro para não suspirar em sua frente.
— Não vai comemorar? Nosso time está no Fosso.
— Preciso comer alguma coisa antes, mas pode ir na frente. Logo alcanço vocês.
— Vai perder meu discurso.
— Ah, eu prometo ser rápida.
— Certo. — seu sorriso se fecha — Foi bom ter você na minha equipe. — ele oferece sua mão
— É, não foi tão r**m assim ter você como capitão. — sorrio fraco e aperto sua mão
Quando faço esse gesto, sinto o calor de sua mão e algo dentro da minha barriga se aperta.
Seria essa a representação da frase borboletas no estômago?
Eric solta a minha mão, passa por mim e me deixa livre pra seguir meu caminho até o refeitório. Sinto uma vontade grande de olhar pra trás e acabo não resistindo. Olho para trás e observo Eric ao longe com seus passos firmes. Ele fica tão bem vestido de preto.
Quando chego no refeitório, arranco um generoso pedaço de bolo e como, usando um suco pra ajudar na digestão.
Faço o caminho até o Fosso e ouço música. Vejo algumas pessoas dançando quando chego lá. Viro o último gole de suco na boca, mas quase me engasgo quando sinto me tirarem do chão.
— Mas o que...? — franzi o cenho e deixo a latinha cair
— Ganhamos, Maria! — Ezra grita animado me sacudindo em seu colo
— Sim, Ezra. Ganhamos, agora me põe no chão. — peço — Ai, meu Deus! — tento evitar que minha saia suba e mostre demais
— Bota ela no chão, Ezra. — Toby intercede por mim e Ezra me põe no chão
Olho Toby e vejo que ele tem o queixo roxo e o nariz avermelhado. Sorrio para ele.
— Ei, é bom te ver bem. — aperto sua mão
— Quatro bate bem, mas eu sobrevivi. — ele sorri apertando minha mão — Vencemos.
— Vencemos. — concordo
— Seus amigos estão ali. — ele aponta para o outro lado do Fosso, onde Jessie está dançando em cima da mesa rodeada por Ali, Edward e Sam
— Eu vou lá. Tchau, meninos. Parabéns!
Caminho por entre as pessoas na direção de Jessie e Ali, mas Quatro entra no meu caminho. Apesar de ter perdido, ele não está com uma carranca tão fechada assim. Ele sorri pra mim, por mais que seja um sorriso fraco e contido.
— Foi um bom jogo. — ele diz — Parabéns, Hippie.
— Obrigada, Quatro. — aperto sua mão — Mas eu não sou uma hippie, não é?
— Não, não é. — ele solta a minha mão — Você mostrou que é mais insana que a gente. Eu devia ter aceitado a vantagem do Eric de primeira e ter te colocado na minha equipe.
— Perdeu. — brinco
— Vou deixar você comemorar. Só vim te parabenizar e pedir pra você conversar com seu amigo Drew depois. Ele tá bem bravo.
— Imagino.
— Mas aproveite sua vitória agora. Foi merecida.
Quatro passa por mim e eu sigo meu caminho. O grupo me vê antes mesmo que eu chame atenção deles e Jessie pula da mesa diretamente no meu colo. Eu a seguro com força e ela enrosca as pernas na minha cintura. Quase caio, mas Edward me ampara.
— Ganhamos! — ela grita
— Ganhamos! — digo rindo