Madson
Absorta em pensamentos, vou até a varanda e me recosto na parede. Os primeiros raios de sol despontam no céu, o frio matinal me deixa ainda mais pensativa. Meus olhos se voltam para o interior da casa.
Silêncio. Minha tia ainda deve estar dormindo.
Eu prometi a mim mesma que deixaria que ela descansasse o tempo que fosse necessário. Principalmente depois dela ter insistido em ficar na minha casa depois dos últimos dois dias de viajem. Uma viajem a qual ela sempre faz questão de me acompanhar.
Ir ao Jardim Memorial de Boston nunca fica mais fácil. Nunca parece insignificante nem sem sentido ter que pegar o avião e voar por algumas horas até lá. Uma cidade a qual eu desejei nunca ter que voltar, uma cidade onde eu tranquei alguns anos de lembranças, incluindo aquelas relacionadas aos meus pais.
Dois atrás, minha tia me ligou numa quarta-feira e me perguntou se eu queria ir tomar um café com ela.
Era um convite incomum. Não que eu não gostasse de café ou da minha tia. Mas, além de viver em Busan, assim como meus pais, ela também trabalhava lá, como administradora da empresa da família, a WM. Média Group.
Então não havia nenhuma razão para vir até Seul em uma quarta-feira qualquer, mas por algum motivo isso não me acendeu nenhum sinal de alerta.
Deveria ter.
Meus pais haviam morrido durante uma viagem de negócios.
Ficamos sentadas naquele café durante duas horas, mas, quando saímos, os detalhes de como aquilo tinha acontecido ainda reverberavam na minha mente.
O mês seguinte foi péssimo, como seria de esperar. Eu estava cansada. Muito. Para piorar, minha tia estava abalada. Como não estaria? Ela tinha perdido a irmã gêmea. Mas ainda tinha a empresa e suas responsabilidades, o que só servia para tornar tudo ainda mais aflitivo, porque era ela a frente de tudo, e aguentava bem mais firme do que eu.
Sarah Jones sempre foi assim.
Eu havia me mudado para Seattle no ano anterior por conta do início das minhas aulas na faculdade de música. Mas fazia questão de visitá-la pelo menos uma vez por semana, na maioria das vezes mais, e nem nos piores dias ela deixou de me receber com um sorriso.
Foi uma das piores fases da minha vida. Eu havia perdido uma parte mim. Mas durante todo esse tempo, sempre soube que não estava sozinha. Minha tia esteve do meu lado, impendido que eu desmoronasse.
Alguns meses depois, ela encarou o desafio de trazer os negócios da família para Seattle, onde a oportunidade de crescimento era maior. Sendo sincera, não foi fácil lidar com tudo aquilo. Foi mais um reconhecimento de que a coisa certa a se fazer era tentar seguir em frente.
No fim, isso se provou verdade.
Há dois dias, fomos até a casa dos meus pais em Boston para uma cerimônia de homenagem. Na época da morte deles, nós duas havíamos lidado com a perda deles de maneiras diferentes. Eu mergulhei em minha música e meus estudos. Minha tia mergulhou no trabalho, tentando não se lembrar do que tinha acontecido com a irmã.
Hoje posso dizer que as coisas estão melhores. Mas não importa quanto tempo passe, não importa quantas vezes você lide com ela, a morte não fica mais fácil.
Pisco e me afasto da parede. O sol começa a aquecer minha pele. Seguindo para a beirada da varanda, olho para a casa da minha nova vizinha.
Isabella sabe. Deu para perceber só pelo seu olhar. Mas depois que me contou a história do seu pai, eu tive certeza. Assim como minha tia e eu, ela também sabe como é perder alguém que se ama.
Meus olhos se fecham, e a vejo: a garota da casa da frente. Meus músculos relaxam, e eu respiro fundo, tentando me lembrar da nossa conversa. Ela sabe como é estar como eu. Percebi isso cada vez que ela piscara os olhos e seus cílios espessos e compridos baixaram.
— O que você está fazendo aí?
Com um pequeno sobressalto me viro e vejo minha tia me observando. Ela está parada próxima a sala, vestindo apenas seu pijama de seda e ostentando um sorriso sonolento no rosto.
— Apenas pensando sobre algumas coisas. — Respondo sem muita firmeza.
Ela prende os longos cabelos negros no alto da cabeça e me lança um olhar terno antes de dizer:
— Venha cá, querida. Vou preparar algo para nós.
Entro e fecho a porta atrás de mim. Então vou até a cozinha e puxo uma das banquetas do balcão para me sentar. Minha tia se move com naturalidade pela cozinha, como se morasse comigo há anos.
— E então, no que estava pensando? — Uma sombra passa por seus olhos, e ela sorri. — Ou melhor, em quem?
Dou risada e desvio o olhar.
— O que levou você a deduzir que estou pensando em alguém?
— Não? — Ela diz, dando de ombros e voltando a focar no preparo café da manhã. — Então devo estar sonolenta e balbuciando.
— Eu duvido que isso seja verdade. — Observo enquanto ela coloca a chaleira sobre o fogão e um saquinho de chá em uma xícara. Então vai até a cafeteira e pega uma caneca para encher. — Mas talvez não esteja tão errada em seu palpite.
Ela sorri com minha reposta, mas opta por não comentar mais nada.
— Posso te perguntar uma coisa? —
Ela me oferece uma xícara enquanto assente. Agradeço e beberico antes de continuar. — O que achou da nossa visita à Boston?
Minha tia parece pensativa por um momento, então diz:
— Acho que é inevitável não recordar de velhas lembranças durante essas viagens, mas você sabe que não precisamos continuar fazendo isso se for algo que te machuque.
E mais uma vez eu percebo. Percebo o quanto minha vida seria solitária e dolorosa sem ela. Percebo que ela se tornou a pessoa mais importante a habitar meu mundo. Admiro a pessoa que minha tia é. A gentileza que mantém por baixo dessa mulher de pulso firme.
— Agora acho melhor você se apressar — Ela diz, colocando sua xícara dentro da pia.— Tenho que passar na empresa em algumas horas então não vou poder demorar com as compras.
Arqueio a sobrancelha.
— Eu nem estava sabendo que íamos fazer compras. E realmente não acho que tenha necessidade disso.
— Nós vamos, sim — ela diz, passando as mãos pelos cabelos e começando a subir a escada.
— Mas porque? — Pergunto.
— Precisamos comprar algumas luminárias novas, já que a antiga queimou. Você precisa aprender a dar mais atenção para alguns detalhes da casa.
Franzo o nariz.
— Acho que isso nunca vai estar na minha lista de prioridades.
Ela me olha por cima do ombro e sorri.
— Então estou fazendo um favor para sua futura esposa, ensinando você a deixar de ser tão relapsa sobre esse assunto.
Pois é, em momentos assim é quando eu realmente percebo como minha tia é parecida com minha mãe.
[…]
Na maior parte do tempo, ter a companhia da minha tia é maravilhoso. Levaria uma eternidade para conseguir citar todas os benefícios disso. Mas tem também as partes não tão maravilhosas. Por exemplo quando ela passa mais de vinte minutos escolhendo luminárias.
Chega a ser inusitado ver Sarah Jones, vestindo roupas sociais enquanto faz compras em uma loja de departamento. Mas ela não parece nenhum pouco incomodada em estar dedicando seu tempo com essa finalidade. É mais como se ela me desse a percepção de que seu início de vida não contraria a pessoa que ela veio a se tornar: uma administradora e produtora musical excepcionalmente eficaz.
— Por que você não leva essa? — Pergunto, apontando para uma qualquer, com pedestal. A atmosfera barulhenta da loja está começando a me sufocar.
Ela m*l olha para a que sugeri.
— Nem pensar — ela diz, inclinando a cabeça para examinar a luminária em suas mãos. — Você acha que combina com seu edredom?
— Você sabe que eu não me importo muito com esses detalhes.
— Ah, por favor, Madison. Não vamos exagerar.
Abro a boca para argumentar, mas acabo dando de ombros. Essa é outra coisa que eu aprendi nesses anos de convívio com minha tia. É preciso escolher o tipo de discussão em que se vai entrar.
— Acho melhor agilizarmos as coisas por aqui — anuncio. — Não quero que se atrase para seus compromissos. Além disso, marquei de encontrar Kate em um Café.
Mas minha tia não me responde, pois parece estar focada em olhar algo no seu celular.
— Algum problema? — Pergunto, olhando para o celular em sua mão.
— Apenas minha secretária repassando minha agenda — ela diz, levantando a cabeça e guardando o celular no bolso. — Tenho uma reunião com a diretoria em uma hora, provavelmente para falar dos nossos cronogramas para os próximos meses.
— Está vendo — Digo, cruzando os braços na frente do corpo. — É por isso que não podemos passar toda a manhã dentro de uma loja.
Minha tia abre a boca para argumentar, mas então apenas sorri.
Parece que ganhei essa.
Saímos da loja e vamos pegar seu carro no estacionamento. Minutos depois estamos atravessando a rua em direção a um dos cafés da cidade. Aceno para minha tia quando saio do carro, já virando para a porta do estabelecimento.
Lá dentro começo a procurar Kate, com a mente indo em várias direções diferentes, ainda que nenhuma delas seja a da apresentação que vamos fazer no domingo à noite.
Uma garota aparece ao meu lado e passa o braço pelos meus ombros. Seu longo cabelo cacheado está solto e realça sua pele cor de caramelo . O casaco de lã que ela usa parece bem caro, como se tivesse saído de uma loja conceituada .
— Está procurando por alguém, moça? Talvez eu possa te fazer companhia.
Sorrio e enfim me viro para Kate, que já está vendo alguma coisa no celular, acostumada demais à nossa rotina para perder tempo esperando uma reação minha.
Não somos apenas colegas de banda. Kate é minha amiga de verdade, e uma das melhores pessoas que tive o prazer de conhecer. Meio esquentada, mas sempre a primeira a oferecer um abraço quando alguém sai de uma apresentação na faculdade com os nervos a flor da pele.
— Acabei de receber uma mensagem de Brian — ela diz, erguendo os olhos da tela. — Parece que ele teve um problema e por isso não vai conseguir encontrar a gente aqui.
— Por falar nisso, você sabe como ele está? — Pergunto enquanto nos dirigimos até o balcão.
— Acho que está bem. Você sabe como Brian é.
— Muito provavelmente vai mergulhar na faculdade.
— E por falar no Brian… — Kate comenta.
Viro a cabeça na direção que ela indicou. Não é ele, mas Mia, sua ex-namorada. Ela parece sentir nossos olhares. Seu rosto se acende.
— E lá vamos nós — Kate murmura enquanto caminhamos na direção dela.
— Ei, comam comigo! — Mia diz, apontando para as cadeiras vazias em sua mesa. — Não tomei café da manhã e estava morrendo de fome.
Ela faz o convite a nós duas, mas sem tirar os olhos de mim, e me dou conta de que é a primeira vez que nos falamos desde que ela e Brian terminaram.
Kate e eu nos sentamos.
Dez minutos depois, já estou sentindo um clima esquisito no ar. Apesar das várias tentativas de mantermos uma conversa casual entre nós três, Mia sempre dá um jeito de direcionar a conversa para algum flerte atrevido.
Mia sempre foi paqueradora, mesmo quando estava namorando. Não que Brian fosse muito diferente. Mas eu achava que era uma coisa da personalidade deles, afinal eles pareciam funcionar bem assim.
Mas, agora que ela terminou com Brian, sei exatamente o que quer. E isso não vai acontecer. Eu não sinto nada por ela. E também já estou interessada em outra pessoa.
Termino meu café e me recosto na cadeira. Mia tagarela sobre seu tio, que vai conseguir ingressos para um musical.
Olho para Kate, que parece ter se forçado a abraçar a situação assim como eu. Ela abre um sorriso tímido e discreto.
Retribuo, mas uma coisa fica bem clara: Está na hora de irmos.
Anúncio a Mia que já deu nossa hora. Ela ainda insiste, perguntando se não queremos estender o passeio. Mas dou a desculpa de que Kate e eu temos um compromisso em algumas horas, o que não é uma mentira já que vamos praticar um pouco na minha casa. No fim, nos despedimos e entramos no carro da minha amiga.
Fico em silêncio quando ela para o carro na entrada de casa. Mas Kate já está saindo, então faço o mesmo. Saio e vou para perto dela, imaginando que ela vá estar me esperando na porta da entrada. Em vez disso, ela está parada, olhando para o outro lado da rua.
Seguindo seu olhar, um movimento chama minha atenção e vejo Isabella parada perto do carro da sua família. Seus cabelos loiros estão soltos e ela veste um short preto e um suéter sob uma camisa social.
— Ah, então aquela é a garota da qual me falou — Kate diz, sorrindo. — Sua vizinha adorável, certo?
Sorrio.
— Não comece — Digo, observando a maneira concentrada como Isabella olha para a entrada da sua casa. — Vamos lá falar com ela.
Em poucos passos estamos na companhia dela.
— Apreciando a paisagem? — Pergunto.
Ela se vira com um sobressalto ao ouvir minha voz. Então me encara e, por um segundo, fico perdida ao examinar seus olhos de perto. São lindos e bem intensos, combinam perfeitamente com sua personalidade.
— Oi. — Ela diz, sorrindo de forma singela. — Não imaginei que fosse encontrar você hoje.
— Tive uma mudança de planos e cheguei ontem a noite — Respondo. Posso sentir Aeri pairando ao meu lado e dou espaço para ela.
— Me chamo Kate — Ela diz, adiantando-se para apertar a mão dela. — É um prazer conhecer você.
Isabella retribui o gesto.
— Desculpe por não poder ficar muito tempo, mas parece que eu estou de saída. Recebemos um convite para jantar na casa de um amigo da família.
Ela olha para a casa por um segundo. Espero que fique pensativa ou preocupada, mas só parece totalmente resignada com a situação em que se encontra.
Mudar-se para Seattle foi uma novidade bem vinda para mim. Mas reconheço que em alguns casos a mudança pode não ser uma novidade fácil de aceitar. As vezes pode até se transformar em algo estressante.
— Olha, Isabella — Kate diz, chamando sua atenção. — Madison comentou que te convidou para o show da nossa banda. Tenho certeza de que não vai se arrepender.
— Ah, claro — Ela sorri. — Ela me obrigou a admitir que não tinha nada para fazer no domingo.
— Uma coisa que precisa saber sobre a Madison — minha amiga diz baixinho, como se estivesse contando um segredo. — Ela é péssima em ler a atmosfera.
— É mesmo? — Digo, dando um leve tapa no seu braço.
Kate faz uma falsa careta de dor, e Isabella ri, revelando um sorriso que eu ainda não tinha notado. Provavelmente porque ela não é do tipo que distribui sorrisos a troco de nada.
— Talvez possamos conversar sobre isso depois. — Lanço um olhar desafiador para ela, mas um sorriso se insinua em meus lábios.
Kate não responde. Apenas sorri, acenando para Isabella antes de atravessar a rua em direção a minha casa. Bom, o que posso dizer? Minha amiga sabe muito bem como ler a atmosfera.
— E então, já consegue se virar por Seattle?
— Já, mais alguns dias e não terei problema. — Ela me lança um sorriso divertido. — Não vou mais precisar da sua hospitalidade, gentil dama.
Levo a mão ao peito, sorrindo.
— Isso é realmente uma lástima.
Nesse instante, uma mulher sai de casa, seguida por Emma. Ela vai apressadamente para o carro. Estendo a mão educadamente para a mãe de Isabella quando ela se aproxima.
— Boa tarde, Sra. Cooper.
— Vamos, sem tanta formalidade, Madison — Ela diz, esboçando um sorriso. — Tudo bem com você? Faz algum tempo que não te vejo pela vizinhança.
— Sim, senhora — respondo, sorrindo. — Andei ocupada com a faculdade e algumas questões familiares.
— Bom, fico feliz que você e minha filha tenham feito amizade tão rápido. — Ela olha para mim e dá uma piscadela. Isabella está atrás dela neste momento, e posso ver quando leva a mão ao rosto.
— Eu também — respondo.
Ela se vira e vai em direção ao carro, pedindo a Isabella para não demorar.
— Olha, desculpa por isso. — Ela diz, sorrindo. — Minha mãe consegue ser bem excêntrica as vezes.
Sorrindo, me aproximo é seguro seu queixo com a mão. Ela parece surpresa com o contato, mas logo se recupera.
Aproveito a oportunidade para estudar o rosto dela. Sua pele lisa, os olhos castanhos levemente escuros, a boca perfeita na qual tenho me pegado pensando mais do que deveria. Ela é tão linda, e eu me sinto tão privilegiada por poder observar isso.
— Então, é melhor você ir. — Digo lhe dando uma piscadela.
Por um segundo, acho que Isabella está corando, mas então ela sorri e coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Realmente adorável.
Ela fica em silêncio por alguns instantes, então me surpreende, beijando minha bochecha.
— Então até amanhã. — diz antes de caminhar em direção ao carro.
Observo até o carro dobrar a esquina, então caminho em direção a minha casa, onde Kate provavelmente vai me encher de perguntas assim que eu atravessar a porta.