Não sei se comer um chocolate com churros às três da tarde sob o sol de meados de junho no coração de Madrid é ser muito inteligente, mas meu cérebro funciona melhor com altas doses de açúcar.
Preciso me concentrar e colocar os meus neurônios em ordem. Os próprios psicóticos ainda estão traumatizados depois do que viveram esta manhã. Felizmente, no trabalho, eles pensaram que o meu desempenho zero hoje se deve ao confronto com o ex-agressor de Cláudia e, embora não seja um prato apetitoso para quem começa o dia quebrando o nariz, esse dejeto humano não é a única causa.
O verdadeiro culpado que me faz engolir, de uma só vez, as calorias que um time de futebol precisa é o filho da p*uta.
— Quem mais?
Uma coisa é lidar com a sua memória distorcida pelo passar dos anos, quando ele não estava na minha frente, e outra bem diferente é ignorar como o meu corpo continua respondendo ao seu cheiro, às suas carícias, à sua voz me chamando pelo meu m*aldito nome.
Po*rra, como eu senti falta dele!
O seu corpo não era como eu me lembrava. Ele sempre foi um menino magro e atlético, mas depois de transformar cada um dos seus músculos numa arma para o seu trabalho, ele estava superdimensionado. Os seus ombros eram muito mais largos, os seus braços pareciam fortes o suficiente para suportar o meu peso, e nem todo mundo poderia dizer isso.
— Mãe de Deus! Dezenas de imagens nossas, com as mesmas roupas de quando nascemos, dançam diante dos meus olhos, sufocando-me de forma desumana.
— Paco, me dê mais meia dúzia de churritos, por favor! Peço ao dono da lanchonete que fica ao lado do meu trabalho.
— Menina, com esse calor, você não prefere um sorvete? Eu tenho o seu favorito de menta e chocolate.
— Ummm! Que delícia, Paco! É melhor guardar para a sobremesa. Primeiro os churros, que me enchem mais.
— Para a sobremesa?! Muchacha, muchacha... Ele diz entre risos, entrando na cozinha em busca dos churros que preparou especialmente para mim.
Engulo a meia dúzia rapidamente, tentando saciar o meu desejo s*x*ual e me concentrar no que dia*bos posso fazer para me livrar do Pablo. Rejeito a oferta de Melissa de dar a ela uma chance de se explicar. A única coisa que está clara para mim, até agora, é que chegar perto dele e não morrer de combustão espontânea é impossível.
Quase não me lembro do meu nome na presença dele e não só isso, não posso correr o risco de refazer os meus passos e voltar de onde parei depois que ele foi embora.
Devo continuar abraçando esse ódio que tenho por ele por mentir para mim, por me abandonar, por me destruir... Sinto muito, mas prefiro odiá-lo.
Existem milhares de homens nesta cidade que são melhores do que ele e, acima de tudo, menos perigosos. Não vou arriscar que a apaixonada Maria acorde por causa dele. Então, como diz o bom provérbio ...
Não vou beber essa água e não vou fo*der com aquele cara...Eu acho que é algo assim.
Pablo é intocável, e quanto mais longe você estiver dele, melhor.
Com objetivos claros, termino a jornada de trabalho com mais disposição e, ao sair do metrô, paro no supermercado do meu bairro e pego umas cervejas para comemorar com a Marta, que esse dia infernal chegou ao fim.
— Gata da neve! Cumprimento ao entrar na tabacaria, tocando a campainha acima da porta. — Quem quer ficar bêbada para comemorar "essa segunda deu mer*da"?! Eu digo a ela, tilintando as garrafas de cerveja na sua caixa de seis.
— Não me diga isso, rainha...Ela choraminga, fazendo beicinho enquanto sobe os degraus que estão escondidos atrás do balcão e que a trazem até mim. — Eu tenho que sair com o Jose. Sábado foi nosso aniversário e eu esqueci completamente. Então hoje à noite vamos jantar fora para ver se a raiva vai embora.
— Nossa, foi minha culpa, certo?
Na tarde de sábado, cheguei da Jamaica e meio que sequestrei Marta para contar a ela, entre copos de Martini e várias caixas de comida chinesa, impossível de identificar, o que aconteceu durante o casamento, ou seja, Enzo e as mensagens de advertência de Pablo. E não saímos de casa até esta manhã.
— O que você está dizendo! Eu teria esquecido tanto com você quanto sem você. Não estou nessa bobagem de aniversário de primeiro beijo, encontro, look ou qualquer uma dessas mer*das. José é o romântico do casal e hoje tenho que me arrumar para sair com ele para evitar um melodrama. Mas você está bem? Ela pergunta, analisando a expressão no meu rosto procurando por qualquer sinal de mentira nela. O que dia*bos aconteceu com o seu lábio?! Ela exclama agarrando a minha mão com a qual eu estava encostado no balcão, fazendo com que eu quase batesse a cabeça contra a madeira.
— Que força você tem para o quão pequena você é! Eu exclamei, soltando o seu aperto. — Não é nada. Eu asseguro, tocando o pequeno corte no meu lábio que, uma vez seco, arde como uma febre. Tive que ensinar boas maneiras ao ex de um colega de trabalho.
— Está bem, está bem... Não quero saber mais, se não vou cancelar jantar romântico e aceito aquelas cervejas. Ela admite, mas aguçada pela curiosidade ela pergunta. — Só me diga uma coisa, ele ficou pior que você?
— O que você acha? Presumo muito orgulhoso de mim mesmo. — Ele não conseguirá respirar direito numa boa temporada, e não vou contar mais! Você vai jantar e se livrar dessa cara nojenta... Pense em como você vai se divertir quando voltar para casa.
— Que o deus do se*xo te ouça, amiga! Ela proclama enquanto eu vou para casa, com a minha única companhia. As minhas seis cervejas.
Sempre valorizei e apreciei a solidão. Chegar a uma casa onde não havia ninguém à minha espera não era um problema para mim, muito pelo contrário.
O que mais demorei para me acostumar, quando Enzo veio morar comigo, foi sua presença constante. Encontrar coisas fora do lugar em cada canto me dava urticária. Ter que dividir o controle remoto me deixava louca e não considerar um copo de leite com biscoitos como um jantar nutritivo me deixava desesperada.
Levei um tempo para me ajustar a viver com alguém, e acho que vai demorar um pouco para me ajustar a viver sozinho novamente. Ou então digo a mim mesma, quando sento no sofá de couro cinza pedra, sinto que os tijolos aparentes das paredes da sala estão caindo sobre mim um a um.
— Vamos, Maria, você consegue! Eu me animo enquanto tomo o primeiro gole da cerveja quente. — Oh, eca, por favor! Eu protesto no caminho para a cozinha.
Despejo a cerveja quente na pia enquanto coloco o resto na geladeira e despejo o leite para preparar o meu jantar equilibrado de biscoitos.
Não tive tempo de acrescentar o açúcar quando, do balcão da cozinha, vejo o celular piscando na mesinha de centro da sala.
Embora ele tenha me avisado, eu tinha alguma esperança de que ele estivesse blefando.
E pelo que vejo, ele não apenas desbloqueou o seu contato, mas também mudou o nome que salvei para ele na minha lista telefônica de "Idi*ota" para "Seu Deus".
— Seu Deus?! Eu atendo pegando o telefone. A sua besteira tem implicações bíblicas.
— Ai, morena, como é fácil te provocar.
— Thau…
— Não se atreva a desligar na minha cara! Eu o ouço gritar quando eu estava prestes a fazer isso.
— O que? Eu pergunto com raiva.
Que dia*bos você está fazendo, Maria?! Eu me repreendo por cair tão facilmente no jogo de Pablo. Fiz o mesmo que um touro bravo ao mover um manto na frente do seu rosto, eu aceitei sabendo que estava caindo de cara no chão na sua provocação.
— Amor, só vou avisar uma vez, se desligar na minha cara ou me bloquear de novo, eu apareço na sua casa e, dessa vez, o Luis não vai estar aí para nos separar.
O que começou soando como uma ameaça acabou parecendo mais uma proposta indecente e muito tentadora.
— O que você quer, Paulo? Pergunto ofuscada por ceder a ele.
— Eu quero muitas coisas, morena. Ele diz com um tom diferente na voz. Ele não parece mais tão orgulhoso de si mesmo. — Quero que você me dê uma chance de explicar por que fui embora, de mostrar que não parei de pensar em você nem por um m*aldito dia desde então, mas, por enquanto, vou me contentar em saber se você está bem.
— Estou bem. Eu asseguro para ele secamente.
Eu não vou responder mais nada. Já sei as explicações que ele quer me dar e não me interessa ouvi-las da sua boca.
— Mer*da, baby, tudo que eu estou pedindo é que você me escute. Eu juro a você que se depois de fazer isso, você me garantir olhando nos meus olhos que eu não significo mais nada para você, eu o deixarei em paz. Mas enquanto eu tiver uma chance, vou lutar por você.
— Chega, já é tarde.
É tudo o que consigo dizer antes de desligar. Preciso tirar isso da cabeça, porque novamente uma angústia se instala no meu peito, cortando a minha respiração.
Suspiro cansado, cansado da minha mente sadomasoquista reproduzir cada minuto passado com Pablo dentro destas quatro paredes, mesmo que a reforma, na qual investi todas as minhas economias, tenha deixado esta casa irreconhecível.
Mas isso não importa. Só de ouvir a sua voz, todas as lembranças que tenho dele passam diante dos meus olhos, sentindo as mesmas emoções de quando as vivi. Os seus dedos acariciando os meus longos cabelos enquanto nos aconchegamos no velho sofá, que tinha uma tábua sob as almofadas para evitar que você afundasse. Beijos roubados na cozinha enquanto o meu pai assistia a qualquer jogo de futebol e o "Morena, você está acordada?" Que ele sussurrou para mim protegido na escuridão da noite quando veio se deitar na minha cama.
Sempre fingi que estava dormindo para que com suaves carícias ele me acordasse. Gostei de como ele decorava a minha pele com os seus lábios e de como o calor do seu corpo nu aquecia o meu, que o recebia com prazer.
— Eu cago para o Pablo e em tudo que ele me lembra!
Ligo a TV procurando algo que me fisgue e tire dos meus pensamentos. Decido uma maratona CSI Las Vegas. Espero que Grison me dê alguma pista sobre como derrubar um ex-namorado policial sem ser pega.