EPISODIO 5 Eu… Quero?!

1554 Palavras
Caminho calmamente pela orla da praia fumando o meu primeiro cigarro do dia. Pode parecer que estou perdendo tempo, que não quero chegar na cabana da Melissa onde ela está me esperando para o café da manhã, e isso seria verdade. Por trás do seu inocente convite está um interrogatório digno do melhor agente de inteligência do mundo e é disso que estou fugindo. Quando chego lá, ela está sentada à mesa na varanda, e respiro aliviado ao ver como a sua pele brilha sob o sol da manhã jamaicana. O seu sorriso radiante me faz pensar que ela teve uma noite tão interessante quanto a minha. Pena que o garanhão de Cameron fez bem o seu trabalho e deixou a minha amiga bem servida. — Bom dia, p*uta. E o recém-algemado? Pergunto com a voz trêmula. — Droga, vamos, Maria, você consegue. Terminando o seu suco de laranja, Melissa se levanta silenciosamente e caminha até mim, que ainda estava esperando ela no fundo da varanda. Não consigui subir esses dois degraus que nos separam. Sei o que me espera atrás dessa linha imaginária e não quero, não posso… Lentamente ela os abaixa e depois de ajustar o cinto do seu roupão de seda branca, ela agarra a minha mão direita, parando o jogo frenético dos meus dedos nas pulseiras de tecido, de centenas de cores, que voltei a usar, desde a volta do m*aldito Pablo. Só ela sabe o que significam e eu também não estou pronta para admitir. Ela entrelaça os meus dedos com os dela e me ajuda a cruzar aquela fronteira inventada. Dois passos e entro naquele mundo onde a força que finjo ter desmorona aos meus pés. As minhas pernas falham e eu caio no balanço ao lado da varanda, apreciando a vista do Mar do Caribe. Mas não vejo nada além das pontas dos meus pés descalços enquanto hiperventilo com a cabeça entre as pernas. Melissa, ainda em silêncio, acaricia as minhas costas com movimentos hipnóticos que conseguem regular a minha respiração até que consigo controlar a vontade de chorar que ameaçava me sufocar. Eu não choro, prometi a mim mesma que nunca mais faria isso e muito menos por ele. — Está melhor? Melissa me pergunta, ainda me acariciando. Concordo com a cabeça, sem ousar falar. Preciso de um pouco mais de tempo para ter certeza de que não vou desmoronar assim que me abrir para ela e contar tudo de errado novamente. — Eu deveria estar preocupada? Ela tenta parecer calma enquanto a sua mão livre toca as pulseiras que cobrem o meu pulso esquerdo. Eu estava esperando essa pergunta e, embora balance a cabeça, sei que não a convenci. — E o príncipe loiro do seu marido? Eu pergunto, verificando a integridade da minha voz. Não quero testemunhas da nossa conversa. Cameron, que considero o meu cunhado, pode ser muito super protetor e eu não gostaria de ter aquele nerd de 1,80m me observando. — Não se preocupe, ele foi levar os gêmeos e os meus pais ao aeroporto. Eles voltaram para Nova York, temos muito tempo para conversar com calma. — Que bom... Suspirei, sem conseguir esconder o pequeno desejo que sentia. — Tenho que abrir a caixa de Pandora. Precisamos fazer isso? — Não, se você não quiser. Nós podemos apenas ficar juntas observando como o tempo voa. Talvez, para você lembrar que comigo você pode ser você mesma. — Fo*da-se, Mel, não é sobre você. — Eu sei, Maria. Eu te entendo melhor do que você pensa. Ela me assegura com carinho. — Você teme que falar sobre isso se torne realidade e doa mais. Pensei a mesma coisa quando escondi de você tudo o que aconteceu comigo com Cameron em Nova York. Ela não queria admitir que, apesar de tudo, ainda o amava. — Que besteira você diz, Mel! Eu não amo Pablo! Eu exclamo entre risos. Os hormônios da gravidez estão deixando você muito emotiva. Incapaz de ficar sentada por mais tempo, eu me levanto e começo a andar pela varanda. — Eu só me amo. Eu digo para ela com menos convicção do que eu acho que sinto. — Está bem. Estou feliz que seja assim. O verde dos seus olhos ao me olhar me diz que não acredita numa só palavra do que eu disse até agora. — Mas por que você não se senta e me conta o que aconteceu? Eu expiro e, como uma criança emburrada, sento ao lado dela. Dentre todas as coisas que me aconteceram nas últimas semanas, escolho começar pela mais simples, que não é outra senão o anunciado rompimento com Enzo, que foi meu namorado por dois anos. O relacionamento mais longo que tive depois de Pablo. — Desde que Jacob voltou para a Jamaica com a sua mãe, as coisas entre Enzo e eu esfriaram. Ele sentia muita falta do filho, e a verdade é que eu também. — É lógico, Maria. No final, você substituiu o papel de mãe dele durante o tempo que ela viveu com você. Bufo irritada. Não vou cair na armadilha dela e também não vou insistir nas minhas habilidades maternais nulas. Esse assunto é o que menos quero falar, porque tem, sim, o poder de me afundar na fossa em que tento não cair de novo. — Tanto faz, Mel. Concordo um pouco mais defensivamente do que pretendia. — Me desculpe, me desculpe. Eu sou um pouco temperamental E que passei a noite toda fo*dendo. Termino de brincadeira. — Não tem problema. Você fo*deu, eu fo*di, nós dois estamos bem cuidadas. Esse ponto já está claro para nós, então continue, senhorita. Melissa me conhece como a palma da mão e não deixa eu usar artimanhas para me impedir de me explicar. — Ao seu comando, meu general. Provoco, fazendo uma saudação marcial. — Vejamos... para onde eu estava indo? Ah sim! Quando tudo ficou confuso entre Enzo e eu. Pois é, o moleque foi embora e o meu então namorado começou a dizer porque não viemos morar aqui na Jamaica. Como ele pediu a transferência para vir comigo quando nos conhecemos no casamento da Clara, ele queria que eu fizesse o mesmo por ele agora. — Você recusou. Ela afirma e não pergunta, conhecendo os motivos que me impedem de sair de Madrid. — Claro. Eu concordo com ela. Eu entendi que ele queria voltar para Jamaica, mas eu não iria me arrastar para baixo com ele. Eu pareço egoísta e é porque eu sou. Foi culpa dele ver em mim alguém que eu não era. — Ok, o problema do Enzo está resolvido. Ele pediu para você vir, você disse que não e esse é o fim do seu caso. Eu rio soltando a fumaça do cigarro que acabei de acender. — Eu gostaria que tivesse sido tão fácil. Se as coisas já estivessem lá tenso entre nós, Pablo parecia complicá-las mais. — Pablo conhece o Enzo?! Ela exclama, surpresa. — Pessoalmente não, mas ele não é um idio*ta. Assim que Pablo começou a me cercar, Enzo não demorou muito para somar dois mais dois e as travessuras de ciúme seguiram uma após a outra até que finalmente contei a ele. — Que?! O que você disse, Maria? Me*rda, você contou tudo a ele? Ela me pergunta assustada enquanto pega a minha mão esquerda acariciando as pulseiras como eu fazia. — O que você está dizendo, louca?! Digo olhando para ela com cara de assustada. — Apenas. Eu disse a ele apenas o suficiente para fazê-lo perder o desejo de lutar por mim. — Maria… Melissa usa o meu nome como uma reprovação, mas tanto quanto insista, nunca vou aceitar que sou uma boa pessoa. — Mel, você me amaria, mesmo se eu fosse o destruidor de mundos, como o Thanos de Os Vingadores. Eu brinco sem conseguir que Melissa sorria para minhas travessuras — Ele teve que parar de me amar, Mel. Eu continuo. — Enzo tinha que me odiar e foi instantâneo. Assim que ele descobriu, o meu segredinho foi embora e até ontem, no seu casamento, não o vi mais. — Então tudo isso significa que Enzo não era a pessoa certa, apenas mais um idi*ota. — Continue sonhando, amiga. Rindo, apaguei o cigarro no cinzeiro da mesa ao lado do balanço. Melissa e a sua esperança de que eu encontre alguém que me ame. Ninguém vai. Eu já aceitei e ela vai acabar fazendo. — Vamos ver qual dos dois está errado. Ela me ameaça com o dedo, antes de entrelaçar as nossas mãos novamente. — Agora vem a parte mais complicada, e antes que você me pergunte, as minhas entranhas já viraram. — E Pablo...? — Pablo o quê? — Se você me forçar a fazer todas as perguntas que eu quero fazer, você sabe o que quero dizer... — Eu sei, Mel, mas não sei nem por onde começar. — Comece onde quiser. Ela me encoraja, dando tapinhas na minha mão. Fecho os olhos encostada na parte de trás do balanço. Com dor, viajo no tempo até o início de abril, quando as manhãs ainda eram frias e, em uma delas, a patética estabilidade do meu mundo se desfez. Ele voltou sem avisar. E ao fazer isso, ele trouxe consigo... Todas as memórias que me custaram tanto esquecer.
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