Capítulo três

3821 Palavras
– Bem, Cooper, que tal minhas candidatas? Anna se imobilizou. Enquanto escrevia os acontecimentos do dia em seu diário, a tinta acabara. Ela se esgueirou pela escada dos empregados até a biblioteca. Concentrada, ela não ouvira sua prima e lorde de Wellborn entrarem na biblioteca. Olhou em volta, mas eles estavam escondidos pelas pesadas cortinas de veludo, parcialmente puxadas através da alcova. Ela se levantou para anunciar sua presença, mas estancou, lembrando-se do vestido maltrapilho que usava. Magnolia; ainda furiosa pelo modo com o qual Anna a confrontara em relação a Georgie e o cãozinho, estimulara seus hóspedes a atormentarem Anna ainda de maneira mais odiosa do que antes, e ela não agüentaria mais isso. – Você sabe perfeitamente bem, Mags, que eu estou procurando uma esposa, não uma mulher caprichosa. Anna engoliu, envergonhada. Esta era uma conversa muito particular. Ninguém lhe agradeceria por ter ouvido isso. Talvez ela devesse se esgueirar para o terraço. Dirigiu-se para lá. Furtivamente, fez o ferrolho deslizar para trás e girou a maçaneta, mas esta não se moveu – a tramela estava emperrada. – Bem, querido primo, qual delas tem os dentes, os quadris e o temperamento plácido que você requer na mãe de seus herdeiros? Todas têm linhagens impecáveis, pode ter certeza disso. Era tarde demais para declarar sua presença agora. – Quanto a estas exigências, a maioria de suas candidatas as cumpriria, apesar de Miss Kingsley ter os quadris estreitos demais. O queixo de Anna caiu. Exigências? Candidatas? Estas jovens lá fora haviam sido reunidas como candidatas? Anna estava enojada. Que tipo de homem escolheria uma esposa de maneira tão fria e desapaixonada? Mrs. Wilmot estava certa – ele era tão belo quanto uma estátua grega, mas obviamente tinha um coração de pedra para combinar. Anna esperava ansiosamente que ele selecionasse Miss Fiffe-Temple como esposa. Miss Fiffe-Temple era uma das mais belas jovens hóspedes e a que falava mais docemente – na presença dos outros. Na realidade, ela possuía um temperamento sórdido, era uma pequena harpia malévola, que descontava seu gênio nos empregados, fazendo exigências impossíveis com uma voz estridente, beliscando e batendo nas criadas mais jovens, do modo mais perverso possível. Na opinião de Anna isso a transformava na perfeita esposa para lorde de Wellborn! – Na realidade, eu passei a ver, ao refletir sobre isso, que minhas exigências eram inadequadas. Talvez, ela tivesse sido precipitada demais ao julgá-lo, Anna pensou. – Jarretes fortes, talvez, Cooper? – Magnolia claramente tomara mais champanhe do que era adequado a uma dama. – Até onde você quer testá-las? Fazê-las saltar por cima de alguns obstáculos? Colocá-las em uma cerca ou duas? Ou perguntar-lhes se elas gostam de aveia? Eu acho que Miss Camegie tem sangue escocês. Com certeza ela gostará de aveia. – Anna evitou rir alto demais. – Muito engraçado, Mags – disse lorde de Wellborn secamente. – Eu não tenho nenhum interesse nas preferências culinárias de ninguém ao norte da fronteira, nem quero me preocupar com características físicas adicionais das jovens damas que você selecionou. Os olhos de Anna se arregalaram. Magnolia selecionara as jovens? Ele simplesmente esperava escolher uma? Sem se preocupar em fazer a corte? Que homem insuportável! Tão inflado em seu próprio conceito que não precisava considerar os sentimentos de nenhuma jovem dama, supondo que ela ficaria suficientemente lisonjeada apenas com seu pedido! – Então, Cooper, que outros critérios você tem para a mãe de seus herdeiros? – Ocorreu-me que a maioria de suas candidatas é bastante mimada, e costuma ter todas as suas vontades satisfeitas. – Bem, naturalmente elas são um pouco mimadas, mas isso era de se esperar... – Você não está entendendo, Mags. A maioria destas jovens damas considerou uma penitência quase intolerável vir para o campo. – Bem, claro que sim, Cooper! – Magnolia replicou acerbamente. – Qualquer mulher acharia. Quem, em sua sã consciência, gostaria de se esvair no campo? – Eu quero que a mãe dos meus filhos more com eles, e Londres não é um lugar para crianças. – Que besteira! – Você sabe que isso é verdade, Mags, você mesmo mantém seus filhos aqui no campo durante o ano todo. – Sim, Cooper, as crianças moram aqui durante o ano todo, não eu. Eu entraria em depressão se ficasse enterrada aqui por um ano inteiro! – E as crianças, elas não sentem falta dos cuidados de sua mãe? Anna teve que sufocar uma outra risada ao ouvir isso. Magnolia, uma mãe amorosa! As crianças a amariam se ela as deixasse. – Naturalmente, eu passo tanto tempo quanto posso com meus queridos, mas eu também tenho minhas necessidades, Cooper. Tenho responsabilidades como esposa de George, e elas estão em Londres, o que não é minha culpa. Não pense que eu negligencio meus filhos, pois eu os deixo aos melhores cuidados. – Sim, eu pude observar isso. – A voz de lorde de Wellborn era pensativa. – Sua robusta priminha. Robusta! Como ele ousava? Robusta? Anna se sentia mortalmente insultada. Ela podia não ser uma sílfide como Magnolia, mas não era robusta! – Você está mudando de assunto, Cooper. – Robusta! b***a insensível! – Você diria que alguma destas jovens damas concordaria em viver no campo por, digamos, dez anos? – Dez anos? – A voz de Magnolia se elevou e tornou-se um grito horrorizado. – Nenhuma mulher em sua sã consciência concordaria com isso! Meu Deus, você quer uma freira, não uma esposa, não é? Seu pai tentou isso, se você se lembra, e se apegou a isso no máximo por seis meses, enquanto sua mãe o traía com cada cavalariço, cada garoto de estábulo e fazendeiro arrendatário no distrito. Além de satisfazê-lo, é o que eu digo. Não, você não pode estar pensando que isolar uma esposa no campo asseguraria sua fidelidade, não depois disso. – Minha decisão não tem nada a ver nem com você, nem com minha mãe. É que minha esposa não pode se importar em passar os anos de crescimento de meus filhos em minha propriedade no campo com eles. – Bem, poderia ter avisado, pois eu não teria me dado ao trabalho de fazer todo mundo perder tempo com esta charada ridícula. Eu estou muito zangada com você, Cooper. Eu deveria ter notado que não estava falando sério quanto a querer uma esposa. – Eu estou falando muito sério. – Bem, com certeza aqui você não encontraria nenhuma que aceitaria... – Mas eu encontrei. – Você o quê? Não me diga que alguma delas concordou com seus termos ultrajantes, Cooper! Oh, eu não posso acreditar nisso! Quem é ela? Não, não me diga, deixe-me adivinhar. Lady Helen... não. Ela é positivamente viciada na vida em sociedade. E não poderia possivelmente ser Miss Blakeney. Ninguém tão elegante concordaria em ser enterrado no campo por dez anos. Oh, eu desisto, Cooper, quem é ela? Houve uma longa pausa. Anna esperou com a respiração contida. Não podia imaginar nenhuma jovem dama concordando com termos tão desumanos. Dez anos no campo, realmente! E ele se limitaria do mesmo modo às restrições da vida no campo? Anna quase suspirou alto. Claro que não! Somente sua pobre mulher seria afastada da sociedade, criando seus herdeiros como uma boa égua reprodutora. – Bem, Cooper, não me deixe esperando o dia todo. Que esposa você escolheu? Anna se debruçou, apoiada na maçaneta da porta, ansiosa para ouvir sua resposta. – Eu decidi casar-me com... Subitamente a tramela cedeu, e Anna tropeçou para o lado de fora, na noite, perdendo sua resposta. Temendo que a escuta clandestina fosse descoberta, empurrou a porta, fechando-a, e esgueirou-se para longe. Um pouco irritada por ter perdido a melhor parte da fofoca, correu para a cozinha. Que infeliz jovem dama teria lorde de Wellborn escolhido para sua esposa? Ela logo descobriria, supunha. Quem quer que fosse, Anna não a invejava. Isso nada tinha a ver com ela, exceto pelo fato de que a sua escolha assinalaria o final da house party. Todos os hóspedes desagradáveis voltariam para Londres, e ela retornaria à vida pacífica que levara antes. Anna quase saltou de alegria a esta perspectiva.   *** Quando Anna desceu para o café na manhã seguinte, ficou surpresa ao ver que vários hóspedes de sua prima já haviam se levantado. Parou no pórtico, sentindo-se desajeitada e malquista. Apesar disso, decidiu, esta era sua casa e tinha todo o direito de tomar o seu café. Um súbito silêncio caiu sobre o lugar. Foi até o aparador e inspecionou o café da manhã, consciente dos olhares hostis perfurando suas costas. Após um momento, o zunir das conversas retomou. –... ela até que soube se dar bem. – Mas, minha querida, a gente se questiona quanto ao que ela precisamente fez para assegurar... Eles estavam falando da esposa de lorde de Wellborn, Anna pensou. Ele deve ter anunciado seu noivado no baile. Isso explicaria por que tantos haviam descido para o café da manhã. Sem dúvida desejavam partir. – E, é claro, a pobre Mags está muito furiosa. – Claro, minha querida. Você não estaria? Após tudo o que fez por ela, agora isso! Que ingratidão... – Foi uma armadilha, sem dúvida. – Oh, sem dúvida! – Oh, sim, Brooks – Anna sorriu para ele, e estendeu sua xícara para que a enchesse. Enquanto Brooks o fazia, Miss Fyffe-Temple, uma das que se sentavam ao lado de Anna, deu-lhe uma cotovelada brusca. O café quente se derramou na mão e no braço da moça. Ela saltou, com um grito de dor. – Oh, Miss Anna! – exclamou Brooks. – Como fui desajeitada! – murmurou Miss Fyffe-Temple. – Que marca vermelha f**a! Eu espero que não deixe uma cicatriz... – Sim, está bem vermelho e f**o. Está doendo muito? – acrescentou Miss Carnegie. – Oh! Que repugnante! Acho que vou desmaiar – exclamou a Honorável Miss Alderco. As outras imediatamente se juntaram em volta de Miss Aldercott. Segurando as lágrimas, Anna foi para a área de serviço. Mergulhou seu braço em um jarro de água fria e suspirou aliviada. Ainda doía bastante, mas ela não achava que a queimadura fosse muito grave. Mas por que Miss Fyffe-Temple fizera isso? Anna não deixara de perceber o lampejo malvado de satisfação em seus olhos enquanto se desculpava. – A senhorita está bem, Miss Anna? – Não é nada sério, Brooks, é verdade. – Eu não sei como isso foi acontecer. Ela... meu braço simplesmente escorregou. – Está tudo bem; eu sei de quem foi a culpa, Brooks. O que eu não entendo é por que ela fez isso. – Eu acho que a senhorita deveria falar com sua prima, miss – disse. – Ela ainda está na cama, mas eu não tenho dúvidas de que a está esperando. – Eu vou subir e encontrá-la, então, assim que tiver colocado um pouco de manteiga e uma gaze nesta queimadura – disse lentamente. A julgar pela expressão de Brooks, algo estava errado.   *** – Eu? – Anna gritou. Olhou para sua prima, o queixo caindo, totalmente surpresa. – Ah! – cuspiu Magnolia, segurando sua cabeça delicada. – Eu aposto que ele a conhece de outras maneiras, sua espertinha! No sentido bíblico! Por que então ele escolheria uma indigente, um nada como você? Anna arfou primeiro chocada, depois cada vez mais ultrajada. Uma coisa era lhe pedirem que engolisse uma história absurda – lorde de Wellborn querendo se casar com Anna Robinson, realmente! Mas ser acusada de imoralidade! – Deixe-me dizer-lhe uma coisa, prima – disse enfaticamente. – Primeiro, nenhum homem nunca me conheceu no sentido bíblico, e estou chocada com o fato de que você possa até mesmo sugerir algo assim. Segundo, não posso evitar acreditar que você esteja errada em relação às intenções de lorde de Wellborn. – Você pensa que eu imaginaria algo tão h******l? – Anna rangeu os dentes. Imaginação, sim! Ela não podia imaginar nenhum m****o da aristocracia, principalmente o arrogante lorde de Wellborn, escolhendo a parente pobre de sua prima como esposa. – Mas eu não troquei nem mesmo uma palavra com ele – exclamou Anna. – Eu não acredito – guinchou Magnolia. – Prima! Eu dou a minha palavra! – Anna tentou manter a voz em um tom calmo. – Não minta, menina! Ele mesmo me disse que a escolheu. Um pequeno nó frio de medo se alojou no estômago de Anna. Ela nunca vira Magnolia tão furiosa antes, e conhecia bem sua prima. Havia algo de duro, de implacável nela. Este m*l-entendido i****a – resultado de excesso de champanhe, sem dúvida, ou talvez de uma peça pregada por lorde de Wellborn – poderia ter terríveis conseqüências para ela. – Bem, ou você não o entendeu bem, prima, ou então ele está lhe pregando uma peça odiosa. – Uma brincadeira? – Magnolia bufou. – Cooper não brinca, não com casamento. – Talvez você tenha tomado um pouco de champanhe demais, prima, e não tenha notado que ele estava lhe pregando uma peça. – Fez mais uma tentativa. – Isso não faz sentido! Eu sei o que ouvi! – Eu vou falar com ele e esclarecer o assunto de uma vez, está bem? – Anna se levantou. Com certeza era alguma peça que lorde de Wellborn estava pregando em Magnolia. Anna não se divertia com isso. Sua brincadeirinha já fizera com que se queimasse com café quente, e agora estava ameaçando seu trabalho na casa de Magnolia. Mas Sua Alteza pensaria nisso? Ele não! Ele, a quem fora dado tudo o que seu coração desejava, desde quando nascera – não lhe ocorreria que algumas pessoas viviam em uma tênue linha entre sobrevivência e miséria. E o que estava entre Anna e a pobreza abjeta era a boa vontade de sua prima, e nenhuma brincadeira descuidada a colocaria em jogo! Lorde Nariz-em-Pé logo aprenderia que ao menos uma pessoa não estava disposta a ter sua vida destruída por causa do capricho de um lorde! Ela o encontrou na sala de estar do térreo, folheando indolentemente um jornal. – Lorde de Wellborn – ela começou, fechando a porta firmemente atrás de si. – Eu acabei de falar com minha prima Magnolia... Ele colocou o jornal educadamente de lado, levantou-se e veio em sua direção. A voz de Anna desapareceu. Céus, ele era tão alto. Ela o notara mais cedo, é claro, mas agora, de pé, tão perto, pairando sobre ela... – Ah, Miss Robinson. Bom dia. Não é um dia lindo? Sente-se, por favor. Miss Robinson? Ele se lembrava de seu nome? – Er, obrigada. – Anna se permitiu que ele a guiasse até um divã baixo. Ele puxou uma cadeira à sua frente. – Você desejava falar comigo? Para seu grande embaraço, Anna se sentiu enrubescer. Uma coisa era sair correndo declarando que logo esclareceria toda a confusão, e outra era confrontar-se com este aristocrata imaculado e polido sobre uma história totalmente impossível. – Magnolia...? – ele sugeriu. Anna sentiu seu rubor se intensificar. Tudo isso já era ridículo demais. Ela tinha que escapar. Não podia perguntar a este homem se havia algo de verdadeiro no boato de que ele desejava se casar com ela. Isso era obviamente um erro. Sabia que estava sendo covarde, mas não podia imaginar esta criatura séria e fria considerando-a – mesmo em uma brincadeira – como uma esposa elegível. Por outro lado, Anna não descartava a idéia de que sua prima pudesse estar querendo humilhá-la com esta história. Anna já podia imaginar Magnolia entretendo seus amigos londrinos com a piada... Imagine, esta garota tola e estúpida acreditando realmente que Cooper desejava se casar com ela! Quando é só ele estalar os dedos para ter o melhor da sociedade! – Er.... a prima Magnolia teve a impressão... – o olhar de Anna caiu sobre o jornal. –... de que as empregadas se esqueceram de passar o jornal para o senhor, mas eu vejo que elas o fizeram, então eu me vou agora e direi a ela que tudo está... organizado. Ela levantou-se para sair. Lorde de Wellborn também se levantou. Céus! Ele estava ali novamente, de pé, tão perto dela que Anna podia sentir o leve perfume penetrante de colônia masculina. Anna deu um passo para trás e tropeçou no divã. Ele estendeu uma mão forte e a segurou pelo braço, até que se aprumasse e depois a liberou. – Obrigada... tão estabanada... – murmurou, aturdida e contrariada consigo mesma por ser assim. – Fique mais um momento, Miss Robinson. – Anna olhou para cima, intrigada. Um vago sinal de alarme soou em sua mente quando viu o olhar cheio de intenções em seus olhos cinzentos e frios, mas ela o fez calar imediatamente. Sem dúvida ele tinha alguma queixa sobre um empregado. Cooper notou a maneira tranqüila com a qual ela unira suas mãos, o que lhe pareceu um gesto feminino agradável. Todo o seu comportamento lhe agradava. Com certeza Magnolia lhe falara de sua decisão, e, enquanto, ao mesmo tempo, ele desejava que ela não o tivesse feito, as reações da moça confirmavam a sensatez de sua escolha. Não estava nem repleta de excitação vulgar, nem de agitação falsamente recatada. – Você disse que falou com Magnolia? Claro, eu deveria ter esperado que ela não conseguisse manter isso só para ela. Sem esperar por sua resposta, lorde de Wellborn, inesperadamente nervoso, começou a explicar. – Seria melhor se o casamento acontecesse o mais rápido possível. É preciso três semanas para que os proclamas corram. Nós nos casaríamos nesta casa, e meu primo George a levaria ao altar. Eu preferiria algo pequeno, só minha família mais próxima – seu marido – e, é claro, quaisquer amigos ou parentes que você queira convidar... Não podia ser verdade. Ela não estava sentada ali, ouvindo este homem frio e arrogante elaborar as providências para seu casamento. O casamento dela! O seu casamento com Anna Robinson! Uma moça com a qual ele não trocara nem duas palavras. Mas ele nem mesmo lhe perguntara se ela queria se casar com ele! Após algum tempo, o choque se desvaneceu, e ela notou que estava furiosa. E extremamente mortificada. Sabia que a possibilidade de se casar era pequena. Morando no campo como administradora gratuita de Magnolia, tinha contato com muito poucos homens elegíveis, e, sem beleza nem fortuna para recomendá-la, suas possibilidades eram mínimas. Mas uma coisa era enfrentar a perspectiva de uma vida solitária e sem amor, outra, ser tão pouco considerada que nem mesmo merecesse a aparência de uma corte. Seus sentimentos e desejos significavam tão pouco para ele? Lorde de Wellborn se levantou de sua cadeira e começou a andar para um lado e para o outro à sua frente, explicando as providências. Ele notou o rubor delicado de sua noiva, sua cabeça modestamente abaixada, e se cumprimentou novamente pela excelente escolha que fizera. Esta não era nenhuma dama mimada. Estava sentada ali, mansamente, ouvindo seus planos. Como ele poderia ter sido tão t**o a ponto de considerar uma mulher sofisticada da sociedade para ser mãe de seus filhos? Anna Thompson seria grata por sua oferta – ela não tinha ambição mundana, nenhum temperamento hipersensível. Seus olhos passaram pela figura de Anna. Era difícil dizer, por causa do h******l vestido que vestia, mas ela parecia robusta – certamente suficientemente robusta para sobreviver aos rigores do parto. E esta moça, ele acreditava, possuía a capacidade de amar, e ele precisava disso – para seus filhos. Lembrou-se da maneira carinhosa com a qual suas mãos acariciaram o jovem Georgie. Ele queria isso para seu filho... sim, para seu filho... Suas mãos tremiam, ele notou. Cooper observou com aprovação quando ela entrelaçou os dedos com energia, esforçando-se para controlar suas emoções. Excelente. Autocontrole era algo bom em uma esposa. Ele abrandou seu tom. Sem dúvida, tal disparidade em suas respectivas situações na vida a fizeram ficar um pouco nervosa, um pouco ansiosa por agradecer-lhe. Este pensamento não desagradou Cooper. Planejava tratá-la carinhosamente – seu nervosismo passaria com o tempo, e ela, sem dúvida, seria grata por sua indulgência. Seria um começo... Então, ela deveria ser sua égua reprodutora tranqüila e complacente, não é? A mulher que ele planejava manter murada em sua abominável de Wellborn por dez anos ou mais! Ela não o seria de jeito nenhum! A ousadia, a arrogância, a presunção do homem! Ele devia ter decidido que uma mulher simples e pobre lhe daria o mínimo de problemas – uma mulher sem perspectivas, mas com quadris, dentes e linhagem adequada para ser mãe de seus filhos. Uma mulher robusta! Ela tinha vontade de saltar, arremessar ao longe seu pedido de cãs... não – Anna Robinson, a parente pobre, não merecia um pedido, pois ele nem esperara por sua resposta. Apresentara à sua futura égua reprodutora uma suposição de casamento. Bem, o que quer que fosse, ela o lançaria em sua cara! Sobre o que ele estava falando agora? A vista para o lago da casa de verão ao pôr-do-sol? Ah! Eu sinto tanto, lorde de Wellborn, ela lhe diria, mas até mesmo a deliciosa perspectiva de ver o lago dos patos de de Wellborn ao amanhecer não pode me tentar a casar com o senhor. Eu gostaria muito mais de permanecer solteira. Eu sinto muito desapontá-lo. E ela deslizaria para fora do cômodo, a cabeça erguida, deixando-o estupefato, furioso, rangendo os dentes de mortificação. Não, decidiu. Muito submisso, direto demais. Ele merecia provar de seu próprio veneno. Nem se preocupara em falar com ela! Simplesmente informara Magnolia, sem dúvida se oferecendo para aliviá-la de sua parente pobre. Anna fora queimada, abusada e acusada de completa imoralidade, tudo isso por causa de sua arrogância. Ele precisava descer um degrau ou dois de seu pedestal. Ou mesmo três! Anna ria consigo mesma, planejando a vingança – ela o deixaria no ar. Um homem com seu orgulho e importância detestaria ser obrigado a esperar. Os hóspedes de Magnolia obviamente sabiam da escolha de lorde de Wellborn. Eles estariam esperando o anúncio. Anna divertiu-se com o pensamento – ela deixaria a todos esperando... esperando... e esperando. E eles se espantariam ao fazer seu futuro marido esperar, pois, é claro, jamais ocorreria a nenhum deles que ela fosse tão tola a ponto de recusar tal prêmio! Sim, ela os faria, a todos, esperar. Isso seria perfeito para ele! Como seu orgulho sofreria – o grande lorde de Wellborn, prêmio do mercado de casamentos, cortejado e perseguido por cada mamãe casamenteira no país, rejeitado pela insignificante parente pobre! – Os proclamas correriam imediatamente e o casamento seria marcado para daqui a três semanas. Você teria bastante tempo para organizar seu enxoval? – perguntou lorde de Wellborn. Ela se levantou. – Lorde de Wellborn. Eu lhe agradeço por seu muito... surpreendente... pedido de casamento. Será que eu posso pensar na minha resposta? Sem esperar pela sua, Anna falou correndo: – Obrigada, eu lhe informarei assim que puder. – O queixo de Cooper caiu. – Até lá, eu gostaria de sugerir que o senhor não tome nenhuma providência irrevogável...
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