Jean [ON]
Eu não lembro muito de meu sonho, só lembro de mim mesmo, um garoto de quatorze anos de estatura mediana, cabelos lisos e inteiramente moreno de cabelos castanhos e olhos estranhamente cinzas.
A minha direita, existia uma luz amarela quente e a minha esquerda a escuridão que nada conseguia ver, e olhando para os lados sabia que poderia ir para qualquer um destes.
Sempre tive medo do escuro, então dei um passo com o meu pé esquerdo para a luz, e ouvi som de trombetas vindo delas, e imagens de aves se aproximando. Meu corpo congelou enquanto as aves ao longe se aproximavam, e repentinamente senti mãos tão pequenas quanto as minhas segurando dos lados de minha cabeça, puxando minha cabeça com uma forma enorme para trás, me deixando novamente dentre a luz e as trevas, e meu corpo curvado bem forme para trás.
— Desculpe. — Ouvi a voz de uma menino falando, uma voz doce e profunda como um eco, e da escuridão duas bolas brancas foram abertas na frente dos meus.
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Acabei tendo o meu corpo pulando todo de uma vez só pra cima, batendo não só minha cabeça, mas como também a parte da frente do meu corpo todo contra a parte de cima do beliche.
— Aí! — Gritei em dor após bater meu corpo contra a parte de baixo de minha cama, escorregando e caindo no chão.
Levantei meu corpo, olhando o grande quarto empoeirado de madeira velha, com quatro fileiras de beliches com corredores dentre elas, com um menino em cada cama de diferentes idades olhando para mim, alguns de face assustada e outras confusas. Olhei para baixo envergonhado enquanto me levantava, indo para o grande armário que estava no fim do quarto, pegando uma toalha e uma das minhas roupas ali.
— Você é tão desastrado, Jean. — Disse Anthony, o meu amigo mais próximo deste internato para jovens problemáticos.
Anthony era bem diferente de mim, era ruivo de cabelos ondulados e grandes que chegavam ao pescoço, mas picotados, com sardas por todo o corpo dele dos pés a cabeça — Sem zoeira, eu já vi. —, e olhos verdes. O típico menino baixinho e fofinho que jamais teria problemas pra nada, considerando que por fofocas: Ele é o de família com mais condições financeiras deste lugar.
— Eu sou desastrado por me jogarem pro alto?
— Eu já estava te acordado, amigo, não tinha ninguém ao seu redor, eu juro! — Disse ele me olhando demostrando estranheza.
— Eu senti alguém. Ou você viu errado, ou existe um homem invisível, mas me jogaram pro alto, juro pela minha hora no computador!
— Tá bom, tá bom. Vamos se arrumar, se nos atrasarmos vamos ficar sem comida de novo! — Disse o ruivo, fazendo uma carinha de triste. Mesmo zoando, eu sabia o quanto ele ficava deprimindo indo pra escola sem café da manhã por nós atrasarmos conversando.
Nem havia percebido que enquanto conversávamos segurando nossos uniformes marrons e bege em nossas mãos, os outros meninos já iam correndo pegando os seus, além de toalhas, escova de dente, pasta e o resto das coisas para irmos para o banho.
Éramos quarenta garotos de idades distintas e aparências e raças distintas, o mais novo tinha seis e o mais velho dezenove anos. Eu e Anthony éramos os únicos garotos da nossa idade, ele era oito meses mais novo do que eu, então era estranho tudo que eu gostava ele pesquisar sobre, e por isso sempre estarmos juntos, vinte e quatro horas por dia.
— Atenção meninos, meninos, meninos! — Dizia a senhora Aisha Lopes, uma mulher de quase cinquenta e cinco anos pelo que os mais velhos nos contam, sendo uma mulher alta e gorducha de pele escura e com cabelos brancos e que chegavam a altura do ombro, sempre usando um avental e um pano na cabeça.
Eu sempre acho estranho, ela sempre esteve do nosso lado, fazendo nossa comida para todos, além de lavar a louça, a roupa e organizar tudo desde que eu me lembre. Nunca levantando a voz ou gritando, com um sorriso gentil em seu rosto e olhos brilhando, parecendo uma verdadeira santa. Pelo amor de Deus, ela não tem filhos, amigos, uma vida?!
— Meninos, meninos... — Ela continuava repetindo sem aumentar a voz até que todos se silenciassem. Ninguém a desrespeitava, até porque os mais velhos a tratavam como a mãe que merecia mais respeito, e os mais novos seguiam o exemplo. — Primeiramente, obrigado por fazerem silêncio...
— Depois de dez minutos, claro — Disse, Tobias, um garoto branco de olhos puxados que já tinha seus dezessete anos, uns dos mais velhos.
— Diz um dos mais boca de trompete. — Disse outro garoto baixo, logo levantando em mais uma uma típica discussão entre todos os garotos ali.
Enquanto estávamos a discutir sobre fazermos silêncio, a tia Aisha — Apelido carinhoso que Anthony dava, e os mais novos imitavam — apenas esperava em silêncio mantendo um pequeno sorriso paciente.
Após mais alguns gritos, insultos, e um bolinho derrubando um garoto de oito anos por ele chamar um mais velho de “Emilia Tagarela”, a mais velha da casa pode falar.
— Enfim, como vocês deveriam saber, depois de amanhã será o dia das mães e como todos os anos, suas mães viram visitar para ver seus desenvolvimentos em uma festa para celebrarmos! — Ela bateu palmas animadamente, onde só os mais novos a acompanharam. Os mais velhos, de mim para cima, não gostavam muito de suas famílias, pois foram eles que os abandonaram ali.
— Espero a colaboração de todos para usarem a criatividade, dons artísticos e o que desejarem para homenagear a mãe de todos vocês. E agora, podem voltar a comer.
E antes mesmo de terminar a última frase, logo voltamos a comer, roubar comida do prato uns dos outros e brincar até sujarem toda a mesa pela maneira de comemos. Éramos uma grande família, e eu valorizava cada momento naquele lugar.
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Os dias eram basicamente sempre as mesmas coisas, o internato era enorme no quesito terreno, era mais do que quatro vezes do tamanho da onde estávamos morando. A casa era humilde, mas podíamos nos divertir bem juntos no terreno, tinha campo de futebol, parquinho e até um ônibus sem rodas com cadeiras rasgadas e sem porta.
Sempre ficávamos do lado de fora da casa quando não estávamos comendo, pelo menos a maioria de nós, uns poucos preferiam mexer no único computador ou brigarem pela televisão. Na realidade, quase sempre só os mais velhos que preferem ficar lá dentro, e na maioria das vezes era só eu e o meu melhor amigo que brincávamos juntos. Tirando hoje, um dia antes dos dias das mães, enquanto todos estavam planejando como encantar suas mães e m***r a saudade antes de mais meses sem sinal delas tirando raras ligações por semana.
— Eu não ele depois da escola, ele sumiu no intervalo, voltou sem dizer mais nada, ficou quieto até chegarmos aqui, e agora está lá no quarto. — Disse triste sentado encima da pia, com um short de pano curto apenas pelo calor, vendo a tia Aisha fazendo panelas de comida que para mim dava para um batalhão inteiro de soldados, ao meu ver.
— Já perguntou porque ele estava assim? — Disse ela com um olhar triste e ao mesmo tempo apreensivo, olhando para mim e depois voltando a fazer um quilo de comida.
— Já! E muito. Ele fica falando que não é nada e tá tudo bem... Poxa, eu sou o irmão dele, eu acho...
— Vocês sempre serão irmãos! Ele te ama, você o ama, e agir diferente não iria mudar o que ele sente. — Disse ela parando de mexer com uma concha uma panela com dois quilos de feijão com linguiça de porco, e me abraçando com um braço, deixando a minha cabeça descansando em seu ombro. — Talvez, só talvez, ele precise de tempo.
— Não é isso, tenho certeza. — Disse com desgosto, apertando as mãos uma na outra até meus dedos estalarem.
— Então sugiro que vá lá, e só fique perto dele. Quando for o momento certo no coraçãozinho dele, ele vai falar. Pressionar alguém só vai deixar ela mais ansiosa, e com ansiedade não se brinca...
Senti uma boca de lábios grossos beijando o lado direito da minha testa e ela voltou a focar na comida enquanto olhava pra baixo. Ela estava certa, eu sabia disso, então só pulei da bancada ao lado da pia para o chão, indo direto para o quarto, subindo as escadas do canto da sala para o quarto.
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Eu conhecia o meu amigo como ninguém, então não foi difícil de achar ele quando entrei no quarto e só vi Greg, um garoto gordinho de dezesseis anos mexendo no celular, jogando um jogo bem divertido sobre anjos matando goblins com espadadas das maneiras mais violentas possíveis.
— Você não pode se esconder de mim. — Disse deitando no chão, e rolando para de baixo de uma das camas, onde choquei meu corpo contra um braço pequeno e magrelo, olhando para o ruivo todo empoeirado.
— Eu já disse que não aconteceu nada.
— Okay, mas eu ainda vou ficar com você, cuidando de você. — Disse, abraçando ele com os dois braços, ficando de frente para ele enquanto ele estava de lado para mim.
Ele não disse nada, e ficamos um tempo ali, no escuro, eu o abraçando e ele olhando para as madeiras da parte de baixo do beliche, com se estivesse buscando forças para falar com os olhos lacrimejando, como se Anthony estivesse buscando forças para nem deixar os seus olhos se encherem de água.
— A minha mãe foi na escola.
— A viúva do idoso rico?! — Disse, tampando a minha boca na mesma hora. Esqueci que era da mãe dele que se tratava, e que ele não gostava da maneira que sua mãe enriqueceu se casando com um milionário de 79 anos, milagrosamente engravidando dele e herdando tudo.
— Hmmm... — Ouvi seu resumindo de desgosto.
— Desculpe, desculpe. Continua... Se quiser! Continua se quiser, no seu tempo...
— Enfim... Ela falou que não aguenta fazer surpresa. Como o papai morreu e ele queria que eu continuasse aqui, ela não precisa me manter aqui...
Meu congelou enquanto ele falava, e o apertei cada vez mais enquanto ouvia o que partiu o meu coração:
— Amanhã eu vou embora, vamos pro Canadá.
Soltei ele, me arrastando às pressas para fora de baixo da cama, batendo a cabeça na mesma. Não me importava com a dor, o medo de perder o meu melhor amigo era grande de mais... Assim como eu e alguns dos meninos que vieram e foram embora, ele chegou aqui quando tinha alguns meses... Fomos criados juntos, inseparáveis, até comprando as mesmas roupas sempre...
— Jean, calma... Ela concordou em levar você nas férias pra ficar comi-
— Não quero! — Gritei chorando, pulando no grande armário dentre as roupas de todos nós, onde fechei e fiquei segurando para que ninguém abrisse. — Só... Vai embora...
E ali fiquei, por mais ou menos meia hora ouvi seus passos e respiração do outro lado daquelas portas, até que a senhora que nos cuidou como mãe chamou todo mundo para jantar, e ele foi embora.
Chorei até não aguentar mais, pensando em como ele poderia abandonar a gente, aquela casa, me deixar sozinho... Não conseguia respirar, sentia meu peito queimando, estava tremendo de cima a baixo e meu coração batia tão forte que parecia que ia estourar.
— Jean, vamos. Você precisa comer. — Disse uma voz feminina falando para mim. Não respondi. — Ele pediu pra você ir junto, mas a mãe dele disse não... Eu sei que dói, mas você não perdeu ele, se você me deixar abrir a porta, poderemos superar isso-
— Eu não quero... Vai embora por favor. — Minha garganta estava doendo muito, não conseguia descrever a dor que sentia.
— Mas filho...
— Você não é minha mãe. A minha mãe não me quis e pronto. Você é só uma babá bem remunerada.
E após isso só houve silêncio. Fechei meus olhos, ficando ali desde o silêncio, até a volta deles depois do banho, e novamente o silêncio.
Respirei fundo várias vezes, até conseguir sair do armário o mais lentamente possível para não acordar ninguém. Passei pelas beliches e fui para fora do quarto, descendo as escadas enquanto meus braços e pernas tremiam. Descendo, fui da sala para o quarto da mulher que disse palavras tão duras, para me desculpar, tirando do vaso de flores da mesinha de centro uma rosa vermelha para dar a ela — Eu sei que isso é dela, mas ela deve gostar! — Pensava.
— Eles iram chegar amanhã? — Ouvi a mesma voz feminina que ouvi mais cedo, olhando pela fechadura e vendo ela sentada em sua mesa, com um telefone sem fio na orelha.
Houve um silêncio, e ela estava com uma face que nunca tinha visto antes: Estava séria, com um olhar de quem tinha morrido por dentro, e juro que tinha visto ela tirando uma faca de sua saia.
— Entendo... Venha buscar ele agora mesmo, senhora Requena. Eu cuido que o bisbilhoteiro não atrapalhe.
Requena? É o sobrenome do Anthony — Pensei. — Então foi ela quem teve a ideia de tirar ele daqui? Mas... Pera, bisbilhoteiro?
Ela de repente olhou para a fechadura, e senti os seus olhos visando a minha alma.
Ela pegou aquela faca, que era maior do que eu tinha percebido, pela lâmina, jogando contra mim. Avancei para trás, e aquela faca passou pela parede??!
Senti ela passando pela minha cabeça, e uma dor enorme na minha testa, e quando percebi estava caindo no chão, mas não senti me chocando no chão. Minha visão ficou escura, e a dor passou, então senti meu corpo sendo carregado com facilidade pela sala, subindo as escadas, e me jogando na cama.
Fiquei ali, sem conseguir me mexer, vendo só a escuridão. Tentei me mexer, lutei e me esforcei muito, sem sucesso.
Irmão — Chamava, mas às palavras só ficavam na minha mente, não conseguindo ouvir nada ao meu redor, só uma mão no meu rosto e um abraço leve logo após de alguma pessoa menor que eu, mas pelos cabelos passando na minha cara, pelo cheiro do shampoo de coco e perfume, já sabia quem era.
Depois disso, só senti uma lágrima rolando, sabendo que meu amigo estava sendo levado, e eu não pude fazer nada.