Sou o Líder do Comando, conhecido por todos como Lorde. Assumi o comando depois que meu pai foi em cana. Poucos sabem o meu nome, apenas os mais confiáveis.
Sou Gabriel, o líder mais jovem que o comando já teve. Mas não se engane, não alcancei essa posição por ser filho do antigo líder e sim pelo que sou.
Em meio ao caos da invasão dos botas, eles levaram o meu pai e minha mãe, foi morta por eles. Foi um golpe avassalador.
Na reunião subsequente, fui designado como líder do comando e dono da Rocinha. Já era um homem frio e calculista, mas a perda da minha coroa intensificou essa faceta.
Para o mundo, sou considerado o próprio satanás. Mas as coisas mudam dentro de casa, com minha irmã, ainda sou o Gabriel. Conheço o sofrimento pelo qual ela passou com todas essas mudanças, e é por isso que nossa ligação é inquebrável. Protejo-a tanto quanto ela me protege, pois somos os únicos que realmente conhecem o peso do fardo que carregamos.
A responsabilidade pesa nos meus ombros e cada decisão é uma jogada estratégica. O respeito não vem apenas do título, mas das ações e da lealdade conquistada. Nas vielas do comando, onde a vida é medida em cada passo, eu trilho meu caminho enfrentando desafios que moldam a minha liderança e definem o futuro do morro.
Sei muito bem em quem posso confiar e comigo não há segunda chance para pilantragem. Aqui, vagabundo não tem vez.
Dizem que sou frio e que deveria ser mais carismático, mas isso é parte da minha essência, algo que não mudaria por nada e nem ninguém.
Não sou de me apaixonar, na verdade, nem me lembro quando foi a última vez que isso aconteceu. Comigo, é uma experiência única e nada mais, não gosto de repetir.
Hoje vai rolar um churrasco maneiro no Complexo do Alemão, e o King me chamou. Dizem que a filha mais nova dele está voltando depois de anos.
Quem é ela? Não faço ideia, não me lembro dela.
A parte complicada de ir para o morro do Alemão é ter que lidar com Larissa e Talita. Não vou mentir, já me envolvi com as duas, e agora elas quase se matam, achando que uma delas será minha fiel.
Chego no morro trajado na beca. Usando uma bermuda preta da Burberry, camiseta branca da Balenciaga, uma corrente de ouro no pescoço e um relógio de destaque no pulso.
Assim que me vêem, as meninas se entreolham e logo se aproximam, me cumprimentando, passando as mãos pelo meu corpo.
Distancio-me delas, indo em direção ao King para cumprimentá-lo. Pego um whisky, acendo um fininho e mergulho na atmosfera do churrasco no Complexo do Alemão.
O funk alto e as minas jogando a b***a no chão, até que é uma visão boa de onde eu estou. Enquanto sorvo meu whisky, uma mina que eu nunca havia visto, morena e dona de uma b***a maravilhosa vem até mim, já sentando em meu colo. A cara de cu e desgosto das filhas do King, chega até ser engraçado.
Observando a agitação e ouvindo murmúrios sobre o gelo acabando, percebi minha oportunidade para sair por um tempo.
— O gelo tá acabando? — Pergunto, como quem não se importa muito.
— Sim, mas já vou acionar os crias para ir buscar.
— Precisa não, deixa que eu vou. — Comentei, virando o restante da minha dose. — Tenho que comprar uns bagulhos pra mim também, já aproveito a viagem.
Dirijo-me até o carro, solto a marcha em direção ao bar do seu Zé, onde pego o que preciso e ao sair, avistei uma mina loirinha, com ares de patricinha, subindo o morro. Dois soldados, Fumaça e G3, a acompanham. Me surpreendo pois já faz alguns anos que não via fumaça.
A mina, por mais atraente que seja, parece não ter brilho nos olhos, como se não enxergasse o que está acontecendo à sua volta. É um fenômeno difícil de explicar.
Seu Zé, como todos no morro, observa a cena, deixando-me ainda mais confuso.
— A vida não foi fácil para ela, e aqueles olhos são a prova disso. — Diz seu Zé, ficando ao meu lado.
— Quem é ela? — Pergunto curioso.
— É a filha mais nova do King. Não deve estar sendo fácil voltar para cá depois de tanto tempo. Minha menina tinha um sorriso tão lindo em seu rosto, seus olhos brilhavam como duas esferas. Ao olhar para o passado, é possível até ouvir sua gargalhada gostosa pelo morro… mas agora, eu não encontro mais aquela menina. — Ele diz, indo para dentro da cozinha, preparar algo.
Eu permaneço ali, hipnotizado pela cena intrigante.
Olho em direção ao seu Zé, que retorna com milkshake de ovomaltine em suas mãos.
— Maitê! — Ele grita de dentro do bar. — Venha, minha menina, tenho algo que vai gostar.
A mina abre um pequeno sorriso, como se alguma memória fosse ativada em sua mente e em passos pequenos, ela caminha em direção ao seu Zé. Abraça-o sem dizer uma palavra e sem olhar na minha direção.
Ela senta em uma das mesas e começa a saborear o milkshake.
Vejo Fumaça falando algo que não consigo ouvir e depois, se dirige a mim.
— E aí, Lorde! Quanto tempo, parceiro? Como tu tá?
— Ah, achei que não viria me cumprimentar. — Digo dando uma risadinha. — Tô suave, e tu?
— Em primeiro lugar, a segurança dela. — Aponta discretamente em direção a loirinha. — Depois, eu cumprimento os parceiros, é bom estar no Brasil após tanto tempo fora. — Ele diz, rindo. — Tudo firmeza, também. — Quando olho para a menina, nossos olhos se encontram, trazendo uma sensação estranha no peito.
Fumaça, sempre com seu jeito direto, traz uma descontração ao ambiente tenso. Enquanto mantemos a conversa, observo Maitê saboreando o milkshake, sua expressão distante revelando um misto de sentimentos.
— Maitê, esse é o Lorde, nosso líder do comando. — Fumaça me apresenta, tirando ela de seus pensamentos.
Ela levanta os olhos e fixa o olhar em mim por um momento, como se tentasse decifrar algo. Cumprimenta-me com um aceno de cabeça, mas suas palavras permanecem ausentes.
— Lorde, essa é Maitê, a filha mais nova do King. Voltou hoje depois de um bom tempo fora. — Fumaça explica.
— Bem-vinda de volta, Maitê. — Expresso de maneira cortês, mas sua presença evoca uma atmosfera peculiar. — Novamente, ela apenas acenou com a cabeça, como se pouco se importasse. Uma energia desconhecida paira entre nós, alimentando a curiosidade e a perplexidade diante da situação.
O clima tenso persiste enquanto Maitê permanece mergulhada em seus próprios pensamentos, sem revelar muito sobre seu retorno ao morro. Fumaça, percebendo que ela ficou estranha, decide se afastar e retornar à sua posição de segurança.
A indiferença de Maitê em relação à minha presença, destaca-se de todas as interações que estou acostumado. Pela primeira vez, não percebo qualquer sinal de curiosidade ou atenção vinda dela. Essa atitude inusitada me incomoda mais do que eu poderia ter previsto, desafiando a dinâmica habitual das relações no morro.