Eu fiquei vermelha de tanta vergonha, quando vi um garoto alto na minha frente, usando uma camisa preta, jaqueta de couro, calças de jeans escuro, e os cabelos lisos e bagunçados de uma forma sedutora.
- Temos que parar de se esbarrar um no outro. - Ele deu um sorriso de lado.
Eu estava completamente muda.
- Ah, e acho que isso aqui... - Estendeu um s***ã rendado rosa-shocking nas mãos dele. - ...Pertence a você.
E eu o peguei, e coloquei na sacola, querendo me enfiar na sacola também.
- Desculpe... eu... eu estava com pressa. Oi Ricardo. - Eu nem quis chegar perto dele, para não piorar meu constrangimento.
- Oi, Isa. Você já vai embora?
- Na verdade... sim. Eu estou com minhas amigas, e tenho que ir embora.
- Bom... Eu te ajudo... - Ele chegou perto de mim catando as sacolas das minhas mãos, e eu deixei. Por que eu deixei?
- Não precisa. - Eu falei isso tão baixo, que foi quase um sussurro.
- Vamos?
Ele foi andando, e eu fui junto com ele em direção à saída do Shopping.
- Você pode me apresentar suas amigas... oque acha?
- Eu acho... legal.
Eu ainda estava morrendo de vergonha pelo incidente, e nem parei para pensar se estava sendo folgada demais, em deixar ele levar as sacolas.
Me juntei à Carol, Juliane e Bianca, que estavam na entrada me esperando. E localizei os meus irmãos correndo em zigue-zague ao redor de alguns vasos de plantas.
- Desculpe Carol, eu demorei porque...
Ela me olhou com curiosidade, mas depois mudou o olhar para algo do tipo: ''Acho que você tem que nos contar mais alguma coisa...''
- Gente, esse aqui é o Ricardin... Ricardo. Ele é do nosso colégio.
Eu olhei para ele, tomando as sacolas das mãos dele e em seguida, e dividindo elas com a Carol.
- E essas são... Carol, Bianca e Juliane. - Eu apontei para as meninas e ele as comprimentou na ordem, beijando o rosto de todas, e olhando para todas com aquele olhar de ''Sou um galã de novela mexicana''.
- Oi! Você deve ser o meu cunhado, eu sou a Sabrina, a irmã da Isa.
Sabrina correu, parando na frente do Ricardo com os olhos borrados de maquiagem e as bochechas rosadas de blush. Ela estava com a mão estendida para ele, com um enorme sorriso no rosto.
- Ah, oi Sabrina, prazer em conhecer você. Mas eu não sou...
- Sabrina, ele não é meu namorado! - Eu a puxei pelo braço pra longe. - Desculpe pela minha irmã, ela é meio...
- Tudo bem, eu entendo. Meninas, foi um prazer conhecer vocês, mas... eu tenho que encontrar meus amigos, eles estão me esperando. - Ele apontou com o dedo, por cima dos ombros, para a entrada do Shopping - Acho que vamos nos ver no colégio.
Ele acenou para elas e se virou, depois que as meninas deram tchau, sendo o da Juliane o ''tchau'' mais empolgado.
- Ual, como eu não vi ele antes? Ele é simplesmente... um gato! - Ela chegou mais perto de mim, para falar quase sussurrando. - Vocês já...?
- Não! - Eu falei um pouco alto demais, fazendo a Carol e a Bianca rirem de mim. - Quero dizer... Nada a ver Ju. Pode ir em frente, eu e ele não temos nada pendente.
- Jura?
- Juro. - Eu olhei bem nos olhos negros e brilhantes da Ju. - Mas e o Diego?
- Eu e o Diego não temos nada, e ele deixou isso bem claro. - Ela deu de ombros, e se virou.
- Bom... Pode pegar o número do celular do Rick se quiser. - Eu dei o meu celular pra ela.
Ela se empolgou e pegou ele, se afastando para longe para anotar o número do Ricardo.
- Rick? - A Bianca e a Carol ficaram rindo de mim.
- Oque foi? É como chamam ele, eu não posso chamar ele assim?
Olhei o carro vermelho da Tati se aproximando, e me apressei em pegar na mão do Eduardo e da Sabrina e coloquei eles no banco de trás do carro.
- Então... Meninas, eu já vou, estou morrendo de dor de cabeça.
- Não vai me dizer que não vai sábado na festa de boas vindas? Você mesma me torturou pra ir! - A Carol disse.
- Não! É claro que eu vou, até comprei um salto pra combinar com o vestido. - Eu abaixei a cabeça. - Me desculpem por estragar o dia de vocês. - franzi a testa, e mordi meu lábio inferior.
- Você está louca? Do que você esta falando?! - A Carol disse.
- Dos meus irmãos, eu trouxe eles, e estraguei o nosso dia.
- Não seja boba!
A Bia veio e me deu um abraço e logo a Carol e a Ju fizeram o mesmo.
- Graças a você, eu vou ter o que contar mais tarde, quando chegar em casa. - Ela sorriu. - O dia foi muito divertido.
- Ah não esquenta, estamos aqui para oque você precisar e vamos passar por tudo juntas. - A Ju disse, me devolvendo o meu telefone.
- Obrigada, meninas vocês são ótimas pra mim.
- Bom! Agora vamos parar com essa melação que já está ficando chato! - A Carol disse, e todas riram e depois eu entrei no carro.
No caminho, a Tati ficou perguntando oque aconteceu, como foi o dia, e eu despejei tudo nela, mas certa de que ela convenceria a minha mãe a deixar eu ir na festa.
***
Quando cheguei em casa, eu subi para o meu quarto e antes de tudo, tomei um bom banho relaxante. Depois de colocar roupas leves para dormir, jantar, e ficar um tempinho escrevendo no meu diário, eu fui dar uma olhada no que eu comprei. Mas antes de eu abrir as sacolas, a minha mãe bateu na porta.
- Oi? - Eu abri a porta um pouco.
- Eu queria agradecer por ter levado as crianças com você. Eu sei que você não gosta... mas obrigada.
Dei uma boa olhada em minha mãe, ela estava com os cabelos pretos, escorridos e soltos. Imaginando que eu não tinha nada a ver com ela, tirando as bochechas rosadas. Eu era mais parecida com meu pai, cabelos castanhos volumosos e ondulados.
- Não que eu não goste... é que eles são uma responsabilidade muito grande. Entende?
- Eu entendo.
Ela já estava usando seu robe preto, e segurando uma caneca de café com leite como de costume.
- E aí? Comprou tudo oque queria? A Tati me disse que você teve que comprar um urso para o seu irmão e que ele acabou jogando pela janela do carro.
- É. Mas eu comprei o necessário.
- E você comprou um vestido para a festa de sábado?
De repente eu sorri.
- Sério? Eu posso ir?
- Claro.
- Espera um pouco, sem irmãos? Tati ou... você me vigiando?
Minha mãe revirou os olhos.
- Sim. - Ela sorriu. - Sem ninguém.
Eu corri e dei um abraço em minha mãe.
- Só temos que combinar... Você não vai chegar muito tarde, não vai em outros lugares, e vai ficar longe de bebidas e drogas. Você sabe? Não sabe?
- Sim, eu sei, credo. Bom, vou contar para as minhas amigas.
- Tudo bem. - Ela me deu um beijo na testa - Boa noite. - e saiu em seguida.
Eu fechei a porta e peguei o celular para contar que com certeza eu ia estar presente na festa. E de tanto conversar com minhas amigas no celular eu dormi, e nem olhei as roupas que tinha comprado.
Acordei com a luz do sol no meu rosto, era a Tati abrindo a cortina do meu quarto. Tinha me esquecido que hoje era sábado, o dia que a Tati dá uma ''geral'' na casa, acordando todos mais cedo. - CEDO MESMO, eu olhei no meu celular, e ainda eram oito horas da manhã.
- Bom dia Isa! Está na hora de tomar o café da manhã, comprei tudo oque você gosta, pão de queijo, suco de laranja e eu fiz o bolo de aipim que você adora.
- Ok, já estou indo.
E levantei, ainda sonolenta, bocejando, com o cabelo desgrenhado, e usando um pijama branco com ursinhos desenhados, - algumas coisas nunca mudam.
- Você está me escondendo oque?
- Nada. - Ela sorriu e foi em direção a porta, com os edredons no braço.
- Tá, eu finjo que acredito. Mas, obrigada por convencer a minha mãe a deixar eu ir na festa ontem.
- Ela deixou? - Tati levantou a sobrancelha, cautelosa.
- Sim. - Eu me assustei com a reação dela. - E não era pra deixar?
- Claro que era, mais eu nem falei com ela. Por isso achei que você estaria brava comigo.
- Eu estaria mesmo, se ela não tivesse deixado. Mas eu vou perdoar se o bolo estiver gostoso.
- Está bem. - Ela riu.
Eu segui para o meu banheiro, e vi ela saindo e fechando a porta. Olhando a minha imagem na frente do espelho, eu ri para mim mesma. Então... quer dizer que eu tenho crédito com a minha mãe por cuidar dos pestinhas? bom saber disso.
***
Depois que me arrumei, e vesti uma roupa ''adequada pra se vestir no fim de semana'', eu fui tomar café da manhã, notando a Sabrina na mesa, que estava como sempre 'devorando' a comida. Mas notei também que o Edu estava mais sonolento.
- Tati oque deu no Edu? - Sentei na cadeira, e parti um pedaço de bolo pra mim. - Ele não está devorando o bolo como devia. - Eu ri.
- Eu também não sei. Ele já acordou assim, você sabe oque ele comeu ontem? Algum alimento deve ter feito m*l à ele.
Eu me lembrei que nem prestei muita atenção neles no Shopping. Então não soube responder.
- Eu... Acho que, uns cheeseburgers, um sorvete, e alguns docinhos...
- Oque está acontecendo com você Edu?
- Nada. - Ele balançou a cabeça e tentou um sorriso.
- Tem certeza?
- Tenho sim. - ele olhou para a Tati, e em seguida deu uma mordida em sua torrada com geleia de morango.
- Então, está bem.
Tomei o meu café da manhã, ainda ligada no meu celular, que estava cheio de conversas como: ''Você soube que a Manu vai vestida com um vestido, que ela já usou no ano passado? Para ela, isso é o fim do mundo'', ou ''o Ricardinho disse que vai na festa?'' Essa era a Ju, "Você vai dançar com quem hoje?'' E essa... já dava até para imaginar, era do Léo.
A última mensagem, eu não quis nem responder.
Eu estava procurando o carregador do meu celular dentro das gavetas do criado mudo, quando encontrei um livro grande, com uma garota segurando um pingente nas mãos, desenhada na capa: Terra das Sombras, Os Imortais. Era a saga que eu estava lendo e parei no começo do ano, porque achei que a Sabrina tinha roubado ele. Peguei ele, empolgada, e sai para fora de casa. Fui até a beira da piscina, sentei em uma espreguiçadeira e começei a ler ele de onde eu tinha parado.
Só parei de ler, quando terminei o livro todo, eu já estava no fim mesmo. Descobri que era um livro maravilhoso. Fui no meu quarto para guardar ele e desci novamente as escadas para me dar de cara com a Natasha subindo para o quarto da Sabrina. Ela me viu e nem disse ''oi''. Talvez ela não tivesse me reconhecido. Talvez.
- O que a Natasha está fazendo aqui com a Sabrina? - Eu perguntei pra Tati, que estava terminando o almoço, e fui até a geladeira para tomar água.
- Ela veio brincar com a Sabrina, elas são do mesmo colégio. Você já conhece ela?
- Ah... - Eu tentei disfarçar. Eu não posso falar que fui na casa do irmão dela assistir um filme. - Sim, eu... vi ela, hmm... em algum lugar.
- Linda, não?
- Quem? - Eu tomei um gole de água.
- A garota? Os olhos claros... O cabelo sedoso.
- Sim, claro! E teve a quem puxar! - Eu disse bem baixo.
- Oque?
- Não... não, nada.
- Você não vem almoçar? - Ela estava colocando os últimos pratos na mesa.
- Sim, não quero ter que comer muita coisa na festa. Só beber. - Eu ri.
- Espera... Beber? Beber oque?
- Calma Tati, só refrigerante.
Eu toquei o ombro da Tati para confortá-la. E depois sentei numa cadeira, me servi com a lasanha farta de recheio, e muito deliciosa da Tati, e observei meus irmãos correrem pelas escadas, depois que a Tati chamou eles, e também veio a Natasha. Eu espero que ela não me reconheça!
- Você vai na festa de hoje?
Eu quase engasguei, quando a Natasha me perguntou. Ela estava sentada ao lado da minha irmã, comendo mais um pedaço da torta de chocolate com creme chantilly da Tati.
- Sim. - Eu disse bem rápido, para que a Tati não escutasse da cozinha.
- Legal. O Rick também vai. - ela disse.
Eu olhei bem para a garota da mesma altura da minha irmã, só que bem diferente das maquiagens góticas e roupas pretas com lantejoulas e gliters. Ela estava usando uma tiara colorida nos cabelos pretos e longos, e usando uma jardineira branca. Simples e linda.
- Humm. - Eu disse, querendo acabar logo com essa conversa.
- Ele falou muito de você.
Eu quase engasguei pela segunda vez, se continuasse nesse ritmo eu ia parar no hospital. Oque ele teria falado de mim?
- Você já conheceu a minha irmã antes? Quando? - Sabrina perguntou pra ela.
- Ela foi...
- Tati! - Eu enterrompi, falando bem alto.
- Oi? - Ela correu da cozinha, ainda secando um prato com o guardanapo. - Oque aconteceu?
Ela parecia preocupada e assustada. MEU DEUS, oque eu fiz?
- ... Humm... - pense rápido. - Você viu as minhas roupas novas?
- Sim, - ela respirou de alívio. - Eu lavei. Estão secando, por que?
- Por nada. Obrigada. Sua torta está uma delícia como sempre. E eu já terminei, vou fazer as minhas unhas.
Eu levantei da cadeira, torcendo para que aquela conversa não continue na minha ausência.
- Tati, as roupas já estão prontas?
Eu estava enrolada em uma toalha, com os cabelos escorridos, faltava modelar os cachos.
- Sim. Estão no seu armário. Estão limpas e passadas, eu só não entendi para que tantas roupas pretas, eu nunca te vi usar roupas assim...
- Roupas pretas?! - meu coração parou de bater. Eu juro.
Corri para o meu quarto, torcendo para que não tivesse acontecido a tragédia que eu estava imaginando.
- EU... Não... ACREDITO!
Eu estava sentada na cama. E ao meu redor, estava uma meia calça preta, uma bata com capuz e com uma caveira enorme desenhada no centro, e uma jaqueta de couro escuro, com detalhes metálicos. E depois de abrir a caixa de sapato, descobri que era um coturno preto com espinhos e não um lindo scarpin de salto alto.
Fiquei de boca aberta, e morrendo de raiva.