Eu estava correndo descalça em uma ponte.
A neblina cinza e fria cobria minhas pernas e o vento estava forte
Tudo estava deserto e não havia ninguém além de mim
Me lembrando de tudo oque acontece na minha vida...
lamentando...
chorando...
E prestes a pular rio a baixo...
eu estava juntando motivos pra acabar com a minha vida...
E quanto mais eu pensava em tudo que eu perdi...
minha família...
meus amigos...
meu amor...
minha vida...
minha alma.
Não havia mais motivos para viver...
não posso ficar mais sozinha nesse mundo... eu preciso ir...
ninguém me quer por aqui...
soltei minhas mãos da grade e pulei... meu corpo caindo cada vez mais...
caindo...
e caindo...
Eu acordei com a respiração abafada, suando frio, e com o coração acelerado, olhei no celular, e eram duas da manhã, e sai do meu quarto e desci pra cozinha pra tomar um copo de água. Que foi aquilo? fiquei me perguntando.
Quando voltei para o meu quarto, tinha uma mensagem no meu celular:
- Você saiu cedo da festa gatinha, oque aconteceu?
Era quem eu jamais imaginaria que me mandaria uma mensagem, não depois de dar em cima de mim, e ficar com a minha melhor amiga na mesma noite, não depois de eu pedir pra ele ficar longe de mim. Não vou responder, e eu não posso responder.
- Eu não quero que você mande mensagem. Por favor, apague meu número.
Pensei em bloquear ele, mas na hora chegou outra mensagem:
- Por que? Oque tem de errado?
- Nada errado. - eu digitei de volta, não posso deixar que ele pense que mecheu comigo. - Eu só não quero mais falar com você.
- Eu não entendo. Eu não fiz nada de errado, ou fiz?
- Não. Só... me deixa em paz.
- E por que eu faria isso?
- Para você não se arrepender depois.
- Eu não vou me arrepender, não por estar falando com você. Sei que não vou.
Aparentemente ele não tinha nada de melhor para fazer às duas da madrugada, do que falar comigo com a maior cara de p*u.
- Eu não vou mais te responder. Então me deixa em paz!
- Tudo bem, se é isso que você quer. Mas eu não tenho muita certeza de que você não quer mais falar comigo, você tem?
- Tenho.
- Não vai mais falar comigo?
- Não.
- Você ainda está me respondendo...
- Esquece.
Eu joguei o celular na cama e agarrei meu travesseiro para tentar dormir. Como DIABOS... ele se atreve à fazer essas coisas? Eu estava tão irritada, que seria capaz de dar um soco nele... e olha que eu nunca dei socos em nada, e nem ninguém.
***
Desta vez, quando eu acordei, eu tive certeza de que já tinha amanhecido, pois dava para ouvir os gritos dos meus irmãos vindos do andar de baixo, na mesa de café da manhã, já que a minha mãe não sabia controlar eles nos domingos de manhã. Depois de levantar, eu fui ao banheiro tomar um banho e tirar aquele vestido que me fez lembrar a desagradável e estranha noite anterior. Vesti um vestido de seda que parece um pijama, porque sei que a única coisa que terei pra fazer é ficar em casa, se por acaso, a minha mãe não resolvesse fazer um daqueles passeios em família para o zoológico ou um park áquatico e dizer: ''precisamos sair mais em família, para um lugar que os seus irmãos gostem.''
Desci as escadas e fui tomar o café da manhã, encontrei a minha mãe na cozinha, trazendo para a mesa um bolo de fubá quentinho, e os meus irmãos tomando iogurtes e comendo rosquinhas de coco.
- Bom dia filha, conseguiu dormir bem? - Ela deu um beijo na minha cabeça e sentou ao lado do Edu.
- Não muito.
- Você pode descançar o dia todo, não tenho nenhuma programação para hoje.
- Que Ótimo. - Eu murmurei. Ops, um errro.
- Ótimo? - Ela me olhou, incrédula. - Isabella, achei que gostasse de sair em família.
- E eu gosto... só que as vezes é bom deixar de fazer as mesmas coisas de sempre, não é?
- Tudo bem... Mas eu estava pensando... - Ela se ajeitou na cadeira depois de tomar um gole do seu café com leite.
- Xiii, você está estranha, e eu sei muito bem qual vai ser a sua próxima pergunta. Mãe, e você já sabe a resposta.
- Você nem sabe oque eu vou dizer...
- Ah, eu sei. É para eu ficar cuidando das crianças enquanto você sai de novo. Adivinhei?
- Hmm, - Ela apertou os lábios. - Sim. Mas vai ser só um pouco, eu prometo.
- Ok. E eu acredito nisso?
- Tudo bem, se não quiser... Então nem adianta me pedir pra deixar você ir ao acampamento do seu colégio. E eu sei muito bem, que todo ano você vai...
- Não acredito! Chantagens? No café da manhã? Que absurdo senhora.
- É isso, ou o seu cartão de créditos! E eu sei que você precisa dele mais do que precisa de ar pra respirar...
- Não! Isso também não!... - Eu respirei fundo. - Tudo bem... E oque eu ganho com isso? - Minha mãe sorriu pra mim, antes de responder.
- Vou deixar você ir dormir na casa de uma amiga! Quarquer uma, sem intrevistas e sem inspeção!
- Sem intrevistas? Tem certeza?
- Sim. Prometo. - ela levantou as mãos para cima em juramento.
Ela parecia tão bem, eu quase nunca a via animada assim.
- Tudo bem, espero que valha a pena. - Eu sai depois de m*l tocar no meu pedaço de bolo. - E que horas pretende ir?
- Isso é a noite. Eu vou sair pra jantar com...
- Pare! me poupe dos detalhes. Eu vou para o meu quarto, e só me chame quando... não me chame pra nada... Por favor.
- Nem pra me ajudar com a limpeza? - Minha mãe gritou, brincalhona.
- Muito menos pra isso! - Eu segui para o meu quarto.
O meu quarto, (ou o meu refúgio, como prefiro chamar) é o único lugar da minha casa onde eu penso, reflito, sonho, e fico sozinha decidindo oque fazer em paz e sem barulhos ou cobranças... Às vezes me afundo em alguns filmes na TV gosto de comédia, Fantasia, e Romance, não sou tão corajosa para assistir filme de terror sozinha. Eu gosto de um bom Drama também.
Às vezes me afundo no meu diário, onde falo sobre a minha vida, e sobre a vida das minhas melhores amigas. Escrevo poesias (ou ao menos eu penso que sejam), componho músicas, versos e poemas, aquele típico diário de uma adolescente que ainda tem esperanças de um dia encontrar seu amor eterno e verdadeiro, é exatamente o meu caso. Mesmo sabendo que isso podia demorar muito.
As às vezes fico desenhando, ouvindo as músicas dos meus cantores favoritos ou me afundando em diferentes sites, jogos, videos engraçados, e fofocas dos famosos. Essa última virou vício.
Eu estava lendo a sequência do livro Os Imortais: Chama n***a. E achei muito interessante, porém confuso.
Só saí do meu quarto para almoçar, e depois que me enfiei nele de novo, só saí quando a minha mãe bateu na porta e eu fui ver oque ela queria.
- Já está indo? - Eu observei ela, estava bem arrumada em cima de uma sandália de salto alto, um vestido dourado bem elegante e sexy, e com um perfume doce.
Eu raramente via a minha mãe sem seu terninho de advogada.
- Sim. Estou bem? - Ela me disse, um pouco nervoza.
- Sim. - Eu sorri. - Está linda. Eque tem nesse cara?
- Eu conheci ele no trabalho à apenas três semanas, ele mora aqui perto. É bonito... Inteligente, solteiro, e tem dois filhos. Estamos saindo pela quarta vez.
- Ual! Já? E... vocês já estão...?
- Não, mas estamos indo bem.
- Ele tem filhos? - franzi o cenho.
- Sim. Dois. E Humm... Eu já ia me esquecendo... a filha mais nova dele, vai ficar aqui hoje.
Eu quase dei um treco quando ela disse isso.
- Oque?!
- Sim, é que... bem, o irmão dela teve que sair com os amigos, ela só tem dez anos, e eu achei melhor...
- Ah! Não, como se não bastasse ser babá dos meus irmãos...
- Eu prometo que vou te recompensar Isa. Faz isso por mim? - Ela me olhou, suplicando.
- Aff tudo bem, eu fico com a garota.
- Obrigada querida. - Ela me abraçou, me beijou, e saiu. - Ela já está no quarto da Sabrina, tem comida na geladeira, mas você pode pedir pizza se quiser, tome cuidado com o Edu, ele está assistindo na sala, mas não deixe ele ficar assistindo até tarde.
Ela saiu falando um monte de coisas que eu nem ouvi, e eu apenas segui ela até a porta pra fechar assim que ela saisse.
- Tchau mãe, tenha um bom encontro. Mas por favor, não vai longe demais com as bebidas, você pode esquecer de voltar para casa.
- Querida, eu ainda sou mãe, se esqueceu? Mas tudo bem, obrigada.
- Por nada. - fechei a porta, e respirei fundo.
Sentei no sofá e olhei para o meu irmão mais novo, ele estava com os olhos bem grudados na TV, onde estava passando pela quarta vez hoje, o filme Os Sem Floresta. Depois, eu revirei os olhos, me afundei mais nas almofadas e digitei o numero da pizzaria que eu tinha gravado. Quando a Tati estava de folga, eu usava muito esse número. Já até conheço o entregador. Chamo ele de Tio da Pizzaria, e ele me chama de ''Garota da Pizza''.
Depois que eu recebi a pizza tamanho família, metade portuguesa e calabresa, pela insistência do Edu, eu coloquei ela na mesa com um refrigerante light, e subi as escadas para bater na porta de madeira, com uma plaquinha escrito com caneta colorida: p******o a entrada da Isabella! Rolei meus olhos para isso.
- Sabrina! Eu pedi pizza, você não quer comer? o Edu vai comer toda a metade de calabresa... Ah, e chame a garota que está com você, seja lá o nome dela... - Eu desci as escadas novamente, para me servir com pizza.
Eu estava quase terminando de comer minha pizza, quando ouvi o barulho da correria das meninas pela escada. Quase engasguei com ela quando vi a Sabrina segurando um tablet e a Natasha vindo atrás dela sentando na mesa, e sorrindo como se conhecessem à séculos.
- Isabella? Perdeu alguma coisa na Natasha? - A Sabrina estalou os dedos na minha frente, enquanto devorava um pedaço de pizza.
- Oque ela está fazendo aqui? E cadê a garota que é filha do... - Eu nem sabia ao certo oque dizer, eu estava congelada e engoli o seco. Que diabos estava acontecendo?
- Do cara que saiu para jantar com a mamãe?
- É o meu pai. E eu sou a garota. - A Natasha que me respondeu, rindo. - Por que? Achou que era quem?
- Qualquer pessoa menos você.
- Não liga pra ela não Nati. - A Sabrina sussurrou para a outra, como se eu não estivesse ouvindo. - A Bella tem problemas mentais... e às vezes esquece de tomar seu remédio controlado.
As duas riram, mas eu apenas ignorei.
- Ah... Não. Me desculpe Natasha, eu não quis te ofender, só achei muito estranho. Olha, eu vou... eu vou para o meu quarto, e depois eu volto pra arrumar essa bagunça.
- Eu enh, essa garota é tão estranha! - a Sabrinha disse, assim que eu virei as costas pra elas. com ânsia de vômito.
Eu fui até o meu quarto, não acreditando muito no que estava acontecendo, procurando possibilidades de não ser verdade. Talvez, ela não seja a irmã de verdade do Ricardo, talvez, ele só considere isso, ou ela seja só uma prima, sei lá, eu só sei que tudo estava muito confuso.
Não é como se eu me sentisse constrangida, se por acaso a minha mãe começasse a namorar com o pai de um garoto que quis ficar comigo e depois ficou com a minha melhor amiga (bom, disso eu já tenho quase certeza), e que eu queria evitar a todo custo, e com a possibilidade de eles namorarem, eu me sinto incomodada, eu só não sei muito bem o porquê.
***
- Natasha, será que eu posso falar com você um minuto?
- Claro. - Ela saiu da cama da Sabrina, que fez uma cara f**a quando me viu, ela veio na minha direção. - Oque foi?
- É que eu prefiro conversar no meu quarto, sabe, a Sabrina pode ouvir. - Eu entrei na porta ao lado, e fechei depois que a Natasha entrou também.
- Seu quarto é bonito. - Ela estava olhando para minha boneca Barbie que ficava na parede, ela era uma linda fada de cabelos cumpridos que eu tinha desde os meus dez anos.
- Obrigada. - Eu respeirei fundo, e me sentei na minha cama com minha almofada de chihuahua. - Natasha, eu quero saber, oque você é do Ricardo? - Eu fiquei nervosa, esperando pela resposta.
- Prima.
- Sério?! - Eu pulei da cama com um sorriso, aliviada quando ela me olhou incrédula.
- Claro que não! Eu sou a irmã dele, e eu acho que você já sabe disso, por que está perguntando?
Eu me senti uma boba, ela estava certa, eu já sabia disso, só não quis aceitar. Oque estava acontecendo comigo?
- É que... eu... não, por nada. E ele sabe?
- Sabe oque?
- Que o seu pai... está saindo com a minha mãe?
- Bem... Acho que ele não conhece a sua mãe, então não, ele não deve saber. - Eu não fiquei mais feliz com a resposta. - Por que?
- Não é nada. Eu só prefiro que por enquanto, ele não saiba, você pode me fazer esse favor?
- Eu sei que você está nervosa, e também sei que você e o meu irmão... Humm, - Ela me olhou, esperando uma compreensão, mais não recebeu. - Aquele dia... do filme...
- Eu e o seu irmão não temos e nunca vamos ter, nada. Não é esse o problema...
- Então, qual é? - Ela cruzou os bracinhos finos e brancos e me olhou curiosa.
- Não tem problema nenhum! Tudo bem, faça oque quiser, só não fala nada disso que conversamos pra ninguém Ok? Esse vai ser o nosso segredo, que tal? - Eu estendi a mão pra ela.
- Está bem, eu vou guardar segredo. - Ela apertou minha mão e traçou um ziper imaginário na boca com os dedos dela. - Eu prometo.
- Eu acredito em você. - Eu fui até a porta, e ela me seguiu até o quarto da Sabrina que estava concentrada no tablet. - Vocês preferem dormir juntas? Por que a minha cama é de casal e...
- Fica tranquila que a Nati vai ficar aqui, ela não quer pegar a sua doença de patricinha! - Ela me mostrou lingua.
- Tudo bem para você Natasha? - Eu ignorei a monstrinha que me fulminava com os olhos.
- Sim. Eu estou bem aqui. - Ela estava deitada ao lado da Sabrina olhando paro tablet e sorrindo também. Eu bem queria saber oque elas estavam assistindo.
- Ótimo. Não fiquem no tablet até tarde, e nada de assistir filmes proibidos para sua idade. - Eu disse, mesmo sabendo que eu não ia ser levada a sério. - E qualquer coisa chamem a policia e não a mim. - Eu bati a porta e sai na direção da próxima porta, a do Edu.
Quando abri a porta do quarto com a cor azul claro, com uma cama de solteiro perfeitamente arrumada, carrinhos de corrida por toda a parede, e mais alguns brinquedos jogados no chão, não vi ele. Depois fui até o banheiro, que é usado por ele e pela Sabrina e não o vi também, depois que eu desci para a sala, ele não estava, e nem na cozinha, então eu começei a ficar nervosa.
- Edu! - Eu gritei, sabendo que se ele estivesse em casa já teria aparecido, afinal, minha casa não era tão grande à ponto de se perder nela. Mas era grande à ponto, de se esconder e eu levar um dia inteiro para encontrar ele.
Depois de procurar na dispensa, no quarto da minha mãe e também no quartinho de limpeza e não achar ele, eu fui até a porta da frente e abri ela, estava muito escuro lá fora, então, eu acendi as luzes, na frente da casa não tinha ninguém, a não ser o Taylor de guarda no portão. Quando ele me viu, veio correndo na minha direção com o r**o balançando e a lingua para fora, eu fiz um carinho na cabeça dele, ele me olhou atentamente com aqueles olhos dourados, a única parte do corpo dele que não é preta, e correu de volta para o portão. Depois que não vi ninguém, eu fechei a porta e fui correndo para a porta da cozinha. Eu caminhei pelos jardins, e fui em direção à priscina, corri e dei um mergulho, quando eu vi o meu irmão dentro da água, bem no fundo.
Meu coração estava mais acelerado do que nunca, quase saltando pra fora quando puxei ele de volta para a margem.
- Oque foi? - Ele me disse assustado, passando a mão no rosto para tirar a água. - Por que você me puxou?
- Eu pensei... que você estava se afogando! - Eu disse com raiva, mas agora com o coração acelerado e a respiração alta.
- Eu estava só mergulhando! - Ele usou a escada para sair da piscina. - E eu sei nadar!
Eu saí da piscina toda molhada, com frio e a ponto de jogar ele na piscina de verdade. Como ele pôde fazer isso?
- E por que você está na piscina à uma hora dessas quando você deveria estar na cama?
- Eu não tô com sono! - Ele entrou todo molhado na casa, só de cueca, descalço, correndo, e molhando todo o piso por onde passava.
Eu segui ele até o quarto.
- Você pode ficar doente! Ficou louco garoto? A nossa mãe vai me m***r! - Eu peguei uma toalha no armário, e dei para ele. - Como você abriu a porta?
- Eu não sou burro! Eu sei abrir, dãã. - Ele abriu a gaveta e pegou uma cueca seca sozinho e vestiu.
- Tudo bem... - Eu respirei fundo, para não pirar. - Agora você pode ir dormir? Ou vai querer aprontar mais alguma coisa?
- Não... Eu vou dormir! - Ele correu, subiu em sua cama e entrou debaixo dos edredons com estampa de homem aranha. E apertou os olhos para fingir estar dormindo.
- É sério! Não me obriga te trancar aqui.
Eu fechei a janela e a cortina, as quais eu nem sabia oque estavam fazendo abertas à essa hora. E depois de apagar a luz do abajur, eu saí do quarto dele e eu fui pro meu banheiro, tirei a roupa molhada e troquei por uma seca pra enfim tentar dormir.
Esses meus irmãos iam me deixar louca um dia. Eu tinha certeza disso.