Capítulo 4 – Frio na Mira, Quente na Cama

1490 Palavras
Alessandro Ferraz Montemor O rádio estalou às 6h47 da manhã. Eu ainda não tinha terminado meu café preto quando a voz do despachante cortou o ar: — Unidade de Operações Especiais, temos uma situação com reféns em um supermercado no centro de Miami. Possível envolvimento de gangue armada. Equipe Alfa em deslocamento. Respirei fundo. Fechei o zíper da jaqueta tática, peguei minha arma e desci as escadas com passos firmes. Mais um dia. Mais uma missão. No caminho, a cidade parecia ignorar o caos prestes a acontecer. Carros, pedestres, cafés abrindo, gente fingindo normalidade. Mas ali, a poucas quadras, um supermercado comum tinha virado palco de uma guerra silenciosa. Chegando ao local, vi o perímetro cercado, os carros da SWAT posicionados, os drones sobrevoando, e o sangue do meu corpo ficou mais frio. Adrenalina e controle. O que pra qualquer um seria pânico, pra mim era equilíbrio. — Situação? — perguntei ao comandante da linha de frente. — Quatro homens armados. Vinte e três civis. Um dos bandidos está com o gerente rendido com faca no pescoço. Visualizei a planta do mercado, pedi a atualização do drone, fiz os cálculos. Respiração contida. Nenhuma emoção. Só estratégia. Dei a ordem. Entramos pela lateral e pela doca de carga. Três tiros. Precisos. O quarto sujeito se rendeu quando viu o cano da minha arma encostando na têmpora dele. Os reféns saíram chorando. As sirenes gritavam. A imprensa já preparava o circo. Eu só guardei a arma, dei meia-volta e fui embora. Sem palmas. Sem agradecimentos. Fiz o que tinha que ser feito. Como sempre. O sol já começava a subir quando entrei no carro e joguei a jaqueta no banco de trás. O cheiro de pólvora ainda estava nas minhas mãos. Adrenalina baixa, batimento controlado, mais uma missão finalizada sem alarde. Dei partida no carro e deixei o caos para trás. Mas m*l tinha dobrado a esquina, o celular vibrou no painel. Nome: Vitor. — Já explodiu alguma coisa hoje? — ele atendeu com a voz debochada. — Um supermercado. Quatro idiotas armados. Final feliz — respondi com frieza. — Ah, o romantismo do delegado mais amargo de Miami. Escuta, hoje à noite... você vai sair comigo. Sem discussão. — Tenho trabalho. — Alessandro, você trabalha até dormindo. Hoje, você vai beber, dançar e trepar. Ou eu te arrasto. Tá me ouvindo? Suspirei. Vitor sabia exatamente quando me pressionar. Melhor amigo desde os quinze, era o oposto de mim: caloroso, inconsequente, impulsivo. Mas, no fundo, meu único elo de humanidade. — Dez da noite. Eu passo aí. Camisa preta, cabelo bagunçado. Quero você pegador e não policial. Combinado? Desligou sem esperar resposta. Dei uma risada seca e encostei a cabeça no encosto. Talvez fosse hora mesmo de esvaziar a mente. Nem que fosse na base da bebida e de um corpo feminino que não falasse demais. Às 22h10, ele chegou buzinando na frente do meu prédio, dirigindo sua BMW preta como se fosse dono de Miami. Camisa aberta até o peito, cabelo desarrumado, hálito de vodka antes de sair de casa. — Sobe aí, viúvo da sanidade. Hoje é sua noite de reencarnar. Entrei sem dizer nada. Bastava meu olhar para ele entender que eu o tolerava… mas que meu pavio era curto. A boate que ele escolheu era nova, exclusiva, cheia de modelos, influenciadoras e homens podres de ricos fingindo que sabiam dançar. Luzes vermelhas, cheiro de perfume doce demais e corpos se esfregando no ritmo da música eletrônica. A minha presença causou efeito. Sempre causa. Algumas me reconheceram. Outras só sentiram o cheiro de poder e perigo. Em menos de dez minutos, três mulheres já tinham perguntado meu nome. Duas encostaram o peito no meu braço. Uma lambeu o copo que eu deixei na mesa, olhando pra mim como se estivesse pronta pra me seguir até o inferno. — Você tem uma aura fodidamente irresistível. — Vitor riu, bebendo o terceiro drinque. — Se eu não te conhecesse, diria que você é um sociopata disfarçado de modelo de terno. — Talvez eu seja mesmo. — Ou só um homem fodido tentando esquecer algo que nunca disse em voz alta. Não respondi. Porque ele estava certo. Mas eu não vim pra pensar. Vim pra esquecer. E eu ia fazer isso naquela noite. A primeira que se aproximou tinha cabelo escuro, pele dourada e uma tatuagem enorme na costela. Ela passou o dedo pela minha mandíbula e mordeu o lábio. — Você tem cara de problema. — E você de quem quer ser punida por gostar disso — retruquei, sem sorrir. A segunda surgiu minutos depois. Loira, olhos verdes, mais ousada. Ela não pediu licença. Simplesmente puxou minha camisa e sussurrou no meu ouvido: — Quero você. Com ela. Olhei pras duas. Meu olhar percorreu os corpos, a tensão, o desejo claro. Vitor gargalhou da mesa. — Vai, garanhão. Hoje é sua noite. Terminei meu drinque em um gole só. — Vamos. O quarto do hotel cinco estrelas era o mesmo que eu usava quando não queria voltar pra casa. Fechei a porta com um pé. As duas já estavam nuas antes mesmo de eu tirar a camisa. Elas se beijavam. Me olhavam. Se jogavam na cama como se esperassem uma ordem. E eu dei. — Coloquem-se de quatro. Agora. Não hesitaram. Gemidos abafados, pele suada, mãos puxando lençóis e cabeças virando pra me ver. Era sexo. Puro, cru, bruto. Eu não procurava conexão. Não queria carinho. Queria esquecer. Afogar os pensamentos na pele de alguém que eu nem me importava em saber o nome. E foi exatamente isso que fiz. Peguei ambas com intensidade, dominância e raiva acumulada. Cada movimento era uma válvula de escape. Cada respiração, um desabafo sem palavras. Quando terminei, estava em silêncio. Elas dormiam. Enroscadas uma na outra. Como gatas saciadas. Eu só levantei, fui até a varanda e acendi um cigarro. O gosto amargo da nicotina combinava com o gosto do vazio na minha boca. Elas eram lindas. Perfeitas, até. Mas não me deixaram menos vazio. Porque mesmo entre dois corpos nus e entregues… eu ainda pensava naquele olhar. O dela. Da mulher do evento. A filha do homem que destruiu minha vida. E isso me irritava mais do que eu podia admitir. O sol invadia o quarto pelas frestas das cortinas quando acordei. O quarto estava em silêncio, exceto pela respiração das duas mulheres ainda enroscadas nos lençóis de seda, como se fossem parte da mobília. Levantei. Nu. Sem pressa. Caminhei até a cozinha do flat e preparei meu café preto, forte, sem açúcar — do jeito que eu gosto. Enquanto a máquina fazia o trabalho, peguei o celular e chequei os relatórios da empresa. Mensagens de executivos, notas sobre a cotação da subsidiária na Ásia, uma proposta de fusão com um fundo europeu que me interessava — mas não o suficiente pra me fazer sorrir. Dei o primeiro gole no café e voltei para o quarto. Elas ainda estavam ali. Uma virada de lado, a outra com o braço jogado sobre o travesseiro. — Já deu. Podem ir. — falei com a calma de quem já estava com a cabeça em outro lugar. A loira acordou primeiro. Me olhou com olhos semicerrados, sorriu de canto, mas percebeu que não haveria segunda rodada. A morena levantou sem dizer nada, recolheu o vestido e os saltos. Nenhuma pediu meu número. Nenhuma tentou conversar. Talvez soubessem que homens como eu não oferecem continuidade. Oferecem o agora. O bruto. O suficiente. Fechei a porta assim que saíram. O quarto ficou em silêncio outra vez. Bebi o café restante, me vesti — jeans escuro, camisa preta, blazer cinza. Liguei o tablet. Me tornei, por algumas horas, o outro Alessandro: o CEO. Na sede da Montemor Global, tudo funcionava como uma máquina bem lubrificada — porque foi assim que eu moldei. Eficiência, metas, frieza. Meus diretores me respeitavam mais do que me admiravam, e eu preferia assim. Na sala de reuniões, três homens e duas mulheres aguardavam com pastas abertas e gráficos projetados na tela. — O contrato com a construtora de Dubai foi aprovado — disse Antônia, minha gerente jurídica. — E os números do último trimestre superaram a previsão em 12%. — completou Javier, meu diretor financeiro. — Ótimo. — disse, sem alterar a expressão. — Mas não me importa o que superamos. Quero saber o que ainda está em déficit. Eles se entreolharam, em silêncio. — Vamos melhorar a comunicação da marca — disse alguém. — O público ainda não conecta a força da nossa empresa com seu nome, senhor Montemor. — Não quero que conectem. Quero que temam. A frase caiu como uma bomba leve. Mas eu era assim. Sempre fui. Às 14h42, deixei o prédio da empresa e segui para a delegacia. O dia já estava quente. E eu, mais uma vez, dividia minha vida entre dois mundos. Um onde comando impérios. Outro onde comando a bala. E em nenhum deles… existe espaço pra falhar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR