Prólogo

711 Palavras
Alessandro A maioria das pessoas acha que a vingança é algo quente. Queimar, explodir, berrar. Mas elas estão erradas. Vingança de verdade… é fria. Silenciosa. Ela se arrasta por anos dentro de você, como um veneno lento, corroendo cada lembrança até que tudo o que resta seja o gosto amargo da perda e o desejo de ver o mundo sangrar. O senador Prado tirou tudo de mim. Meus pais. Minha paz. Minha fé na justiça. E ainda caminha por aí com aquele sorriso cínico nos lábios, como se a merda toda não tivesse acontecido. Como se a sujeira dele não tivesse custado vidas. Mas tudo tem seu tempo. E o meu está chegando. A delegacia central de operações especiais não dorme. Eu também não. Desde que consegui puxar os arquivos sigilosos de antigos desvios de verba no sistema de proteção à infância — justamente o caso que envolvia a empresa da minha família — eu soube que estava mais perto dele do que nunca. Só que eu não esperava... ela. Não sabia que o d***o tinha uma filha. E, se soubesse... Talvez não tivesse encarado como encarei. A primeira vez que vi Rebeca, eu não sabia seu nome. Ela estava parada na calçada, na saída de uma audiência pública, cercada de jornalistas que ignoravam completamente sua presença. Vestia um vestido vinho colado ao corpo, salto alto, olhar perdido. Tão bonita… Tão vazia. Passei por ela como se fosse só mais uma mulher bonita na multidão. Mas o instinto… aquele instinto policial que nunca falha… me disse que tinha algo errado. Muito errado. E eu estava certo. Ela carrega o nome que eu odeio. Mas o que me tira o sono… é o corpo que ela carrega junto dele. Rebeca O mundo inteiro conhece meu sobrenome. E todos que me conhecem… odeiam meu nome. Eu sou a filha do senador Prado. A herdeira de um império podre que fede a corrupção, mentira e sangue. Mas ninguém nunca perguntou se eu queria esse título. Se eu queria carregar essa cruz. A resposta é simples: eu não quero. Mas o meu querer nunca importou. Assim como não importou no dia em que meu pai me obrigou a sorrir na frente das câmeras, minutos depois de eu levar um tapa do homem que ele mesmo me incentivou a namorar. O queridinho da mídia. O noivo perfeito. Gustavo. Ele é tudo que há de podre no mundo. E eu sou a mulher burra o suficiente pra ainda estar ao lado dele. Mas já não aguento mais. Eu vivo numa prisão invisível, construída com promessas, chantagens e silêncio. Me olho no espelho e não me reconheço. Cada batom caro, cada vestido de grife, cada joia reluzente... É uma nova cela. E então... eu o vi. Aquele homem atravessando a multidão. Forte. Imponente. Frio. Um olhar de aço que me cortou em mil pedaços com apenas um relance. Ele não me notou de verdade. Mas eu o notei. E algo dentro de mim… estremeceu. Um pressentimento. Um arrepio. Uma certeza. Aquele homem vai mudar minha vida. E talvez… destruir o que resta de mim. Alessandro Eu segui com meu plano. Reuni provas. Pressionei juízes. Aproximei os dossiês dos alvos certos. Mas em meio a esse caos controlado, aquela mulher voltou a surgir. Em reuniões sociais. Nos bastidores do poder. Nos lugares onde não deveria estar… mas estava. Ela não falava muito. Mas os olhos falavam tudo. Um pedido de socorro. Um grito mudo. O mesmo olhar que eu vi no espelho durante anos. Porra. Eu devia odiá-la. Devia afastá-la. Devia usar seu nome como isca. Mas tudo o que eu faço… é me aproximar. Ela é o centro do meu inimigo. Mas talvez… Ela também seja o meu novo ponto fraco. Rebeca Gustavo descobriu que olhei demais. Que desejei demais. Que pensei demais naquele estranho que não me conhece… mas me lê com os olhos. Paguei o preço. Mais um roxo. Mais uma noite trancada no banheiro. Eu devia denunciá-lo. Mas pra quem? Pro mesmo sistema que meu pai comanda? Então eu só fico aqui. Esperando. Torcendo. Que o destino… ou o d***o… mande de volta aquele homem dos olhos de gelo. Porque alguma coisa me diz que ele vai queimar tudo. E eu quero arder com ele.
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