A Única

2181 Palavras
Karen Estamos em 2050 e o mundo mudou completamente. É estranho pensar que há trinta anos, planejavamos a descontaminação dos nossos rios mais poluídos em períodos de dez a quinze anos. A ineficiência do capitalismo nos comandava lentamente rumo a um progresso tardio e obsoleto. Em 2035, não se podia chamar aquelas águas de potável, mas eram navegáveis, e isso, nas cidades de ruas saturadas de veículos era uma grande evolução. Maiores evoluções aconteciam em nós que refletiam em nossas crianças. Muitos atribuíram a mutação à água com hormônios femininos sintético vindo dos anticoncepcionais orais, outros ao nosso liberalismo diante da diversidade de sexualidade, mas ninguém conseguiu explicar razoavelmente o fenômeno natural que deu origem a uma nova espécie humana. Meninas desenvolviam um pênis na região clitóriana, durante a puberdade, e se tornavam hermafroditas. Meninos desenvolviam s***s durante a mesma época de evolução de seus corpos. Claro que não eram todos, mas na significativa quantidade de um terço da humanidade. Foi somente a grandeza deste acontecimento que impediu uma inquisição e o sacrifício em massa destas "anomalias" como foram chamados. Alguns acharam que era um castigo divino, ou um sinal apocalíptico, ou ainda o início da nossa extinção. Mas ninguém discordava de que isso era realmente grande e essa grandeza assustou. A economia mundial e, os governantes não passavam segurança, a igreja não respondia mais as perguntas e nem passavam credibilidade, o mundo estava na maior crise que se podia imaginar. Quando grande parte das geladeiras da Antártida derreteram, tivemos as respostas do porquê destas anomalias. Uma gama de vírus e bactérias adormecidas por milhões, bilhões de anos naquele continente morto foram liberadas no ar, na água... Ficamos indefesos. Nós nos achamos muito espertos com nossas vacinas e ambientes controlados, mas apenas paramos a nossa evolução imunológica. Foi uma devastação completa, assoladora. Todos com imunidade baixa morreram. Em suma, todos os homens saudáveis ou não, pereceram no intervalo de três dias. As mulheres doentes, e muitas grávidas morreram, mas a maioria das mulheres permanênciam vivas por ter o sistema imunológico três vezes mais eficiente que o dos homens. E é claro que todos da nova espécie sobreviveram inabaláveis diante da epidemia que quase extinguiu a humanidade. Tudo era novo. Mulheres choronas por seus entes queridos perdidos tomaram o controle e o poder nas mãos. Somos diferentes no modo de pensar, então é claro que o mundo mudou radicalmente. Não governavamos o mundo para nós mesmas, mas para todos. Ninguém era excluído, não havia desperdício, o mundo era nossa casa, a pessoa ao lado era nosso irmão e igual. Um mundo onde fazíamos o melhor para o conjunto. Um mundo eficaz e eficiente de verdade. Voltamos a cultuar Ísis, Sofia, Serena... A Deusa era mais como nós e portanto nossa referência. Elegemos uma líder mundial e outras para cada região de acordo com o tamanho territórial. Decidimos chamar as nossas crianças de Anjos, pois como não tinham um sexo predefinido, esse nome pareceu propício. Nossos anjos eram muito jovens, nós tomamos conta deles. Como toda a tecnologia permanecia como antes, nada mudou muito na ideia básica, apenas melhorou. A moeda de troca mudou. Dávamos o que tínhamos em troca do que precisavamos. Quem não tinha nada ajudava em algo como moeda de troca. Todos ganhavam e ninguém era explorado. Os mercados, lojas, comércios em geral viraram self service, cada um pegava o que precisava, do contrário tudo iria para o lixo. Éramos mais espontâneos no emprego do nosso tempo. Éramos um e todos. A Agua dos rios voltou a ser potável em um ano. O lixo era cem por cento reciclado. Árvores frutíferas e hortas comunitárias tomavam lugar de terrenos baldios. Não fazíamos nada por dinheiro, mas fazíamos muito mais. Mesmo que o mundo estivesse em um déficit de metade da população anterior e de crianças nascidas. Quanto a isso, haviam progressos científicos para inseminação artificial de mulher para mulher. Muitos romances rolavam, mas havia mais sexo livre, ninguém chora para sempre e a vida continua. Nos acostumamos com isso. Evoluímos em brinquedos eróticos também. Nós chamamos de mecha amantes, são robôs criados e programados para ser o homem ideal. Opções não faltam nunca. Porém não existem famílias, este valor se perdeu. Agora, todos formamos uma única e grande família. Os anjos tinham um tratamento diferente de como foi com as outras crianças no passado. Passavam por exames periódicos para a coleta de dados sobre eles que eram armazenados. Mas havia uma garota que nasceu junto com eles, aparentemente normal, eu discordava. Coloquei uma médica ao seu lado vinte e quatro horas por dia. Joana não sabia do motivo da ligação entre elas, e nem sabia que Dalha era uma médica, pensava que a monitora do Internato gostava dela e só. Era melhor assim, já que para todos os efeitos, Joana não era interessante. Mas muita coisa não batia nesta ideia. Os anjos surgiram seis anos antes dela, e nenhuma criança da nossa espécie nasceu depois disso. Joana não podia ser como nós. Acredito que ela seja algo ainda mais terrível que as crianças hermafroditas. Ou talvez, quem sabe, ela seja o elo entre as duas espécies, algo que permita um futuro para nós que envelhecemos para a extinção. Joana pode ser a nossa esperança. Joana Hoje em dia, os anjos têm no máximo vinte e quatro anos e são mais da metade da população. Eu sou Joana, tenho dezoito anos e sou a única que apesar de ter nascido na mesma geração, não sou um anjo. Por estranho que pareça, eu sou a aberração no meu mundo. Todos os olhares pairam sobre os meus irmãos evoluídos, pesquisam, especulam, observam, querem saber mais sobre a nova espécie. Quanto a mim, sou a semente que não deu certo e ponto. A decepção da Nova Era. Convivo com eles o tempo todo. Escola, casa, trabalho, horas de lazer... É horrível ser a única em não ser nada. Joana Eu moro em um quarto no complexo B do prédio oeste do Campus onde estudo. Muitos daqueles que estão na faculdade moram no Campus. Isso é normal, já que a maioria de nós perdeu os pais na maior epidemia da história. Quando vejo filmes antigos, percebo que todos pensavam que o mundo acabaria com uma grande guerra mundial, engraçado. No fim, foi a mãe natureza quem pos um fim na bagunça que fizemos. O efeito estufa e a degradação ambiental foi o real motivador. Hoje, desmontamos as armas nucleares e usamos o urânio para propósitos científicos e avanços da medicina. Não existem armas, não temos motivos para nós matar, ninguém paga por moradias, transporte, saúde, educação, comida ou roupas. Mas é claro que alguns customizam suas roupas, ou pagam pelo serviço. Apesar de não existir uma moeda física, estamos desenvolvendo uma virtual derivada da Bitcoin. Ainda é um projeto, mas a procura por itens importados cresce, precisamos de algo mais viável que objetos trocados que percorrem um trajeto pelos correios. Eu tenho uma equipe que trabalha nisso junto comigo. Teseu e Rihanna são anjos. Ele não desenvolveu s***s, mas tem ambos os sexos e parece com a figura dos anjos da Bíblia que eu peguei na biblioteca. É um livro bem confuso, mas exclarece bem o porque do pensamento de alguns líderes do passado. Penso assim: o homem tem uma religião. A religião tem uma religião. E a religião tem o homem. Homem. É assim que a bíblia se refere à humanidade. Agora não tem mais homens, mas ainda tem humanidade. Fui até a biblioteca devolver aquele livro. Estava me deixando meio louca das ideias. As crenças são coisas muito poderosas e perigosas. Uma crença pode escravizar várias almas ao mesmo tempo e até levá-las a viver em função da fé. É assustador ver todo esse poder nas mãos de um líder mundial. Mas essa era outra teoria apocalíptica. A Rihanna me mandou uma mensagem cancelando o filme comigo hoje a noite. Ela ia sair com um cara, Jonas. Ele era tão forte quando dez caras juntos. A Rihanna era forte também, fazia parte do grupo de hóquei da Universidade. É meio estranho dizer ele ou ela, quando o assunto são os anjos, mas vai das cacteristicas predominantes na aparência ou em como o Anjo prefere ser denominado. Eles precisam de nomes e ele/ela é só um detalhe acrescentado ao nome. Nada de mais. Saí do Campus, anoitecia, precisava ver as novidades. Passei em frente a Intrínseca, loja de mecha amantes e parei para observa-los. Os robôs eram tão reais que faziam duvidar da extinção dos machos. Mas vendo como eram gentis, prestativo e perfumados, eles fugiam muito de como as mulheres nos contavam que eram os homens reais. De acordo com elas, alguns eram agressivos, por causa da testosterona ou algo assim. Ninguém era agressivo agora. Nem consigo imaginar como deveriam ser os seus acessos de raiva. Ponderei um segundo e lembrei de uma crise de TPM de uma das monitoras. Ella explodiu por nada e todos rimos da sua reação desnecessária. Com certeza os acessos de raiva masculinos pareciam com aquilo. Claro que Ella botaria medo se ela fosse maior e mais forte como os homens da sua espécie. Um dos motivos para eu querer desenvolver os Bitcoins é o meu desejo de comprar um mecha. Um dia terei um lindo robô só para mim. Os robôs executavam as tarefas da loja e até a de vendedores. Um grupo conversava sobre coisas como a moda de inverno deste ano. Fazia parte do marketing que eles se exibissem. Quando eu tiver um desses ele será meu amigo e confidente e vai me ajudar em tudo que eu precisar, além de me fazer companhia. Um dos mechas que eu olhava, sorriu para mim, de dentro da loja. Como será que é beijar na boca? _ Você faz parte das adoradoras dos robôs? _ Urias me censurou logo atrás de mim. Virei para o meu incansável admirador. Ele não cansava de levar foras. _ Você parece as solteironas humanas que sonham com o passado. _ Não é o meu passado, Urias _ convertei o seu pensamento _ Eles são o presente. _ Você devia dar uma chance para os Anjos antes de optar por um boneco bioidentico. _ Para você? _ Por que não? _ Estou sem companhia para assistir filmes velhos _ eu não queria fazer isso sozinha hoje _ você topa? _ Claro _ se animou. _ Se você conseguir manter as suas oito mãos longe de mim, durante todo o filme, eu deixo você ser meu amigo. _ Só amigo? _ Só nada. É muito, fique sabendo. Sendo meu amigo você tem uma pequena chance de me convencer que você _ apontei para ele _ é melhor que eles _ apontei para os lindos mechas conversando. _ Fechado _ me estendeu sua mão e eu segurei selando um acordo. Como descrever o Urias? Ele usa cabelos compridos como todos os Anjos mais masculinos, tem traços como de meninos é alto como todos os outros, ruivo como poucos, e não desenvolveu s***s. A maioria dos "meninos" da minha idade não desenvolveram s***s como os primeiros anjos mais masculinos. Já algumas meninas, da mesma época, conseguiram maior visibilidade destas suas partes. Resumindo, não sei muito sobre o carinha que me seca durante a aula de história. _ Por que está sozinha hoje _ o Urias ficou curioso durante o percurso de bonde _ A loira forte que sempre está com você, onde ela foi? _ Brincar com o Hércules entre os Anjos, o Jonas. Sorriu _ Você gosta de mitologia grega _ divertiu-se _ Acho que você deve ser parecida com Helena de Tróia. _ Um ponto para você. As vezes fico curiosa, mas não sei como tocar no assunto. Todos os anjos possuem poderes? _ Poderes? _ achou graça _ Neste século, chamamos de dons _ consertou _ É normal que tenham pelo menos um. _ Podem ter mais do que um dom? Assentiu _ Deve ser muito estranho não fazer parte, ser tão diferente. Como você se sente? _ Deslocada. _ É por isso que você lê tanto? _ Há quanto tempo você vem me observando? _ E isso importa? Você sempre leu muito, isso não é novidade. _ Você não tem mais jeito _ ri de como ele deixou claro a sua devoção à mim muito clara _ Deveria dar uma chance aos Anjos antes de apelar para a única não Anjo da sua idade. Desistiu de argumentar com um sorriso bobo. _ Engraçado! Por quê os cabelos dos mecha amantes são curtos? _ Ah! Ouvi as enfermeiras conversando sobre o nosso visual atual. Uma delas disse sentir saudades dos cabelos curtos e barba por fazer _ soou divertido. _ Sério! _ a incredulidade dele era cômica. Era como estar na sala de casa, o cinema estava mais vazio que um cemitério. Conversar durante o filme era permitido. A pipoca estava ótima e o refrigerante de beterraba com uvas, bem gelado. Mesmo sendo uma aficionada ao mundo pré-anjos, não consegui concorda com os cabelos curtos sendo belos. Muito menos com a barba anti-higiênica
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