Olhando para Lola, o conversível vermelho voador de Phillip Thompson, Elizabeth repassava a conversa que havia escutado quando se esgueirou nas tubulações com a intenção de bisbilhotar a reunião de Nick Farley, Phillip Thompson e Tony Starking. A estranheza daquela conversa comparada a que aconteceu na sala de arquivos fazia Elizabeth pensar o que Starking poderia ter oferecido a Nicolas Farley para fazê-lo mudar de opinião, independente do quão incomum soasse a possibilidade de Starking ter algo que Farley queria.
Elizabeth abaixou a cabeça, olhando para o caderno de anotações em seu colo. Ela deveria estar criando uma lista do que deveria aprimorar em seu sistema, mas, ao invés disso, estava ansiosa para saber o que estava acontecendo na reunião de Nicolas Farley com Phillip Thompson, Anthony Starking e seus advogados. Reprimindo a vontade de esgueirar-se pelas tubulações de ar, Elizabeth girou a caneta através dos dedos antes de deslizar a ponta pelo papel, começando um novo desenho de um protótipo que provavelmente nunca sairia do papel.
Ela já desenhou incontáveis projetos, luvas de metal com a capacidade de controlar o frio que percorria as veias de Elizabeth, drones capazes de transmitir informações para o outro lado do mundo através de linhas de calor, e a caneta que dá choque. Parece uma criação i****a, mas Elizabeth pressionava a ponta da caneta contra o pescoço sempre que precisava lembrar-se de respirar e controlar o frio constante. Daisy gostava de provoca-la com a invenção i****a, Elizabeth ficava feliz em ignora-la.
O estacionamento do complexo da OSAEU de Nova York era enorme, mas Phillip Thompson evitava estacionar Lola lá, sempre optando pelo “O ônibus” — o avião de Thompson e sua equipe, onde Elizabeth morou por um ano antes de começar a morar no apartamento de Phil quando não havia missões. Ela entrou no avião facilmente, tendo acesso, encontrando Melinda Jay que só deu um breve aceno a Elizabeth antes de subir a escada espiralada para o segundo andar.
Elizabeth fechou o caderno de anotações, desistindo de tentar fazer alguma coisa.
Passou uma hora até que Phil subisse a rampa do avião, encontrando Elizabeth sentada em frente ao conversível. .
— E aí, como foi? — ela quis saber, se levantando e seguindo Thompson pela escada.
— Bem, Starking ficou surpreso por você ter aceitado, acho que ele desconfia do envolvimento de Farley, mas não insistiu por muito tempo. – Thompson contou, olhando para trás para verificar de Elizabeth o seguia pela escada. – Farley também não fez questão de explicar.
Elizabeth o seguiu pelo corredor e pela escada do segundo andar que levava ao escritório de Thompson.
— Só isso? Vocês demoraram uma hora e meia na reunião. — Elizabeth comentou, sentando-se em frente a mesa de Thompson, que alcançou uma cadeira e sentou. — Tem mais alguma coisa, não é? – questionou, observando a tensão que beira os ombros de Thompson em um claro sinal de nervosismo.
Phil demorou para responder, fingindo procurar por algo nas gavetas e depois organizando papéis que já estavam organizados, e então mudou a organização da mesa inteira como se não fosse ficar parado por muito tempo. Elizabeth o observou em silêncio, satisfeita em ficar esperando.
– Você poderia ao menos mostrar sinais de impaciência. – Thompson falou, buscando humor em suas palavras, mas Elizabeth ofereceu apenas um dar de ombros despreocupado. Claro, ele estava preocupado porque Thompson estava preocupado, porém não havia muito a ser feito então a paciência sobrou para alguém usá-la. Ela conseguia imaginar as coisas mais absurdas que podem ter acontecido na reunião, desde macacos falantes até a uma invasão alienígena. – Eu não quero que haja segredos entre nós.
– Ok.
– Eu não tenho permissão para te contar o que aconteceu na reunião. – Thompson falou, abrindo uma gaveta. Elizabeth ergueu uma sobrancelha em dúvida. – Tecnicamente. – De dentro da gaveta, Thompson tirou um envelope e o deixou em cima da mesa. – No entanto, eu não estaria quebrando as regras se esquecesse em cima da mesa. – Olhando para o envelope na mesa, Elizabeth leu Confidencial impresso no papel e ergueu as duas sobrancelhas para Thompson, os cantos de boca se erguendo em um sorriso incompleto.
— O quão importante é a informação que tem neste envelope? — Elizabeth indagou, olhando novamente para o envelope e se perguntando se realmente valia o risco. Thompson poderia sofrer por um erro daqueles, sua fraqueza evidente o suficiente para fazer Elizabeth pensar por ele. Ela sabia que Thompson não gostava que existissem segredos entre eles, era uma relação saudável o suficiente para serem maduros em conversar sobre o que deve e não deve ser compartilhado. Certas coisas, como a localização em uma missão, devem ser mantidas em segredo.
— Liz… — Thompson a chamou, suavemente, fazendo com que ela o olhasse. — Eu estou te dando esse envelope porque… Não quero que você descubra por outra pessoa.
— Não quero que você quebre regras por mim. Da última vez, Farley quase tirou o avião de você, Thompson. — Elizabeth relembrou, séria demais para Phil conseguir encará-la por muito tempo. Ele desviou os olhos para o envelope, como se pensasse seriamente sobre o que estava oferecendo a ela. Ela não sorri muitas vezes, mas também raramente fica séria, o que faz reações raras acontecerem em Thompson. — O quão importante é essa informação?
— O Beco. — é a única coisa que Phil diz antes da porta do escritório abrir e Nicolas Farley entrar no escritório.
— Ah, ótimo, era você mesmo que eu queria conversar. — Farley diz ao ver Elizabeth, o envelope não está mais na mesa e lugar nenhum à vista. Elizabeth o jogou para dentro do casaco tão rápido que Phil nem viu, sua atenção estava voltada para Nick Farley.
A adolescente cruzou os braços em frente ao corpo, sentindo envelope contra o corpo.
— Você vai para o complexo dos Thunderblood amanhã à noite. — Nicolas Farley avisou a Elizabeth, que assentiu com a cabeça.
Ela ainda pensava nas palavras de Phil, imaginando o que seria de tão importante para ele arriscar sua posição na OSAEU. Se lembrava de quando Farley ameaçou tirar o avião caso Phil ignorasse mais uma ordem que a OSAEU desse a ele, o que na maioria das vezes Thompson ignorava quando se tratava de Elizabeth.
Elizabeth m*l ouvia o que Farley e Thompson falavam, esperando uma deixa para ir embora do escritório.
★★★
Apesar do que todos pensavam, Elizabeth nem sempre quis ser um fantasma.
Claro, ela gostava de não ter seu nome correndo pelos corredores do complexo como uma maldita maldição, adorava saber que as pessoas não sabiam reconhecê-la quando realmente a viam fora da costumeira jaqueta e das botas que escondiam mais facas do que era capaz de ver a primeiro olhar. E ficava satisfeita das pessoas serem alheias a sua falta de habilidades em campo.
Entretanto, sua intenção nunca foi ser esquecível.
Com o tempo, Elizabeth percebeu que seus movimentos eram silenciosos demais para as pessoas ouvirem, sua presença m*l era notada pelos agentes quando os ultrapassava em um corredor. Embora as botas que usava eram pesadas, o som não era transmitido e isso era estranho o suficiente para ela começar a estudar os Thunderblood em busca de uma explicação. Primeiro, foi atrás de informações sobre Wanda Maximoff. Mas nem de longe ela poderia ser considerada uma telepata, então desconsiderou. Thorlyn? Foi o segundo a ser deixado de lado junto ao Hulk, não havia nada de informações que ela pudesse relacionar com a sua capacidade. Natasha Romanoff não tinha poderes, apesar de ser a melhor agente que Elizabeth teve o prazer de estudar. Clint Barton também passou rapidamente pela mente de Elizabeth. Os que ficaram em seu interesse foram Steve Rogers e Tony Starking.
Steve Rogers era do interesse do estudo de Elizabeth pelo soro que foi injetado em seu corpo, as alterações que foram feitas no instante em que seu corpo se alinhou com aquelas substâncias. Talvez, antes de sua vida no Beco, alguma coisa tenha sido injetada em seu organismo.
Anthony Starking poderia ter artigos sobre isso, mesmo que não fizesse parte da sua área. Bruce Howard, no entanto, parecia mais propenso a ter o que Elizabeth desejava encontrar.
Um verão inteiro perdido e Elizabeth não encontrou uma explicação para a ausência de seu silêncio. Tudo que pode fazer foi se conformar que talvez os anos no Beco a tenham feito se acostumar a ocultar seus movimentos, constantemente preocupada com a própria segurança, embora não exista mais perigo.
Elizabeth girou o cabo da faca entre os dedos, jogada na cadeira com as pernas em cima do braço, ela esperava pelo horário do voo. A mochila estava arrumada há doze horas, abandonada em cima da cama junto com o livro surrado de Peter Pan, um presente antigo que Thompson deu a ela no seu primeiro ano com a equipe.
A faca aparentava ser uma pena que deslizava com facilidade pelos dedos de Elizabeth, que não registrou o segundo em que a lâmina passou rapidamente por um de seus dedos. O corte teria passado reto pelos olhos de Elizabeth se não fosse o sangue, que escorreu com fluidez pelo comprimento do dedo indicador até a palma da mão. Os olhos castanhos-escuros de Elizabeth acompanharam o sangue, observando o caminho que fazia até se reunir na palma da mão, onde lá ficou.
A dor não vem, apesar da profundidade do corte, não existe qualquer resquício de dor que acompanhasse o ferimento. É como se as cicatrizes na mão de Elizabeth tivessem adormecido a pele há muito tempo, e a dor não tivesse mais capacidade de afetá-la como afetava quando ralava as mãos nas paredes ásperas do Beco, escalando para chegar a um lugar seguro que fosse longe dos bêbados que vagavam pelas ruas. Seus braços continham mais cicatrizes que suas mãos, porém seu torso guardava as piores memórias que o Beco ofereceu.
Elizabeth esfregou o corte com o outro dedo, esfregando até que houvesse mais sangue em sua mão, o suficiente para escorrer pelo seu braço. Ela não percebeu o momento que deixou a faca em cima da escrivaninha nem quando a porta do quarto foi aberta, ocupada demais em assistir o sangue escorrer fluidamente por sua mão. O corte não era tão grande, mas era reto e acompanhou o dedo indicador inteiro de Elizabeth.
– Eu bati na porta, mas ninguém… – Mason Rehsyas parou próximo a escrivaninha, os olhos azuis se ampliaram conforme percebia o sangue que acomulava-se na palma da mão de Elizabeth. – Céus! – sua voz saiu carregada de um sotaque incomum, Elizabeth nunca ouviu alguém falar daquela maneira e se viu esquecer do sangue em sua mão.
Mason era mais bonito do que as fotos dos noticiários, e Elizabeth, que normalmente se considerava alheia a algo tão vago quanto a aparência de alguém, se viu surpresa com a profundidade que os olhos azuis de Mason podiam ter ao encará-la. O cabelo dele parecia penas de corvo, os fios negros caindo em sua testa como uma cortina terrivelmente escura e que aparentava ser infinita. Suas roupas condizem com as que Elizabeth viu em fotos, um terno preto que devia ser mais caro do que aqueles dois sofás juntos, e uma gravata vermelha de seda. A calça de alfaiataria preta tem o tamanho padrão da moda alfaiataria e Elizabeth não saberia disso se não tivesse estudado termos da moda por um tempo, apenas para cessar o tédio que sentia no verão passado. Os sapatos sociais brilham sob a luz do lustre, quase refletindo o reflexo de Mason.
Mason Rehsyas é estupidamente, se não ridiculamente, bonito para ser uma pessoa normal e Elizabeth tem sérias dúvidas quanto a isso.
– Pressione. – Mason em algum momento se agachou em frente a Elizabeth, tendo tirado um lenço do terno. Ele pressionou no dedo, os olhos preocupados, verificando o sangue na palma da mão de Elizabeth apenas para descobrir que não estava ferida. – Você deveria tomar mais cuidado, poderia se ferir gravemente com uma lâmina dessas.
– É só um corte. – Elizabeth disse, afastando-se ao finalmente se dar conta de que a mão de Mason estava a tocando. – Um corte não vai me m***r.
– Perda de sangue vai. – Apesar disso, Mason sorriu e se levantou, permitindo-se olhar ao redor para ver o quarto. – Mantenha pressionado e o sangramento irá cessar.
Elizabeth observou Mason prestar atenção em cada detalhe do quarto com um interesse estranho, passando o dedo pelas lombadas dos livros, às vezes puxando um livro e o folheando como se estivesse acostumado a estar ali. Ele era confiante, esse fato era visível pela maneira que Mason se comportava como se aquele quarto fosse dele, embora houvesse momentos em que ele parecia cuidadoso até demais ao colocar o livro de volta na prateleira com um medo absurdo.
Seus olhos azuis arregalaram-se no segundo em que olhou para cima, percebendo o teto pintado de preto e os respingos de branco que imitavam as estrelas. Não era nada demais, não havia motivo para Mason ficar impressionado, mas Elizabeth reparou na maneira que seus olhos mantiveram-se arregalados conforme brilhavam.
– Isso é incrível! – Mason finalmente encontrou voz para falar, olhando para Elizabeth como se ainda olhasse para as estrelas no teto. – Você vai para alguma missão. – perguntou assim que seus olhos encontraram a mochila em cima da cama, sua testa ficou franzida e os cantos da boca puxaram para baixo.
– Não sou uma agente, não vou para missões. – A amargura não estava prevista em suas palavras, porém Elizabeth percebeu tarde demais para poder impedir. – O que você está fazendo aqui, Mason?
– Você sabe o meu nome? – perguntou, surpreso. – Como?
– Alguém não sabe seu nome? – Elizabeth perguntou, retoricamente. – Seu rosto está em todos os noticiários, é um pouco difícil não saber quem você é.
– Ah, faz sentido.
– Então, vai me explicar o que está fazendo aqui? No meu quarto? – Elizabeth cruzou os braços em frente ao corpo e ergueu uma sobrancelha, observando a repentina demonstração de constrangimento de Mason, que desviou o olhar para a prateleira de livros, os ombros encolhidos e as bochechas estranhamente vermelhas.
– Ouvi falar de uma agente fantasma… E quase a vi. Não gosto de pessoas que se esgueiram por aí e ficam ouvindo a conversa dos outros. – Elizabeth enrubesceu com a perspectiva de ter sido descoberta, de novo. Céus, talvez Nicolas Farley estivesse certo e ela nunca seria uma boa agente, não importava o quanto se esforçasse para isso. Se ela não era capaz de manter sua presença ocultada, como poderia se tornar uma agente se nem ao menos sabe atirar? É, provavelmente, um trabalho chato em um laboratório seja sua melhor opção. – No entanto, você é um caso à parte.
Elizabeth o encarou, em dúvida e surpresa, perguntando-se aonde Mason queria chegar com aquela conversa.
– Apesar de ouvir muito sobre você, eu nunca realmente a vi. Até agora. – Mason virou a cabeça e a encarou, os olhos correndo pelo rosto de Elizabeth como se temesse que, assim que saísse do quarto, esquecesse de cada detalhe. – A agente fantasma da OSAEU, você tem uma reputação e tanto.
– Não sou uma agente.
– Ainda, mas eu ouvi dizer que está no caminho para se tornar uma.
– Você ouve bastante, não é? Deveria saber que algumas coisas são somente boatos idiotas e que não se baseiam nada além de um bando de adultos que não tem trabalho o suficiente e ficam supondo coisas que estão longe da realidade. – Elizabeth falou, calma demais para a raiva em suas palavras. – Você quer alguma coisa ou eu posso ir para meu voo?
– Eu só estava curioso, não sabia que a agente mais falada da OSAEU era uma adolescente.
– Você não tem mais de dezoito anos.
– Exato, mas não sou tão interessante.
Elizabeth iria respondê-lo, porém a batida na porta a fez se levantar antes mesmo de registrar o segundo em que Mason abriu a porta.
– Olá, Farley. – Mason cumprimentou.