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3049 Palavras
O Beco sempre foi considerado um veneno letal que poucos conseguem sobreviver, e muitos morreram à procura da cura, enquanto outros apenas se adaptaram à crueldade enraizada nas estreitas vielas, compreendendo cada fragmento que compunha aquele inferno particular. Não é um lugar onde alguém fugiu vivo para contar a história, exceto por Elizabeth. Ela nunca entendeu como sobreviveu por cinco anos naquele lugar, vasculhando comida nas latas de lixos e dormindo em lugares que ofereciam pouco conforto e segurança para uma criança. A pior época do que Beco era quando o inverno chegava, a neve se alastrando pelas ruas e telhados, impedindo que houvesse um lugar que pudesse entrar na descrição de seguro. Sua única opção era ficar encolhida debaixo de um carro, os dentes batendo furiosamente uns contra os outros, torcendo para não morrer. No entanto, tentar não é exatamente se forçar. Às vezes, quando o desespero a afligia em níveis incompreensíveis, Elizabeth desejava que a morte lhe abraçasse rapidamente para que não sentisse mais dor. Aquele desejo pela morte a quebrava por dentro em pedaços que seriam difíceis de reunir novamente, doía de uma maneira que a dor ainda permanecia alojada em seu peito. Elizabeth questionava-se frequentemente sobre como conseguiu sobreviver, mesmo sabendo que todo dia que acordava seria aquele em que morreria. Ela já viu pessoas mais fortes que sucumbiram à doença, seus corpos apodrecendo nas ruas do Beco sem ninguém para tirá-los de lá. O Beco não era exatamente um teste de resistência física, era um lugar que conseguia fazer o homem mais forte desejar avidamente pela morte. Não havia religião nem esperança, somente a crueldade em sua máscara mais fria. Duas batidas contra a placa da tubulação fizeram Elizabeth sobressaltar de seu sono, despertando com tanto medo que bateu a cabeça na parte de cima da tubulação. A princípio, seu primeiro pensamento foi correr. Correr o mais rápido possível para escapar… Então, percebeu que não estava no Beco. Ela estava no complexo dos Thunderblood, dentro de uma tubulação de ar que fez o papel de ser seu quarto naquela noite em que fugiu do jatinho de Tony Starking. Não foi o lugar mais confortável que já dormiu, a mochila conseguiu fazer o papel de ser um travesseiro, embora o pescoço de Elizabeth doesse. – Bom dia, bela adormecida. Levantando! – Anthony Starking gritou para que Elizabeth pudesse ouvi-lo. Para uma manhã de domingo, ele estava estranhamente de bom humor. – Temos trabalho a fazer. – E, com isso, ele bateu mais duas vezes na tampa antes de se afastar. Elizabeth piscou várias vezes para despertar o cansaço, arrastando-se para ficar de cara com a tampa da tubulação de ar. Ela se espremeu para poder tirar da bota uma faca, a única que sobrou em sua bota, e começou a trabalhar para desparafusar os parafusos. Foi um trabalho lento e paciente, principalmente pelo sono que Elizabeth sentia, porém, em alguns minutos, ela retirou a tampa e puxou a mochila em seu ombro quando pulou para fora da tubulação. Sua aterrissagem soou assustadoramente silenciosa para uma queda de quatro metros, porém Elizabeth se contentou em jogar essa observação para uma parte distante de sua mente a favor de não pensar muito sobre sua fama de fantasma. Anthony Starking ficou alheio à presença de Elizabeth, que o observou fazer o café de costas para ela. Apesar do que aconteceu ontem, Starking não parecia com raiva como Elizabeth imaginou que estaria. Na verdade, sua cantoria a fez ficar com um péssimo humor pela manhã. Ela odiava barulhos de manhã, era como ser levada através do tempo para a época em que vivia no Beco e suas manhãs se resumiam a gritaria da feira que estendia-se pelas ruas estreitas. Embora, seu mau humor de agora poderia ter culpa na péssima noite de sono. Dormir na tubulação de ar não foi sua ideia mais brilhante, com certeza seria capaz de encontrar um lugar melhor caso procurasse no complexo dos Thunderblood. No entanto, ela não queria arriscar esbarrar em Anthony Starking ou Happy, a vergonha a mataria antes de Nick Farley. O fato de ter surtado na frente deles significava que o Beco não a deixou completamente, a frustrando profundamente porque não era essa a liberdade que tanto ansiava por anos. Nick Farley, certa vez, avisou a Elizabeth que seria bom se seus traumas não interferissem em seu julgamento nem as pessoas ao seu redor, ele não queria ter que lidar com mais problemas do que os que já tinha. Ele estava certo, embora tivesse doído ouvir palavras tão duras direcionadas a ela. Ele ficou com tanta raiva na época que Elizabeth começou a ter ataques de pânico, que Elizabeth encontrou uma maneira de suprimir aquele medo incontrolável. Facas, muitas facas. Inúmeros cálculos. Qualquer coisa para manter sua mente distante da parte traiçoeira de suas memórias. Tony se virou com uma caneca de café em mãos, seus olhos arregalando-se aos poucos conforme assimilava a nova presença em sua frente. Seu rosto ficou pálido como se estivesse vendo um fantasma, a mão tremeu com caneca na mão e o café escapou da cerâmica e caiu no chão. – m***a! – Starking colocou com violência a caneca em cima da bancada antes de alcançar um pano. – Faça um maldito som da próxima da vez! – arrulhou, de repente frustrado. Ele limpou o chão e jogou o pano na pia. – Desculpa. – Elizabeth encolheu os ombros, segurando a alça da mochila com força. – Eu não queria assustá-lo. O semblante de Starking suavizou e ele soltou um suspiro compreensivo, a raiva sendo dissipada aos poucos como se ele entendesse que não havia como culpar Elizabeth. Ela, por sua vez, esperava por gritos assim que as memórias da noite anterior voltassem à mente de Starking. Seus ombros continuavam tensos, a garganta repentinamente seca, à espera de uma reação explosiva de Tony. Nessas horas, Farley teria feito um extenso discurso sobre a irresponsabilidade de Elizabeth por não ter controlado seu vasto medo por toque. “Seu medo irá matá-la qualquer dia”, ele disse uma vez que Elizabeth entrou em pânico ao ser acordada com uma mão chacoalhando seu ombro. – Tudo bem, Elizabeth. – Starking assegurou, calmamente. Ele virou-se para a bancada e pegou mais uma caneca, enchendo-a de café. – Aqui. Elizabeth olhou para a caneca e em seguida arrastou seu olhar para os olhos de Tony. – Ah, obrigada. Ela não queria soar tão surpresa com um ato que deve ter significado nada para Starking, no entanto, quando percebeu, já era tarde demais. A verdade é que ela tinha um contato limitado com as pessoas e atos mínimos eram raros, talvez Phillip Thompson fosse a exceção, mas ela não lembrava da última vez que alguém ofereceu algo a ela. Por Deus, é só uma maldita caneca de café, ela pensou se repreendendo pelo segundo de divagação. – Então, você dormiu ali em cima? – Starking perguntou quando Elizabeth pegou a caneca de café, encostando na bancada para encará-la. – Não é tão r**m quanto parece. – Jura? Porque estou vendo a marca do zíper da mochila no seu rosto. Elizabeth fez o favor de não responder ao comentário, preferindo olhar em volta à procura de indícios que mais alguém morava ali além de Tony Starking. Embora tivesse ciência do fato de que Starking não morasse realmente ali, ela sabia que ele passava alguns dias no complexo, então esperava encontrar mais do que ferramentas e canecas de café vazias espalhadas pelo lugar. A cozinha, no entanto, parecia ser usada pela primeira vez e não havia indícios de que mais alguém morava ali quando Elizabeth passou pelas tubulações de ar noite passada, olhando para cada cômodo que passava. Ela sabia que metade dos Thunderblood havia ido embora após a briga entre Rogers e Starking, porém não imaginou que a situação tivesse sido tão r**m ao ponto de todos os Thunderblood terem ido embora. – Não tem mais ninguém aqui além de nós? – Elizabeth perguntou, curiosa em relação ao que aconteceu depois da fuga planejada por Steve Rogers. Ela só sabia do que estava nos arquivos e, é claro, o que Phillip Thompson deixou escapar. – Rhodes às vezes passa por aqui para a fisioterapia, mas normalmente aqui é bem solitário. – Tony esclareceu, bebendo de seu café. – Cada um dos Thunderblood foi para um lado, não mantemos contato. – Por quê? – Elizabeth se ouviu perguntando antes que pudesse deter-se. – Porque… Foi uma situação complicada, na época. – respondeu vagamente e esse foi o momento que Elizabeth percebeu que esse era um assunto pessoalmente demais para conversar pela manhã. – Hum… Então, eu vou continuar dormindo na tubulação de ar ou posso dormir no sofá? – perguntou. – Sexta-feira vai te mostrar seu quarto, depois que você deixar suas coisas me encontre na oficina. – Starking disse antes de sair da cozinha, a conversa sobre os Thunderblood tendo o abalado visivelmente. Elizabeth fez anotação mental para pedir desculpas mais tarde. Ela não demorou para descobrir que Sexta-feira era a inteligência artificial do complexo. ★★★ A oficina ficava localizada no andar subterrâneo, com uma rampa que era ligada na entrada do elevador e dava uma volta completa no lugar inteiro. As paredes de vidro separavam a rampa da oficina, as paredes da rampa eram de cimento e tinham as bordas arredondadas. As portas duplas tinham o material de vidro e permitiam o acesso para a oficina, onde Elizabeth teve a visão de Anthony Starking trabalhando em uma armadura vermelha estirada no balcão de metal, seus olhos estavam cobertos por um óculos de lentes claras, e uma caneta descansava atrás de sua orelha enquanto ele manuseava as ferramentas conforme desmontava peça por peça. Elizabeth caminhou devagar, consciente de que estava consideravelmente atrasada pois ficou perdeu muito tempo admirando o quarto de hóspedes, que era cinco vezes maiores que seu quarto no complexo da OSAEU. Naquele momento, não havia como se atrasar mais, então ela levou tempo para chegar às portas de vidro, assistindo Tony trabalhar. Sua presença não foi notada quando empurrou uma das portas com o cotovelo, ambas das mãos ocupadas com o laptop e a outra com um caderno de anotações, e nem mesmo percebida quando os colocou em cima de uma bancada encostada na parede. Ela apoiou as mãos na bancada e alavancou o corpo para cima, sentando na bancada antes de alcançar o laptop. – Você poderia substituir os fios por placas que conectam sistemas mais modernos. – Elizabeth ofereceu como um cumprimento melhor do que um simples oi. Starking virou o corpo rapidamente para encarar Elizabeth, os olhos arregalados com o susto que levou, uma chave de f***a em sua mão como se tivesse a pretensão de usá-la como arma caso fosse necessário. – Caramba! – ele soltou a respiração, pressionando a mão no peito. – Você… – Tony respirou com calma, parecendo frustrado e alarmado ao mesmo tempo que Elizabeth o observava calmamente, abrindo o laptop para começasse a trabalhar.. – Agente fantasma, hein? E você disse que eram apenas boatos, vejo que não era verdade. – É a armadura do Spider? – ela perguntou ao invés de responder ao comentário de Starking, esticando-se para ver melhor. – É uma versão muito melhor do que aquela que ele usa nos vídeos. – Que vídeos? – Starking indagou, abandonando a chave de f***a em cima da bancada. – Os vídeos que são feitos por pessoas que o vem impedindo roubos e coisas do tipo, tem um monte. Ele tem muitos fãs. – Elizabeth esclareceu. Elizabeth percebeu que a coragem que havia reunido para ter a conversa que planejou ter em relação ao acontecimento da noite passada, simplesmente evaporou. Ela não conseguia tomar a iniciativa de começar o assunto, percebendo tarde demais que provavelmente Phillip Thompson já devia estar a par da situação, e Nicolas Farley deve ter concluído que ela fez aquilo para voltar mais cedo para a OSAEU. Era uma boa suposição e, provavelmente, a que chegava mais perto da realidade para ele. Ela estremeceu com o pensamento. – Você está se sentindo melhor? Em relação ao que aconteceu ontem. – Starking perguntou, de repente, e a pergunta soou tão absurda para Elizabeth que ela ficou o encarando por muito tempo, esquecendo completamente de sua própria voz. – Happy se sentiu m*l, ele não queria a assustar e… – Tony hesitou por um segundo, parecendo genuinamente preocupado com Elizabeth. – Ele falou que você estava falando enquanto dormia e parecia com medo. Ele não queria te assustar… Ou machucar. Elizabeth piscou os olhos, digerindo as palavras de Starking. – Ok. – Elizabeth não poderia acreditar no que ouviu nem se passasse horas de sua vida se esforçando para isso. – E-eu… Perdão, mas por que você não está com raiva? Agora Starking parecia não acreditar no que ouviu. – Por que eu estaria com raiva? – Eu não sei! – confessou. – Mas normalmente Farley fica com muita raiva. – Por você ter pesadelos? – A confusão foi substituída por uma raiva que fez Elizabeth abaixar a cabeça, encarando os pés que balançavam. – É. – ela odiou a maneira com que sua voz soou frágil. – Eu poderia ter machucado vocês, é por isso que Farley fica com raiva. Mas eu não tive a intenção! – completou, a culpa finalmente aconchegando-se em seu peito. Ela gostaria de poder ter raiva de Nicolas Farleypelas noites em claro que ele a fez ter, entrando em seu quarto no meio da noite e a arrastando pelo corredor. Suas desculpas normalmente não soavam sinceras e, mesmo se soassem, Elizabeth não acreditaria nem se fizesse esforço. Ele a fazia lutar com um saco de areia por horas até cair no chão, o cansaço gritando através de seus ossos, e o sono se tornando impossível de ignorar. Normalmente, ela dormia no chão, acordando de manhã com um cobertor em cima de seu corpo. Com a mente e o corpo exaustos, os pesadelos não conseguiam alcançá-la. – De qualquer forma, eu sinto muito. – Elizabeth pediu, desviando os olhos para o traje. Ela não conseguiu segurar o olhar de Starking por muito tempo, principalmente quando percebeu que não sabia de onde vinha aquele sentimento estranho refletido em seus olhos. – Hum, então, por onde vamos começar no sistema? Starking a encarou em dúvida, como se estivesse em conflito entre insistir no assunto ou deixá-lo de lado a favor de dissipar o clima pesado no ar. – Farley me disse que você tem uma boa base, vamos ver o que você tem e começaremos a partir daí. – disse, por fim. ★★★ – Você parece confusa. – Elizabeth estremeceu com a repentina presença na cozinha, recuando rudemente para trás até que o osso de seu quadril batesse com violência contra o gaveteiro próximo ao fogão. – m***a. – resmungou, enfiando o post it no bolso da jaqueta. Parado ao lado da ilha da cozinha, Mason Rehsyas assistia com preocupação Elizabeth, que franziu as sobrancelhas em confusão assim que percebeu as roupas que ele usava. Para as dez da manhã, Mason estava muito bem vestido com um terno verde-escuro junto a uma excelente calça de alfaiataria da mesma cor, uma camiseta social preta que aparentava ser de cetim com os primeiros botões abertos, revelando parte de sua pele branca. Os sapatos eram um evento à parte, brilhantes o suficiente para que fosse possível ver o próprio reflexo neles. – Não sabia que o Met Gala começava tão cedo. – O sarcasmo suavizou o péssimo humor de Elizabeth pela manhã. Ela murmurou um palavrão, massageando o quadril sabendo que iria ficar roxo, antes de alcançar uma caneca no armário e enchê-la de café. – Para tudo tem a primeira vez. – Mason inclinou-se para frente e apoiou o peso do corpo em cima dos braços, que deitou na bancada. – Como você está? Elizabeth não respondeu, concluindo que sua presença ali, no complexo dos Thunderblood, respondia o suficiente por ela. Estava respirando e tomando café, ela podia ser considerada viva e relativamente bem, então levou a caneca aos lábios e deu um longo gole no café. Com o silêncio de Elizabeth, Mason sorriu suavemente, o queixo descansando na palma da mão. – O que você faz aqui? – Elizabeth perguntou após muitos minutos em silêncio, encarando Mason que parecia satisfeito em ficar parado observando Elizabeth beber café. – Daisy pediu para que eu verificasse a irmãzinha dela. E, mesmo que Phillip Thompson não vá admitir, ele também está preocupado. – Mason contou. Não era a primeira vez que Daisy se referia a Elizabeth como sua irmã mais nova, embora nunca tivesse ousado em chamá-la assim na sua frente. A primeira vez que Elizabeth ouviu isso, pensou que era apenas uma idiotice inventada pelos agentes. Na segunda vez, sua desconfiança começou a infiltrar sua mente quando ouviu Melinda Jay revelar que Daisy a chamou assim. Na terceira vez, Daisy não ouviu Elizabeth se aproximando. Então não foi uma surpresa saber que ela a chamou assim de novo. – E você pegou um avião somente para verificar se estou bem? Honestamente, tem invenções para comunicação que são bastante úteis. Uma delas, é o celular. Deveria testar, lhe pouparia tempo. – Elizabeth falou. – Eu não peguei um avião. – Mason disse. – Na verdade, eu estava no complexo a cinco minutos atrás. – Isso é impossível… – Elizabeth começou a dizer, mas uma voz a interrompeu antes que pudesse refutar Mason. – Elizabeth, o chefe está esperando você na oficina. – a IA do complexo avisou. Elizabeth teria se assustado se não tivesse sido avisada com antecedência sobre a IA, onde encontrou várias informações nos relatórios da sala de arquivos. Apesar do conhecimento prévio, Elizabeth agarrou a alça da caneca com urgência, um breve segundo e seu único pensamento era encontrar a saída mais rápida. Nicolas Farley estava certo, os problemas de Elizabeth a levaria à morte junto a sua equipe caso se tornasse uma agente. Ela olhou para o prato de torradas e o pegou, quando voltou seu olhar para a ilha da cozinha, Mason havia sumido. – Garoto estranho. – Elizabeth comentou em voz alta para ninguém em especial, resolvendo ir para o laboratório antes que a IA avisasse novamente.
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