Christopher
Por mais teimoso que Alfonso fosse, ele estava colaborando em deixar a Dulce em paz e esquecer toda a história de sereia que ele criou em sua mente. E eu tinha que agradecer muito à Anahi que desde que começou a sair com o meu irmão, tem distraído a mente dele de forma positiva.
Alfonso me pediu para acompanhá-lo em algumas viagens, principalmente depois que descobrimos uma migração de arraias para a nossa costa. Estávamos tentando descobrir as razões para esse acontecimento.
— Ei, Christopher! — ele me chamou antes que eu saísse de seu barco.
— Sim?
— Eu sei que já está anoitecendo, mas acabaram de me informar que há uma grande concentração de arraias bem próximas daqui. Não é estranho que elas fiquem se reunindo em grupo? Bom, foi isso que eu ouvi de você. — riu. — Vamos lá?
— Alfonso, não tem mais ninguém aqui além de nós e eu precisaria de alguém me auxiliando pra quando eu mergulhasse.
— Vai até o oceanário e chama algum ajudante. A Dulce, talvez?
— Se ela ainda estiver por lá, o que eu acho difícil, eu a chamo.
— Por favor, só tenta! Talvez a gente não tenha a chance de ver as arraias agindo de forma tão estranha de novo.
— É, você tem razão. Eu vou correndo até o oceanário. — no fundo, eu queria colaborar com a recente irmandade que estava crescendo entre nós. Fazia dias que eu não ouvia nenhum comentário m*****o por parte do meu irmão.
Chegando no oceanário, procurei Dulce pelos corredores e a encontrei conversando com alguns peixes. Antes de chamá-la, fiquei observando a cena.
— É bom finalmente me sentir confiante com alguém. Vocês deveriam tentar se abrir uns com os outros. — ela esperou, como se estivesse os ouvindo. — Não, não é difícil! — riu. — Na verdade, eu diria que é tão fácil quanto é difícil... bem... complicado... mas é tão bom!
— Escutem a Dulce! — eu disse me aproximando. — Aposto que não tem ninguém nesse oceanário que seja melhor em dar conselhos para vocês. — ela riu me vendo conversar com os animais assim como ela estava. — Você fica tão linda conversando com eles.
— Algumas pessoas diriam que eu não giro bem. — deu de ombros.
— E é verdade, você é bem doidinha. Mas isso te deixa ainda mais atraente. — segurei seu queixo e lhe dei um selinho demorado. — Que bom que ainda está aqui, eu preciso de você pra me auxiliar num trabalho de campo.
— Agora? É quase de noite.
— Não vai demorar, voltaremos antes que o sol se ponha completamente.
— Tudo bem, então. Só espera eu tirar meu uniforme?
— Claro, vou estar na saída. — beijei sua testa e fui até a parte externa.
Não demorou para que Dulce retornasse e nós fomos juntos até o cais.
Alfonso pilotou seu barco até a localização indicada e quando chegamos, nós três começamos a observar o mar.
— Achei que vocês tinham dito que algumas arraias estavam tendo um comportamento estranho por aqui. Elas parecem bem normais pra mim. — Dulce falou.
— Foi algum alarme falso, Alfonso? — perguntei.
— Tenho certeza que não. Já que estamos aqui, por que você não mergulha pra analisar? Pelo menos, não perdemos a viagem. — ele sugeriu.
— Dulce, separa os meus equipamentos enquanto eu vou lá na cabine vestir a minha roupa de mergulho. — falei.
— Ok. — Dulce pegou minha mochila e começou a tirar as coisas de dentro.
Fui até a cabine, deixando os dois sozinhos. Comecei a me vestir e antes que eu fechasse meu zíper por completo, ouvi Dulce gritar e logo depois, o barulho de algo caindo na água.
Corri até o convés e me deparei com um barco totalmente vazio. Vi que o cilindro de oxigênio que eu iria usar não estava mais lá.
Corri para a beira do barco e vi o meu irmão debaixo d'água, usando o meu cilindro, enquanto segurava Dulce em seus braços, que se debatia para sair.
Eu entrei em total desespero e a única coisa que deduzi foi que ele queria matá-la!
Dulce
Tudo foi tão rápido. Eu estava apenas ali, parada, fazendo o que Christopher havia me pedido, quando de repente, eu fui jogada ao mar.
Alfonso pulou comigo na água e me puxou para o fundo, me segurando com força. Meu corpo humano era inútil quando se tratava de força física.
Só tive certeza de uma coisa, ele não queria me afogar, queria provar que eu sobrevivia debaixo d'água.
Quando olhei para cima, na direção do barco, eu vi Christopher pular no mar e aquilo só fez com que eu me desesperasse ainda mais. Christopher e eu juntos, a mercê da Água. Aquele era o pior cenário que eu poderia imaginar.
Christopher chegou até nós e começou uma luta física com o irmão, até que eu me livrei dos braços de Alfonso e retornei à superfície, sendo seguida dos dois.
— Você enlouqueceu?? — Christopher gritou, dando um tapa em cheio no rosto de Alfonso.
— Você viu quanto tempo ela ficou debaixo d'água! Ela não é normal! — Alfonso tentou chegar perto de mim, mas foi impedido por Christopher.
Os dois começaram uma discussão que eu sabia que não terminaria tão cedo. E eu apenas olhava constantemente para a escada do barco e vez ou outra, pedia para que os dois subissem, mas em todas as vezes, minha voz foi abafada pelos gritos de ódio deles.
— Dulce? — e Ela acordou, me deixando ainda mais em pânico. — O que está acontecendo?
— Nada. — sussurrei.
— Posso ouvir que estão brigando por sua causa. O que você fez?
— Nada...
— Quem são eles? — eu não podia responder. — Vai me fazer perguntar novamente?
— Christopher, acorda, p/orra! — Alfonso gritou mais alto. — Você está apaixonado por uma sereia! O amor da sua vida é uma sereia! — p/uta merda! Amaldiçoei Alfonso de todas as formas possíveis.
— Amor? Este homem a ama? Esse amor é recíproco? — fiquei em silêncio. Se eu mentisse, Ela saberia. — O seu silêncio traz muitas repostas.
— Não... por favor... — eu comecei a chorar. Os dois pararam de brigar e me olharam com estranheza.
— Viu o que está fazendo com a Dulce? Meu bem, não fique assim... — ele tentou se aproximar, mas eu me afastei.
— Saiam da água! Voltem para o barco, agora! — mandei. Eles me olharam confusos. — Saiam! — gritei.
— Afogue-os. — Ela mandou.
— Saiam... — eu chorava compulsivamente.
— Afogue-os ou eu o farei! — Ela começou a baixar a temperatura. Eu sabia que estava furiosa e que não mediria esforços para matar o Christopher.
Notando a mudança estranha da temperatura do mar, Alfonso começou a nadar de volta para o barco, subiu as escadas e ficou de lá olhando para nós dois.
— Christopher, por favor... — fui interrompida.
— Eu vou se você for primeiro.
— Eu não posso.
— Por que não? — franziu a testa. — Dulce, vamos voltar nós dois, ok? Juntos, como sempre estivemos. — me ofereceu sua mão.
— Eu pedi pra que você não amasse ninguém além de mim! E o que fez comigo? Você não me ama o suficiente? NÃO ME AMA??? — Ela estava completamente histérica agora.
Um redemoinho começou a se formar ao redor de Christopher. Um olhar de pânico surgiu em sua face, mas mesmo assim, ele tentou nadar até mim ao invés de ir até o barco para se salvar.
— Dulce, se você é mesmo uma sereia, FAZ ALGUMA COISA! — Alfonso gritou.
Quando Christopher foi sugado por Ela, eu mergulhei logo em seguida e a medida que eu nadava em direção à ele, me transformava em sereia, deixando pedaços de minhas roupas rasgadas para traz.
Eu me transformei diante do olhar de pânico do homem que eu amava. E depois que ele me viu como realmente sou, sua expressão se paralisou, ficando tão obscura que o medo que eu senti daquele olhar se tornou maior do que o medo que eu sentia das profundezas do oceano.
Nadei o mais rápido que pude, gastando todas as minhas energias até alcançá-lo. Abracei seu corpo e tentei nadar para cima, mas Ela era mais forte, atraindo o corpo dele para o fundo, como um enorme imã.
Eu entrei em desespero depois que ele desmaiou pela falta de oxigênio. Meu coração entrou em pânico e eu só pensava em tirá-lo dali. Meu corpo inteiro esquentou, eu podia sentir o sangue correndo em minhas veias, ajudando a dar mais potência para a minha cauda.
Ali, eu ultrapassei todos os limites que eu tinha, o medo de perder o Christopher era tão grande que me ajudou a ter potência o suficiente para quebrar as barreiras da Água. Nunca havia me sentido tão forte como agora.
Ela aumentou a correnteza, agora tentando puxar à mim junto com ele. E mesmo com todas aquelas ondas submersas me empurrando para o fundo, eu as ultrapassei e nadei mais do que nunca antes, em direção à praia.
Dessa vez, Você não tiraria ninguém de mim, Água.