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2807 Palavras
Dulce  Depois da lavagem estomacal, eles o deixaram num quarto. Christopher ainda estava desacordado e nós três ficamos no quarto aguardando que ele acordasse.  Maitê não parava de chorar enquanto segurava a mão dele, acariciando seu rosto com as pontas dos dedos.  Eu e Alfonso estávamos mais afastados, sentados um ao lado do outro no sofá branco.  — Era só o que me faltava. — Alfonso bufou. — Como se já não bastassem as alucinações, agora ele também vai ficar tentando se matar! — o olhei perplexa, não acreditando que ele estava mesmo com raiva.  — Você não pode estar falando sério. — eu disse.  — Pois é, Dulce. Diferente de vocês duas, eu não vou passar a mão na cabeça do Christopher. Isso pra mim foi unicamente pra chamar atenção.  — Você tem noção do quanto o seu irmão se sente culpado por tudo? Tem noção do peso que ele carrega? Que tipo de pessoa horrível não é capaz de ter empatia pela própria família?  — Quer me dar sermão? Logo você, que some e deixa ele doido?  — Eu tenho as minhas necessidades e diferente de você, eu nunca o machucaria de propósito. Deveria se envergonhar. — ele revirou os olhos.  — Ainda não consigo entender o porquê de ele ser melhor que eu pra você.  — Talvez porque ele tenha um coração.  — Ele acordou! — Maitê exclamou, interrompendo o que quer que fosse que Alfonso iria dizer. — Maninho?  — Ai... — Christopher abraçou a própria barriga e fez uma careta. — Que queimação... onde eu estou?  — No hospital, Christopher. Você quase teve uma overdose por ter tomado o dobro da dose do seu medicamento. — Maitê o olhou com repreensão. — Por que fez isso?  — Eu tive uma alucinação ontem. Achei que os remédios não estavam mais funcionando e pensei em aumentar a dose. — ele parecia arrependido.  — Aumentar a dose sem consultar o seu médico? — Alfonso ficou de pé e andou até ele. — Isso foi muita burrice, não acha? E se você tivesse morrido? Não pensa nas pessoas que gosta de você?  — Com certeza você não é uma delas. — Christopher disse.  — Por favor, Alfonso, agora não é hora pra isso. — Maitê pediu.  — Dulce? — Christopher me olhou. — Por que tá quietinha aí? — depois que ele disse que dobrou a dose por ter tido uma "alucinação", eu me senti tão culpada que nem consegui chegar perto. — Vem cá. — ergueu a mão na minha direção.  — Eu e o Alfonso vamos deixar vocês sozinhos. — ela acenou com a cabeça para Alfonso e os dois saíram do quarto.  Me aproximei devagar e segurei sua mão, o olhando de forma séria. E em minha mente, meus pensamentos gritavam "me perdoe".  — Me perdoa. — foi ele quem pediu perdão. — Eu fui muito irresponsável.  — Tudo bem, você só precisa aprender com isso e pensar direito antes de colocar sua vida em risco. — segurei sua mão e a ergui, depositando um beijo. — Não sabe o medo que eu senti.  — Imagino que acordar ao lado de uma pessoa quase morta não deve ser uma experiência muito agradável. — riu pelo nariz. Eu sorri de lado e sentei na cama, ao lado dele.  — Como você se sente? — comecei a acariciar seus cabelos.  — Sinto um incômodo em meu estômago, mas no geral, eu estou bem. O que o médico disse?  — Pra você passar pelo menos três dias sem tomar seus remédios e passar a comer coisas mais leves essa semana. Seu estômago ainda deve estar machucado.  — Parar de tomar meus remédios? — pareceu não gostar da ideia. — Se eu já tenho alucinações com eles, imagina se eu parar de tomar?  — É para o seu bem. — eu sabia que nada mudaria quando ele parasse de se medicar, afinal, ele não estava doente.  — Eu não quero que pense que eu tentei fazer algo contra a minha vida, porque não foi nada disso. Foi só um acidente.  — Fico aliviada em ouvir isso. Eu não suportaria saber que você não quer viver. — o olhei com tristeza.  — Por que eu iria querer morrer logo agora? Eu jamais renunciaria à você. — me aproximei, deixando meus lábios tocarem os dele. Nos afastamos um pouco e ficamos nos encarando, até ele soltar uma risada.  — O que foi? — franzi a testa.  — Não acredito que você veio ao hospital usando um pijama cor de rosa com morangos. — nós dois começamos a rir.  — É, o Christian me disse que eu me visto como uma adolescente dos anos cinquenta.  — Eu acho fofo e muito elegante. Ontem à noite, no evento, você era a mulher mais linda do lugar.  — Imagina... — senti meu rosto corar.  — Ninguém é mais bonita que você, Dulce. — as borboletas no meu estômago se agitavam quando ele me elogiava.  Tudo o que eu fiz foi voltar a beija-lo. Ele pousou sua mão sobre a minha nuca e com o outro braço, envolveu minha cintura, me trazendo para mais perto. Não demorou até que ele recebesse alta e nós passamos o resto do dia juntos, passeando pela cidade. Ele me mostrou os lugares que gostava de ir e eu mostrei os primeiros lugares que frequentei ao chegar ali.  No final da tarde, fomos observar o pôr do sol no farol. Aquele havia se tornado o nosso lugar preferido, nos trazia uma paz indescritível e uma vista que nós dois amávamos: o oceano, azul e brilhante, com uma brisa que batia em nossos rostos e nos fazia desejar nunca sair dali.  — E como foi seu primeiro dia sem os medicamentos? — perguntei curiosa. — Notou alguma diferença?  — Sim. Eu estou muito menos sonolento, me sinto mais disposto e com o apetite de alguém normal. Com os medicamentos, o meu sono era descontrolado e a minha fome era muito maior.  — Mas não sentiu nenhuma diferença psicológica? Nada negativo?  — Não. Sinceramente, me sinto muito melhor. — ele pareceu pensar. — É só o primeiro dia, então, não tem porquê me surpreender tanto.  — Sim. — eu assenti.  — O que acha de ir até a praia?  — Pra que?  — Só caminhar, sentir um pouco das ondas nos nossos pés... o que me diz?  — Ah, mas aqui está tão bom... — cocei a nuca. Ele ficou me encarando, de um jeito que eu podia jurar que estava me analisando.  — Das vezes em que você nadou sozinha, por que fez isso? Você disse que tinha medo do mar, mas parece que tem muita coragem de enfrentar esse medo quando não tem ninguém olhando.  — As pessoas colocam muitas expectativas em cima das superações do meu medo. Eu fico muito nervosa com alguém olhando. Além disso, eu só me sinto bem nadando pelada e não é legal que alguém me veja. — dei risada. Tantos anos precisando viver de fingimentos me tornaram uma pessoa ótima em inventar desculpas.  — Eu adoraria te ver nadar pelada... — me olhou de canto, com um meio sorriso.  — Isso seria... peculiar. — sorri.  — Cada curva do seu corpo me deixa maluco só de ficar olhando. — ele apoiou suas mãos na grade, de cada lado do meu corpo. Olhou profundamente em meus olhos, como se enxergasse além deles. Ninguém me olhava como Christopher. Nem mesmo o meu primeiro amor era tão intenso quanto ele. — Eu a... adoro você. — tropeçou nas palavras.  — Eu também te adoro. — envolvi meus braços em seus ombros e o beijei. Ele me segurou firme e nossos lábios dançaram em sintonia, deixando aquele beijo cada vez mais viciante.  E nós fizemos amor ali até que a madrugada chegasse, quieta e serena. Tudo o que ouvíamos era o barulho das ondas se chocando contra as rochas. Aquela era a canção perfeita para um momento como aquele.  Ele dormiu novamente comigo e pela manhã, quando levantei cedo para ir trabalhar, deixei um bilhete avisando que ele podia ficar o quanto quisesse, já que estaria de licença e provavelmente, um encontro com seu desagradável irmão em casa não seria muito bom para começar o dia.  O começo da manhã foi agitado. Muitos visitantes entravam e saíam naquele dia. O lugar estava realmente lotado! E para completar, o projeto de limpeza da costa começava hoje.  Eu pretendia ficar ali mesmo no oceanário, bem longe do oceano, então tratei de me ocupar muito pra que não fosse convidada.  Assim que terminei de trocar o filtro de alguns aquários e comecei a enxugar os meus cabelos, Albert apareceu, com um sorriso gentil em seu rosto, parecendo estar prestes a me contar algo muito bom.  — Bom dia, Dulce! — ele disse.  — Bom dia, senhor Carter.  — Por favor, sabe que pode me chamar de Albert. — eu sorri sem jeito. — Bem, eu estou aqui porque quero que você seja minha parceira numa coisa importante.  — No que?  — Eu estou indo agora mesmo até a costa de Seacity para ajudar com o início do projeto e decidi assumir a responsabilidade de verificar até onde os resíduos da praia foram no oceano. Quer vir comigo? A gente só vai dar uma olhada e voltar.  — Tudo bem, eu só vou precisar me trocar.  — Não, não precisa tirar a roupa de mergulho. Pode ser que a gente tenha que dar uma olhada no oceano, se você não tiver medo da profundidade, claro. — riu de leve.  — Eu posso tentar. — dei de ombros. Pelo menos, a roupa de mergulho protegeria a minha pele de possíveis mutações causadas pela água salgada.  Fomos juntos até o cais, onde havia uma lancha que seria usada por Albert. Nós dois entramos e ele começou a pilotar para longe da costa. Tão longe, que em um dado momento, eu m*l podia ver a cidade.  Durante todo o caminho, mesmo com seus óculos escuros, eu podia ver que ele me observava.  Quando parou a lancha, em águas bem profundas, ele se aproximou de mim e me analisou de cima a baixo.  — Eu posso te fazer uma pergunta?  — Pode. — respondi.  — O que você viu no Christopher?  — Que tipo de pergunta é essa? — eu franzi a testa.  — É que... não sei... basta olhar pro histórico do cara. Passou meses preso num hospital psiquiátrico e só conseguiu sair porque viram que com os medicamentos ele se controlaria. Mas ele ainda tem alucinações, ainda é meio louco...  — O Christopher não é louco! — eu me senti ofendida.  — Calma, não precisa se estressar. — ergueu as mãos. — Só me responde. O que ele tem de especial? — Christopher sabe como tratar as pessoas sem olhá-las com julgamento. Com todo o respeito, Albert, não faz ideia do que ele tem passado, não conversou com ele como eu e não pode afirmar algo do qual não tem conhecimento nenhum!  — É muito bonitinho a forma como você o defende. — riu. — Eu sei que eu sou um pouco mais velho que você, mas olha pra mim. Eu não estou acabado, estou? As mulheres jovens vivem dando em cima de mim.  — E onde que isso é da minha conta? — fui grossa. — Opa! Parece que alguém está irritadinha demais.  — Albert, nós viemos aqui a trabalho, correto? Vamos trabalhar. — respirei fundo.  — Na verdade... — ele chegou mais perto, me encurralando no canto do banco. — Ninguém precisava vir aqui olhar nada. Eu te chamei porque queria ficar sozinho com você. — ele pousou sua mão sobre a minha perna.  — Por favor, se afaste! Sabe que eu estou comprometida!  — Ele não precisa saber, Dulce. Além disso, eu posso te dar muitos benefícios. Me diga, gostaria de um aumento? Talvez uma promoção?  — O que?? — eu não podia acreditar que estava ouvindo isso. — O que está pensando que eu sou??  — É, talvez não seja assim tão fácil te fazer ceder. Também pensei que você não seria do tipo interesseira, mas eu não vou sair daqui sem antes conseguir o que eu quero! Por que acha que eu te trouxe a um lugar onde ninguém pode te ouvir? — sorriu de forma perversa.  — Você não vai querer tocar em mim. — o olhei com fúria.  — É o que eu mais quero fazer desde que eu te vi pela primeira vez. Eu não suporto mais ter que me segurar, Dulce. Você vai ser minha aqui e agora. Não há o que fazer. — e então, ele avançou, me beijando a força. Eu me debati contra ele, mas ele sabia exatamente como me segurar. — Não vai adiantar tentar lutar. Sabe quantas vezes eu já fiz isso? — gargalhou. — Não é a primeira e não será a última.  Nojo. Era a única coisa que eu conseguia sentir por alguém tão podre e que pior: se vangloriava por ser assim.  Eu o chutei e ele caiu no chão sentado, ainda rindo de mim. Fiquei de pé e o encarei. Ele levantou e me olhou como se me desafiasse.  — Escolheu a mulher e o lugar errado para estuprar, Albert. — fechei meus punhos e corri até ele, o jogando no mar junto comigo.  — Acha que me jogar no mar vai te ajudar em que? — riu. — É na água que eu vou te mostrar o que eu posso fazer com o seu corpinho.  — É mesmo? — desci o zíper da minha roupa de mergulho e ele me olhou com estranheza.  — Mudou de ideia? Vai querer? — sorriu de lado.  — Hum... vejamos... — fiquei completamente nua e o sorriso dele foi morrendo quando as escamas na minha pele começaram a surgir. — Eu não sou uma mulher qualquer, Albert. Eu sou perigosa, eu sou o monstro marinho que você nunca desejou conhecer.  — Que p/orra é essa? — ele ficou pálido e se afastou um pouco. — O que é você?  — Eu não sei... do que você prefere me chamar? Assassina do oceano? Encantadora de homens? Anjo da morte? — enquanto eu falava, minha cauda ia surgindo e Albert parecia ainda mais em pânico. — Você disse que o Christopher é louco, mas nada do que ele disse é mentira. Eu matei centenas de homens no mesmo dia. Matar você seria como matar um inseto.  — Não... não... não pode ser real... você não é real...  — Sabe, eu sempre tive muita dificuldade em matar alguém. Eu tenho um bom coração e imaginar que estou matando um inocente é doloroso. Mas você, Albert... — dei risada. — Você não merece viver. Anda por aí impune depois de ter molestado outras mulheres... — neguei com a cabeça. — A sua morte será saboreada com muito prazer.  — NÃO! — ele gritou quando nadei em sua direção, tentou fugir, mas o segurei, agarrando o seu pescoço.  — Se aproveitou da fragilidade feminina para suprir os seus desejos sujos, mas teve o azar de passar pelo meu caminho. Eu disse que você não iria querer tocar em mim. — eu apertava o seu pescoço, enquanto ele ficava vermelho. — O melhor de tudo é que a Água tratará de consumir sua alma e a fará sofrer pela eternidade! Hora de pagar por seus pecados!  Mergulhei para o fundo e o segurei enquanto o via afogar, me olhando com pavor, enquanto eu carregava um sorriso satisfeito nos lábios. A raiva que eu estava sentido me energizou para fazer aquela ser a morte mais bela que eu já havia causado.  E depois que o coração de Albert finalmente parou de bater, eu larguei o seu corpo, que foi levado para o fundo do oceano. Nadei de volta para a superfície e me dei conta de que não sabia o que fazer agora.  — Isso foi muito prazeroso de assistir. — a Água se manifestou. — A alma desse homem é sombria, posso sentir todas as suas perturbações. E não se preocupe, minha querida, essa alma terá o que merece.  — Obrigada. — suspirei.  — Não posso acreditar que ele tenha tentado machucá-la. Isso me deixa furiosa!  — Eu sei, mas ele já se foi. Eu só não sei como explicar o que aconteceu.  — Simples: ele tentou molesta-la, você lutou contra ele, ele caiu no mar e foi comido por tubarões. Chamarei meus meninos para dilacerarem o cadáver dele.  — Isso pode dar certo. — eu subi na lancha, vesti minha roupa de mergulho e liguei para a guarda costeira.  Fiz a melhor atuação que pude como uma mulher sozinha, desesperada e traumatizada. Posso dizer que pareci muito convincente. Agora era só esperar que ele viessem me buscar e que acreditassem em mim.
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