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GB Narrando - Eu sei que tem alguma coisa errada. Não sou burro. A Bianca mudou… e não foi pouco. Desde o dia do tiro, parece que eu tô vivendo com outra mulher dentro da mesma casa. Ela continua ali, cuidando de tudo, da casa, da Eloah, de mim até. Mas, ao mesmo tempo… não tá.Tá distante, fria, intocável. - E isso tá me deixando maluco. Eu tento não pressionar. Tento respeitar o tempo dela, o espaço, o silêncio… mas tem hora que não dá. Tem hora que eu só queria que ela olhasse pra mim como antes. Que me tocasse como antes, que fosse minha… como antes. Mas ela foge. - Sempre tem uma desculpa, sempre tem alguma coisa pra fazer, sempre tem a Eloah no meio. E eu vejo… eu sei que não é coincidência. Ela tá me evitando! - E o pior é não saber o porquê. Eu chego em casa mais cedo, tento ficar mais presente. Mas minha cabeça também não para. O Ferrugem ainda tá solto, respirando o mesmo ar que a gente. E isso, por si só, já é motivo suficiente pra eu não dormir direito. - Mas, pra ser sincero, o que mais tá tirando meu sono é ela. É deitar do lado dela e sentir como se tivesse um abismo entre a gente. É querer encostar… e não poder. É ver a mulher que eu amo se afastando, pouco a pouco, sem me dar uma explicação. E eu amo aquela mulher, de um jeito que eu nunca senti antes. - Não é só desejo, não é só costume… é coisa de alma. De querer proteger, cuidar, construir. Eu olho pra Bianca e vejo futuro, vejo família, vejo tudo. E, ultimamente… parece que só eu tô vendo. - Eu percebo o jeito que ela se olha no espelho. Percebo como ela evita certas roupas, como se esconde, como abaixa o olhar quando eu entro no quarto. Ela acha que eu não reparo… mas eu reparo em tudo. E isso me quebra. - Porque, na minha cabeça, ela continua sendo a mulher mais linda que eu já vi na vida. Cicatriz ou sem cicatriz… nada disso muda o que eu sinto. Nada! Mas ela não acredita e isso é o que mais dói. - Tem noite que eu chego tarde de propósito. Fico na rua, resolvendo coisa que nem precisava, só pra não encarar aquele clima pesado dentro e meio merda de casa. E quando eu chego… tá tudo em silêncio, ela já deitada, a Eloah no meio, e eu… do lado de fora de tudo aquilo. - Como se não fosse mais parte. Mas hoje não deu. Hoje eu não vou fingir que tá tudo bem. Hoje eu não vou aceitar mais esse silêncio. - Entrei no quarto, vi as duas deitadas. A Eloah já dormindo… e a Bianca com o olho aberto, perdida em algum pensamento, fechei a porta devagar falei. GB: A gente precisa conversar. - Disse indo até a mesma. - Bianca ficou em silêncio por alguns segundos. Eu vi ela respirando fundo, como se já soubesse que esse momento ia chegar. Ela sentou devagar na cama, sem olhar pra mim. Bianca: Não tem nada pra conversar, Gabriel! - Disse com a voz baixa. Eu ri sem humor, passando a mão no rosto. GB: Não tem? Então isso aqui é o quê, Bianca? Porque pra mim… tem muita coisa entalada. - Disse e ela ficou quieta. Aquilo me irritou! GB: Tu tá me evitando. Já tem dois meses que tu foge de mim. Não olha na minha cara, não fala direito comigo e eu tô tentando entender o porque… - Disse e dei um passo mais perto. - Os olhos dela encheram de água na hora, mas ela ainda evitava me olhar. Bianca: Não é nada disso… - Disse cabisbaixo. GB: Para de mentir pra mim. Eu te conheço! - disse mais firme, mas sem gritar. - O silêncio caiu de novo. Pesado. Até que ela finalmente me olhou. E eu preferia que não tivesse olhado. Porque o que tinha ali… era dor. Bianca: Você não vai entender. - Disse chorando. GB: Então me explica. Porque ficar assim, longe de você, tá me matando também.- Disse quase em tom de súplica, voz saiu mais baixa agora. - Ela engoliu seco. As lágrimas começaram a cair. Bianca: Eu não tô me afastando porque eu quero…A voz dela falhou. — Eu tô me afastando porque… eu não sou mais a mesma. - Disse enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto. Senti meu peito apertar! GB: Bianca… - Disse quebrado por dentro. Bianca: Não, deixa eu falar. - Ela limpou o rosto, tremendo. — Eu não sou mais aquela mulher, Gabriel. Eu não sou completa… eu não sou suficiente pra você. - Disse em prantos e na hora eu franzi a testa, sem entender. GB: Que papo é esse? - Ela soltou uma risada fraca, sem humor nenhum. Bianca: Você quer ter filhos, Gabriel… - Disse e aquilo me pegou de surpresa. GB: E o que isso tem a ver? - Disse e ela me olhou, destruída. Bianca: Eu talvez não possa te dar isso. - disse e o quarto ficou em silêncio, pesado, denso. - O tiro… - Disse e a voz dela saiu quebrada — acertou minhas trompas. Eu perdi uma… e a outra tá comprometida. Os médicos disseram que… as chances são mínimas. Ela abaixou a cabeça. Quase nenhuma. - Disse e eu travei, fiquei alguns segundos sem reação, tentando processar. - E então dei um passo até ela. GB: E tu achou que eu ia te deixar por causa disso? - minha voz saiu baixa, incrédula. Ela não respondeu, só chorava. - Balancei a cabeça, passando a mão no rosto, sem acreditar. GB: Tu ficou dois meses se afastando de mim… por causa disso? - Disse chateado. Bianca: Eu não queria te prender… GB: Me prender? Bianca, tu é maluca? - Soltei um riso desacreditado. - Ela me olhou, assustada. Eu me aproximei mais, segurando o rosto dela com cuidado. GB: Eu não tô contigo por filho, não. Eu tô contigo porque eu te amo.- As lágrimas dela caíam sem parar. Bianca: Mas e se você quiser isso um dia? GB : Então a gente dá um jeito. - Falei firme. — Existe um monte de forma. E, se não existir… a gente cria uma. - Ela respirou fundo, tentando se controlar. Bianca: Você fala isso agora. - Disse irredutível. GB: Eu falo isso porque eu sei o que eu sinto. - Encostei minha testa na dela. — E o que eu sinto por você não muda por causa de uma cicatriz… nem por causa de p***a nenhuma. - Ela fechou os olhos, desmoronando. Bianca: Eu tava com vergonha… - Sussurrou. - Aquilo me quebrou. GB: Nunca mais fala isso. Tu é a mulher mais f**a que eu conheço. - Disse baixo e Puxei ela pra mim. - E, pela primeira vez em dois meses… ela não se afastou.
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