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760 Palavras
Maria Clara Narrando Ouvi o barulho da moto quando ele saiu. Deixa ele viver, não vou mais esquentar a cabeça com nada. Na minha situação, com a vida que levo, eu devia era estar correndo de problemas e não arrumando mais um. Tentei assistir a um filme, mas não consegui prestar atenção em nada. O meu lado mais tóxico aparece quando estou com raiva: falo um monte de merda para machucar a pessoa, só para fazer com que ela sinta exatamente a mesma dor que eu estou sentindo. Mas nada do que disse era verdade, até porque eu jamais me envolveria com qualquer um a esse ponto. Desliguei a TV e subi as escadas em direção ao meu quarto, mas a vontade de entrar no quarto dele foi maior do que eu. Entrei e fui direto ao closet; tudo ali era extremamente organizado. As paletas de roupas revelavam que naquele quarto não havia vida, não havia cor. Tudo era branco, cinza e preto, apenas. Mas o seu cheiro permanecia impregnado no ambiente. Peguei uma das suas camisas, levei ao rosto e me afoguei naquela fragrância maravilhosa e única, que só ele tem. Deitei na sua cama e fiquei ali, perdida nos meus pensamentos e naquele aroma. Levantei-me antes que ele pudesse chegar de surpresa e me ver ali; seria horrível, uma morte lenta, hahaha. Fui para o meu quarto, ainda sentindo o seu perfume na pele, e isso me acalmou de uma forma inexplicável, como se ele estivesse ao meu lado. Que loucura! Decidi sair para dar uma volta; se eu ficar aqui, vou acabar enlouquecendo. Sei que existe um lugar daqui que tem uma vista panorâmica de todo o Rio. Pesquisei no Google e vi que fica depois do Mirante. Preciso pensar, organizar a mente e recalcular a rota. Não posso me permitir ter sentimentos por ele, não tem como. É impossível nós dois termos algo. Tenho apenas dezessete anos, sem experiência de vida, exceto pelos meus traumas. Ele, por outro lado, tem um mundo de vivências, já deve ter tido vários relacionamentos, além de ser o dono desse morro, um bandido procurado pela polícia. Vesti um conjunto da Adidas rosa, arrumei-me o melhor que pude, passei uma maquiagem para tentar apagar essa cara de choro e de sofrida. Depois da nossa briga, chorei horrores; nessa tentativa de querer magoá-lo falando aquelas coisas, acabei sendo a que ficou pior com tudo isso. Desci as escadas e segui em direção à vista mais linda da região. Não respondi nem às mensagens da Bianca; sei que ela está preocupada com a história do pagode, mas não estou com cabeça para isso. Estou chateada pra c*****o com a vida e preciso ficar na minha. Fui subindo pelas vielas; o vento estava gelado, mas gostoso, e a brisa batia no meu rosto. A ansiedade me atingia em cheio, mas estava doida para chegar lá e ver o que todos falavam. Já estava na metade do caminho quando percebi que estava sendo seguida. Fiquei um pouco desesperada, mesmo aqui sendo um lugar tranquilo, quase um quartel-general. Mas logo senti o seu cheiro de longe — aquele aroma que me deixa extasiada, me acalma e, ao mesmo tempo, me deixa nervosa. Fiz todo o percurso sem dar a entender que já sabia da sua presença. Quando cheguei ao ponto alto da vista, percebi que parte do caminho só dava para subir a pé. Ele ficou de longe, mas logo se aproximou com aquele olhar que me desmonta e desarma. Conversamos e, de repente, toda a raiva desapareceu. Com ele eu não consigo guardar mágoa, fiquei triste, mas já passou. Ele não é de falar muito, mas só pelo fato de ter se desculpado, fiquei imensamente feliz. Sei que isso deve ser algo extremamente difícil para ele, afinal, estamos falando do Terror. Não me gabo por isso, mas ele me mostrou que eu despertei um lado mais humano nele. Voltamos para casa, fiz algo para nós comermos e fui tomar banho. Fiquei surpresa ao saber que ele está de plantão; desde que cheguei aqui, nunca o vi em serviço, deve ser privilégio de ser o dono do morro. Ele bateu na porta do meu quarto e me convidou para ver um filme. Percebo que ele está tentando deixar o clima mais leve e agradável. Fomos para o seu quarto e ele foi se arrumar; parece que já não tem mais vergonha de mim. Tomou banho com a porta entreaberta, se secou e vestiu um short que deixava a sua i********e bem evidente. Que situação, meu Deus!
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