— Deus tenha misericórdia da minha alma… ela clama pelo Seu nome — murmurou Aisha, ainda de joelhos.
A pequena capela do convento era um lugar onde ela jamais imaginou pisar. O silêncio parecia pesado demais. Tudo ali transmitia uma paz limpa, quase sagrada, o oposto completo da vida que ela tinha deixado para trás. Pedro tinha organizado tudo. Convencê-lo não foi fácil. O homem resistiu até o último momento, como se estivesse assinando a própria sentença de morte ao ajudá-la. Ainda assim, no fim, cedeu.
Agora o plano finalmente começava.
Enquanto mantinha a cabeça baixa, os dedos entrelaçados como se estivesse rezando com devoção, Aisha ouviu duas irmãs cochichando atrás dela.
— A pobre menina… — disse uma delas, num sussurro carregado de pena. — Quando chegou aqui, há uma semana, estava em um estado terrível. Os joelhos estavam em carne viva.
A outra soltou um suspiro longo.
— E quem teria coragem de machucar uma menina cega?
Aisha apertou os lábios.
Esse papel despertava compaixão instantânea. Qualquer pessoa que olhasse para ela via apenas fragilidade. Os óculos escuros ajudavam a sustentar a mentira.
Ela era Sofia agora.
— Sofia, está na hora de irmos.
Aisha demorou um segundo para reagir. O nome ainda soava estranho, como se pertencesse a outra pessoa.
— Sim, irmã.
A missionária tocou seu braço com delicadeza e começou a guiá-la para fora da capela. Aisha caminhava devagar, com passos calculados. Pela fresta quase invisível entre o rosto e os óculos escuros, observava tudo.
O convento era antigo, feito de tijolos vermelhos escurecidos pelo tempo. A arquitetura lembrava construções europeias antigas, com arcos altos e janelas estreitas. Do lado de fora, uma camada fina de neve cobria o chão. Alguns homens trabalhavam limpando o caminho com pás, empurrando a neve para os lados.
O frio mordia o ar.
Ela havia deixado todas as suas roupas para trás. Ali dentro não podia existir nenhum sinal da vida que teve. Nenhuma peça cara. Nenhum detalhe que revelasse que vinha de uma família rica.
Agora era apenas uma órfã.
Uma garota que perdeu a mãe para uma doença e chegou ao convento sem nada.
— Sofia, cuidado. Há pedras no caminho.
— Obrigada, irmã.
Ela manteve o rosto sereno. Fingir cegueira exigia controle absoluto. Cada passo precisava parecer incerto, cada movimento precisava carregar a hesitação de alguém que não enxerga.
Quando entrou no pequeno quarto que agora ocupava, sentou na cama estreita.
Já fazia uma semana.
Uma semana esperando Olga aparecer.
A mulher ainda não tinha vindo.
O medo começava a crescer dentro dela como uma sombra lenta. Aisha sabia que seu pai não desistiria de procurá-la. O homem era paciente. Frio. Meticuloso.
Se ele descobrisse onde ela estava antes de Olga aparecer…
Tudo terminaria ali.
Ainda assim, Pedro conseguiu tirá-la do país com uma facilidade que até agora a deixava desconfiada. Fronteiras, documentos, transporte. Tudo aconteceu rápido demais.
Ela não fazia ideia de como ele tinha conseguido.
Pedro definitivamente escondia coisas.
Aisha ajeitou o vestido preto que cobria todo o seu corpo. Por cima, usava um casaco antigo que uma das freiras tinha lhe dado. O tecido era pesado e áspero, mas ajudava a manter o frio longe.
Mesmo assim, o frio parecia atravessar tudo.
Talvez fosse apenas ansiedade.
A sensação constante de que algo estava prestes a explodir.
Quando chegou a hora do jantar, uma das irmãs veio buscá-la. Aisha caminhou lentamente até o refeitório e sentou na pequena mesa de madeira.
O convento era pequeno. Apenas quatro freiras viviam ali.
— Deus, obrigada por essa refeição — disse a irmã mais velha.
Todas fizeram o sinal da cruz.
Aisha pegou a vasilha com cuidado.
— Sofia, atenção, é sopa — avisou uma das freiras.
— Obrigada.
Ela sorriu de leve e levou a colher até a boca, fingindo procurar a tigela com cautela. Tomou a primeira colherada.
A sopa estava quente e surpreendentemente saborosa.
Pegou um pedaço de pão e mergulhou no caldo.
A irmã mais velha observava Aisha com um olhar cheio de ternura.
— Sofia, teremos uma visita esta noite.
O coração de Aisha bateu mais forte.
Finalmente.
Ela manteve a voz calma.
— Alguém importante, irmã?
— Sim. Uma mulher muito generosa. Sempre vem aqui fazer doações e rezar conosco. Ela está procurando a sobrinha desaparecida.
Aisha continuou comendo, como se a informação fosse apenas curiosa.
— E você, Sofia… não se lembra de nada da sua infância?
Aisha abaixou a cabeça.
— Não, irmã. Eu… vivia vagando com minha mãe. Ela morreu há alguns meses. Antes de partir, pediu que eu viesse para este convento.
As freiras trocaram olhares silenciosos.
Compaixão pura.
— Tão jovem… e já passou por tanta coisa.
Depois do jantar, Aisha foi levada de volta ao quarto.
Assim que a porta se fechou, o silêncio caiu pesado.
O coração dela parecia bater duas vezes mais rápido.
Deitou na cama estreita e encarou o teto escuro. A respiração vinha irregular. Ela tentou controlar o ritmo, mas a ansiedade crescia dentro do peito como um animal preso.
Pegou o pequeno celular escondido entre as roupas e enviou uma mensagem para Pedro.
Tudo estava acontecendo exatamente como ele havia planejado.
A resposta chegou poucos segundos depois.
“Aisha, tome cuidado. De agora em diante, não confie em ninguém. Sua vida depende disso.”
Ela soltou uma risada baixa.
Não confiava nele.
Não confiava em ninguém.
Confiar demais era a forma mais rápida de morrer.
Duas batidas suaves ecoaram na porta.
Aisha deslizou o celular para dentro do casaco.
— Sim?
A irmã entrou devagar.
Aisha colocou os óculos escuros imediatamente.
— Sofia, desculpe incomodar tão tarde. Lembra que falei da visita? Quero apresentá-la a Olga. Venha comigo.
Aisha levantou devagar, deixando o corpo parecer hesitante.
— Quer ajuda? — perguntou a irmã. — Você ainda não está acostumada a andar por aqui, e não temos uma bengala para você.
— Está tudo bem, irmã. Só de terem me acolhido já é mais do que eu poderia pedir.
Caminharam até outra ala do convento.
Já era noite.
Ao atravessar o corredor, Aisha percebeu algo pela fresta dos óculos.
Um carro estacionado do lado de fora.
Um carro caro.
Homens estavam próximos dele.
E estavam armados.
Misericórdia…
Mesmo assim, o rosto dela continuou calmo.
Quando entraram na pequena sala, uma mulher de cabelos escuros virou-se ao ouvir os passos. Alguns fios brancos denunciavam o tempo.
Assim que viu Aisha, os olhos dela se arregalaram.
— Sofia…?
A voz saiu quase quebrada.
— É você?
Aisha permaneceu em silêncio por um segundo. O ar da sala parecia pesado.
Então a mulher começou a chorar.
— Olá, senhora… — disse Aisha com cuidado. — Me perdoe, mas eu não lembro do passado. Nós nos conhecemos?
Olga ergueu uma sobrancelha, como se algo não estivesse encaixando completamente.
Mas a tristeza no olhar dela era forte demais.
— Sofia… me perdoe por ter deixado Irina te levar. Eu não consegui impedir.
O peito de Aisha apertou.
Havia muito mais naquela história.
Muito mais do que ela sabia.
— Posso te tocar? — perguntou Olga.
Aisha assentiu.
A mulher se aproximou devagar, como se tivesse medo de quebrá-la, e passou os dedos pelos cabelos prateados dela.
— Você está tão linda… — murmurou Olga. — Posso tirar seus óculos?
Por dentro, Aisha congelou.
Mas seu rosto continuou tranquilo.
— Pode.
Olga retirou os óculos com cuidado.
Os olhos da mulher percorreram o rosto dela com atenção, como se estivesse procurando algo escondido ali.
Aisha manteve o olhar imóvel.
Ela tinha treinado para aquilo.
— Continua igualzinha… — disse Olga. — Só seus olhos mudaram um pouco. Isso é normal, por causa da sua condição. Me perdoa, Sofia… tudo isso é culpa minha.
Aisha não entendia por que aquela mulher carregava tanta culpa.
Mas manteve o papel.
— Está tudo bem, senhora.
As freiras observavam a cena com os olhos marejados. Pareciam acreditar que estavam presenciando algo divino.
Pela primeira vez, uma pontada de culpa atravessou Aisha.
— Sofia — disse Olga, segurando as mãos dela. — Quero que venha morar comigo. Eu sei que tudo deve estar confuso para você, mas prometo que nunca mais deixarei nada de m*l acontecer.
Um frio percorreu a espinha de Aisha.
Havia algo errado naquelas palavras.
Algo que ela ainda não conseguia identificar.
— Sim, senhora.
— Me chame de titia — disse Olga, com um sorriso trêmulo. — Como você fazia quando era pequena.
Aisha inclinou levemente a cabeça.
— Titia.
Os olhos de Olga se encheram de lágrimas novamente.
Ela parecia realmente amar a verdadeira Sofia.
Uma das irmãs falou com suavidade.
— Já deixamos tudo preparado, Sofia. Você pode ir com a senhora Olga. Ela vai cuidar de você agora.
— Quando me ligaram dizendo que minha sobrinha estava aqui — disse Olga — eu quase não acreditei. Achei que Lira nunca deixaria isso acontecer.
Aisha respirou fundo antes de falar.
— Titia… mamãe morreu. Uma doença a levou. O último pedido dela foi que eu viesse para este convento.
Olga segurou o rosto dela com cuidado.
— Está tudo no passado agora. Vamos começar uma nova vida.
Aisha engoliu em seco.
Ela sabia muito bem que aquela nova vida não seria simples.
E que, a partir daquele momento, cada passo que desse seria um risco calculado.