Miguel Eu tô no quarto do hotel em São Paulo, porta trancada, luz apagada, deitado na cama com a roupa do jantar ainda no corpo. O relógio marca 1:47 da manhã. O ar condicionado tá gelado, mas eu tô suando. Suando frio. O coração batendo tão forte que parece que vai explodir no peito. Eu fecho os olhos e tudo volta. Tudo. O jantar começou normal. Restaurante discreto no Jardins, mesa no canto, luz baixa, vinho tinto caro que o Carlos pediu. Ele falou de tática, de posicionamento. Eu escutava, anotava mentalmente, sentia orgulho. Ele elogiava, sorria, batia no meu ombro. Normal. Técnico motivando jogador novo. Eu repetia isso na cabeça como mantra. Mas aí mudou. Ele mudou. Quando o garçom levou os pratos, ele pediu mais uma garrafa. Eu disse que tava bem, que amanhã tinha treino cedo.

