Lucas parou o carro em frente ao enorme prédio onde os Departamentos Federais ficavam. Ele preferia poder ir até a casa de Kate, mas não conseguia se lembrar onde era, mesmo que tenha percorrido esse caminho tantas vezes.
A memória de Lucas ainda estava muito confusa. Muitos detalhes da sua vida ainda estavam embaralhados e outros eram incertos. Por exemplo, o que ele fazia para se manter? Que tipo de trabalho? O que tinha estudado? Onde realmente morava?
Aquelas indagações eram todas confusas demais e muito embaralhadas na sua mente, ainda perdidas e provavelmente ocultas em algum lugar do seu cérebro, que ele esperava poder recuperar em breve. Certamente Kate iria ajudá-lo com todas aquelas dúvidas. Assim como daria forças a ele e prepararia o terreno para o reencontro com sua mãe. Por enquanto, ele precisava segurar sua noiva nos braços mais uma vez.
Depois de respirar fundo e passar a mão no cabelo pela milésima vez, ele entrou pelas amplas portas da frente. Pelo horário, muitos agentes e funcionários estavam deixando o prédio com o fim do turno, enquanto outros chegavam.
Uma dessas agentes em especial, tinha acabado de finalizar uma ligação com seu chefe no FBI, enquanto passava pelo saguão do prédio e, a visão que teve, a paralisou.
Lucas tinha se inclinado em um balcão redondo e enorme, para pedir informações sobre uma agente chamada Kate, cujo a recepcionista se recusava a dar qualquer resposta a menos que ele se identificasse. Obviamente, Lucas não tinha documentos, então estava em uma situação complicada, até ser visto de longe por Jude.
Primeiro ela não acreditou no que seus olhos estavam vendo. De longe, começou a pensar que estava delirando e provavelmente era apenas alguém muito parecido. Então ela começou a dar alguns passos na direção daquele torso forte e alto que ela jurava conhecer.
— Deus do céu.
Ela chegou perto o bastante e deixou seu celular escorregar da sua mão, com lágrimas vindo aos olhos. No mesmo instante, Lucas se virou e avistou a mulher o encarando. Ele gentilmente se abaixou e pegou o telefone, para entregar a ela.
— Você deixou cair.
Disse, inocentemente, estendendo a mão pra ela com o aparelho celular.
Jude começou a tremer e perdeu completamente os sentidos.
Aquele homem devia estar morto. Foi declarado como morto por diversos especialistas que juravam não ter chance de alguém sobreviver a uma queda daquelas. Mas... ali estava ele. Ou ela tinha enlouquecido?
Lucas demorou um pouco pra perceber e, quando a mulher não estendeu a mão pra pegar o celular, ele franziu a testa e deu um pequeno sorriso.
— Ei, você estava na TV outro dia, ao lado da Kate, não é? Qual seu nome mesmo?
A voz era igual. O mesmo som forte, imponente e ao mesmo tempo doce e gentil.
Ainda em choque, ela se aproximou e conseguiu formular uma pergunta.
— Você não se lembra de mim?
— Não. Deveria?
— Mas lembra da Kate?
— Então, é complicado explicar, mas parece que estive muito perto da morte e por causa disso não consigo lembrar de nada. Tenho poucas lembranças e quando vi a Kate ontem na TV, algumas coisas clarearam na minha cabeça.
Jude colocou a mão nos lábios e o abraçou, de modo surpreendente e com mais força do que gostaria.
Lucas franziu a testa, confuso, mas retribuiu.
— Meu Deus. Não acredito que esteja vivo. A Kate sofreu tanto.
— Vocês são próximas?
Jude não imaginava que poderia criar um laço de amizade tão forte com alguém, em tão pouco tempo. Kate se tornou uma amiga inesperada. Mesmo com ela tentando se manter afastada de qualquer vínculo profissional e emocional, aqueles últimos meses tinham testado completamente suas emoções.
E encontrar Lucas ali, naquele saguão, foi mais uma dessas provações. Foram semanas de convivência, de uma amizade sincera e genuína desenvolvida, ainda que de leve. Ela tinha sofrido com sua suposta partida. E doeu mais do que poderia imaginar, ver o sofrimento de Kate perante a perda dos dois homens da sua vida. E naquele instante, ela estava feliz por poder devolver a sua amiga um pouco do brilho perdido nas últimas semanas.
Jude o soltou e enxugou o rosto, respirando fundo. Precisava se recompor. Muita coisa dependia dela.
— Vamos subir. Eu vou te atualizar de algumas coisas até a chegada da Kate.
Lucas acompanhou Jude até o departamento da Narcóticos. Obviamente que todos que conheciam o noivo de Kate supostamente morto no acidente fatal ficaram em choque ao encontrá-lo perambulando pelo prédio do Departamento de Segurança Federal, mais vivo do que nunca.
No entanto, maior surpresa foi para o delegado, que avistou Lucas saindo do elevador quando retornava pra sua sala com uma xícara de café. Por muito pouco toda aquela bebida quente não derramou no seu colo.
— Jude? Esse é o...
— Sim, ele mesmo.
— Meu Deus, achavamos que estava morto, rapaz.
O delegado o cumprimentou com um firme aperto de mão, só para garantir que não tinham batizado seu café sem querer e não estava delirando ou vendo fantasmas.
— É, acho que escutarei muito isso por aqui.
— Bom que esteja preparado. A Kate já sabe?
— Ainda não. Vou chamá-la até aqui.
— Ela não veio trabalhar hoje?
Lucas questionou, fazendo com que Bryan e Jude se olhassem.
Como explicar pra ele que sua noiva estava casada com outra pessoa e, tecnicamente, estavam em lua de mel antes dele entrar em prisão domiciliar?
Obviamente que não era responsabilidade deles. Era algo que Kate teria de fazer e explicar da forma dela, como as coisas chegaram naquele ponto, pra que não parecesse que ela tinha o esquecido rápido demais. Apesar de, por vezes, ela se condenar por tentar seguir a vida com outra pessoa.
E nem mesmo passou pela cabeça de Jude que ele poderia ter visto a entrevista completa, onde uma das perguntas era justamente referente ao seu casamento com Andrew e sobre os sentimentos ao supostamente falecido noivo.
Uma coisa era certa, nenhum dos dois estava a fim de estragar o reencontro que ainda nem tinha acontecido.
— Bom, acontece que ela precisava de férias depois de tudo o que aconteceu. Foi terrível e desgastante demais pra Kate. E a entrevista, eu diria que foi a cereja do bolo.
Respondeu Jude, sem entrar em maiores detalhes.
— Ela está em Miami. Mas assim que souber de sua chegada...
— Não vai contar isso por telefone, delegado.
Repreendeu Jude, temendo que o chefe de Kate contasse tudo antes da hora. Ela precisava preparar o terreno antes. Uma notícia como aquela abalaria completamente as estruturas de Kate e de sua nova vida.
— Por que não?
— Pretende matar a minha amiga do coração? Melhor que seja pessoalmente. Ela vai precisar de ajuda pra encarar o choque.
Bryan sabia que, mais uma vez, Jude estava certa sobre um assunto. Ele não precisou ponderar muito. Na verdade, preferia não ter que lidar com aquela merda toda.
— Você está certa, agente. Quer saber, vou deixar que cuide disso, vai tomar as melhores decisões do que eu.
— Escolha sabia, delegado.
Ele entrou na sua sala, deixando os dois a sós com os outros agentes, que tentavam trabalhar enquanto observavam a conversa do homem renascido com a agente do FBI.
— E agora? O que fazemos?
Ele indagou, cruzando os braços. Jude o empurrou de leve até uma cadeira e o pôs lá.
— Bom, você fica sentado aí. Eu vou convencer a Kate a retornar.
— Não é melhor deixar pra amanhã?
Ela deu uma risada curta e sagaz, balançando a cabeça.
— Está louco? Se ela souber que não liguei pra ela assim que você apareceu aqui, estarei assinando meu atestado de óbito. Você não faz ideia do quanto ela sofreu e como foi difícil terminar essa missão, principalmente da forma como foi.
— Como assim? Que forma?
Jude sentia que estava entrando em uma zona muito perigosa e mais uma vez, precisava se desviar.
Tinha tanta coisa pra Kate explicar que duvidava que uma noite fosse capaz. No entanto, ela não queria esperar o dia amanhecer. Pela manhã o movimento no Departamento seria ainda maior e isso poderia dificultar o encontro entre eles ou pior, alguém contar tudo para Lucas, de modo que Kate não conseguiria explicar do seu modo, do seu jeito o que realmente aconteceu e como aconteceu. Além disso, Kate iria preferir saber o mais rápido possível, não importava o horário.
— Olha, esse assunto é delicado. Eu não sei até que ponto você se lembra das coisas e...
— Eu lembro de estarmos noivos e dela entrar pra uma missão perigosa, que a envolveria com uma Máfia. Mas os detalhes estão misturados na minha cabeça.
Jude se agachou perante ele e segurou as mãos de Lucas. Era a primeira vez que tinha aquele tipo de contato físico com ele e era bom, o sangue percorria suas veias com rapidez e cada vez mais ela estava convencida de que aquilo não era um sonho prestes a virar um verdadeiro pesadelo. Ou pelo menos era o que ela esperava.
— Eu acho que você e Kate terão tempo pra essa conversa existir com mais calma. Não é justo que eu te atropele com informações sobre ela e sobre os sentimentos dela, entende?
— Sim, eu entendo, mas...
— Seja paciente, Lucas. Daqui a pouco você vai saber de tudo. Aliás, antes disso, eu quero que você me conte como veio parar aqui, depois deu fazer essa ligação.
Ela deu alguns passos apressados para longe dele, que ficou inquieto na mesa, porém permaneceu sentado.
Depois de alguns toques, Kate finalmente atendeu.
— O-oi Jude, está tudo bem?
— Oi Kate, então, eu preciso de um favor seu.
Jude até tentou ensaiar uma fala melhor, mas o fato é que ela não sabia qual a melhor forma de convencer Kate de retornar da sua lua de mel precocemente sem dizer a verdade. Então ela precisou confiar que Kate a escutaria e atenderia seu pedido, sem maiores explicações.
— É... claro. O que seria?
— Volta pra cá, agora.
— O quê? Por que?
— Confia em mim?
— Claro que sim.
Kate estava achando aquela ideia muito absurda. Mas a necessidade da urgência na voz de Jude denunciava a seriedade. Além do mais, a agente do FBI jamais ligaria pra ela pra fazer um pedido daquele se não fosse algo extremamente importante e que realmente exigia a presença dela.
— Então faz o que estou pedindo e volta pra cá, no primeiro voo que você puder. Vai me agradecer por isso.
— Está me assustando, Jude.
Confessou, insatisfeita e temerosa por não saber o motivo daquele pedido tão repentino.
— Eu sei e peço desculpas por isso, mas não tem outro jeito. Eu te espero aqui no departamento. Até daqui a pouco.