Episódio 2

1118 Palavras
Tenho corrido todos esses anos. Ele estava procurando por mim? Dificilmente. Mas senti a necessidade de mudar constantemente de cidade, de emprego, de apartamento... E agora Pedro apenas se sentou à minha frente e olhou diretamente para mim. Sem palavras, emoções. Ele apenas assistiu, e eu estava morrendo de sensação de queimação nos pulmões e tontura. — O que você está sussurrando aí, Lisa? Mamãe inclinou-se para mim, mas, sem receber resposta, acenou com a mão. Ela aproximou-se mais perto do meu ex-reitor, abraçou o homem pela cintura, beijou-o na bochecha e sussurrou carinhosamente. — Quero te apresentar querida, este é o seu padrasto. Três anos e meio se passaram e nem um fio de cabelo grisalho apareceu na sua cabeça. Apenas o olhar ficou mais duro, o olhar assustador. O meu coração afundou dolorosamente e eu o cobri com a palma da mão, captando os batimentos cardíacos loucos. — Padrasto… Senti o gosto da palavra como tabaco amargo, mas ainda não percebi a realidade. Isto é um sonho! Eu estou dormindo! Sussurrei para mim mesma de novo, de novo e de novo, e ele ficou em silêncio apenas me observando. Parecia que eu podia sentir o cheiro do perfume de Pedro e o cheiro da sua pele: mentolada, masculina, doce e ácida. Ele sempre foi uma lufada de ar fresco para mim. — Sim. A minha mãe assentiu com orgulho, e então ergueu a mão e enterrou os dedos nos seus cabelos grossos. — Você será minha dama de honra, não é? Involuntariamente, um véu de lágrimas apareceu diante dos meus olhos. Lembrei-me de como sentei no colo do homem enquanto ele separava documentos. A sua mão apertando o meu peito como se fosse um m*aldito analgésico. Lentamente, obviamente inconscientemente, ele sempre mudava para o mam*ilo, torcendo-o avidamente e intensamente entre os dedos. Em cinco minutos eu estava completamente molhada. Ele sempre sabia exatamente quando largar os documentos. Quando exatamente ele precisava me jogar na mesa e me fo*der até eu ter tremores e convulsões. Para que eu pudesse sorrir idi*otamente por mais três dias, como uma louca da cidade. Eu me pergunto. A pergunta afiada perfurou a minha mente. Ele fez isso com todo mundo? — E por que você está em silêncio? A minha mãe animou-se, suspirou profundamente e virou-se para Pedro, sussurrando nada baixinho: ela sente falta do papai, você entende. E então ouvi a voz dele pela primeira vez em muitos anos. Não num vídeo, nem numa mensagem, com mensagens de voz... Ao vivo. Rouco, baixo, confiantemente forte, poderoso e atrevido. — Entendo. E isso me atingiu. A compreensão da coisa terrível explodiu por dentro. Apesar do tempo, eu ainda o odiava tanto quanto o amava. E, ah, que ironia, a minha armadilha fechou-se de repente! — Se puderem me dar licença. Eu fui para o bar, corri para lá. Assustada, eu agarrei as bordas de madeira com as mãos e tentei freneticamente recuperar o fôlego. Não deu em nada, o meu coração ainda batia no peito. — Garota. A palma da mão caiu suavemente sobre o meu ombro, e eu estremeci, assustada a ponto de sentir cólicas no estômago. Eu me virei nervosamente e o garçon preocupado saltou para o lado com as mãos levantadas. — Desculpe incomodá-la. Você está bem? — Se eu me sinto bem? Fiquei com a língua presa, mas ainda ri alto, como uma louca. Jogando a cabeça para trás e colocando a mão no coração. — Eu vi um fantasma! Um m*aldito cadáver! O olhar do garçon mudou. Ele não se preocupava mais com a minha saúde, pelo contrário. O homem tinha certeza: eu estava absolutamente louca. — Sabe. Ele insinuou suavemente, olhando em volta de forma estranha. — Temos um posto de primeiros socorros maravilhoso no hotel... ‍Olhando para o crachá, embaçado pelas lágrimas, tive dificuldade em ler o nome: ‌— Stephen, já estou aí, não se preocupe. Eu apontei o dedo para a garrafa de uísque e sorri. Aparentemente, isso alarmou ainda mais o homem, pois ele recuou. — É exatamente isso que vai me ajudar. Surpreendentemente, eu não gostava de bebida. Eu simplesmente não gostava de uísque. Eu não entendia as pessoas que se viciavam deliberadamente nessa garrafa. Para mim, essa acabou sendo a melhor maneira de esquecer. Recorria a ela ocasionalmente depois de conversas com a minha mãe, onde ela exagerava nos detalhes da sua vida privada e... E hoje, depois de ver Pedro. Suprimi a memória dele, dos melhores dias do nosso relacionamento de um ano. E agora a caixa de Pandora foi rasgada por uma lixa áspera, causando uma dor interna insuportável. Senti o meu coração sendo despedaçado. Eu senti como se estivesse morrendo e enlouquecendo. Ele foi o meu primeiro. E meu último. — Garota. Chamou o barman. — Você tem certeza de que está pronta para beber uma garrafa de uísque sozinha? Balançando uma garrafa meio-vazia na frente do rosto dele, ela ergueu uma sobrancelha interrogativamente: — Parece que não para você? Revirando os olhos, ele suspirou pesadamente e se aproximou: Escute, minha tarefa é vender mais bebida e de vez em quando misturar um pouco de água com muito gelo. Isso é exatamente o que eu faria com você se você não comprasse uma garrafa imediatamente. Mas não é por m*al, não. Quer saber por quê? Ele fez uma pausa, agravando a situação. E me virei para o lado, demonstrando de todas as formas possíveis que hoje não tive tempo de conversar com estranhos. — Você parece tão frágil quanto uma folha de coqueiro quebrada, como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Uma menina pequena e magra pode beber tanto álcool por causa da solidão, mas você não gostará das consequências. Seria melhor você recorrer a sua família em busca de apoio moral. Um barman chamado Steven queria me apoiar. Talvez pela primeira vez na sua carreira. Mas, ironicamente, isso só tornou tudo mais doloroso. Olhando distraidamente para a minha frente, vi no reflexo da vitrine de vidro meu rosto branco e inchado com hematomas sob os olhos. — A quem eu posso pedir ajuda? Perguntei-me sarcasticamente. Os meus avós morreram antes de eu entrar na universidade, e tudo que posso ouvir da minha mãe é quantos gramas de enchimento ela injetou em si mesma e onde. Com a mão trêmula, enchi novamente o copo e saudei a garota meio-morta do outro lado. Ela parecia louca. Era eu. Eu era essa garota louca e morta no espelho. Um ano de relacionamento com Pedro apagou completamente a minha vida “antes” dele. Ela não estava mais lá. Era apenas pó. Vivi os nossos encontros. Eu sempre contei o tempo para eles. Os minutos pareciam horas...
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