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1164 Palavras
Helena Narrando Acordar cedo nunca foi um problema para mim. Acho que depois de tantos anos vivendo na Rocinha, meu corpo aprendeu sozinho que o morro desperta antes do resto da cidade. Ainda estava escuro quando abri os olhos. O relógio marcava pouco depois das seis da manhã. Levantei devagar, prendi o cabelo em um coque malfeito e fui direto para a cozinha preparar um café. O cheiro do pó sendo passado tomou conta da casa em poucos minutos. Peguei uma caneca, cortei um pedaço de pão, passei manteiga e sentei perto da janela. Dali eu conseguia ver a comunidade começando a acordar. O mototáxi fazendo as primeiras corridas do dia, uma senhora varrendo a calçada enquanto conversava com a vizinha do outro lado da rua, o rapaz da padaria descarregando os pães e algumas crianças, ainda sonolentas, seguindo de uniforme para a escola, arrastando as mochilas maiores do que elas mesmas. Era engraçado como aquele movimento fazia parte da minha vida. Muita gente olhava para a Rocinha e só enxergava o que passava na televisão. Eu enxergava outra coisa. Via dona Maria regando as plantas todas as manhãs, seu Antônio abrindo o bar às sete em ponto, o cheiro de café misturado com pão quente, gente correndo para trabalhar e mães brigando porque os filhos ainda não tinham escovado os dentes. Era o meu lugar. Terminei o café, tomei meu banho e me rrumei. Peguei minha bolsa e desci para abrir a loja. O caminho era curto, mas suficiente para encontrar meia comunidade. — Bom dia, Lena! — Bom dia, Seu Jorge. — As roupas novas chegaram? — Chegaram ontem. Depois passa lá. Continuei caminhando, cumprimentando praticamente todo mundo. Se tinha uma coisa que eu gostava era de conhecer meus clientes pelo nome. Nunca fui o tipo de pessoa que vendia roupa só por vender. Eu gostava de saber para onde aquela mulher ia, se era aniversário, casamento, um encontro ou simplesmente porque queria se sentir bonita. Cheguei à loja, levantei a porta de aço e entrei. O cheiro de roupa nova misturado com amaciante era uma das minhas partes favoritas. Liguei as luzes, organizei algumas peças que tinham ficado fora do lugar no dia anterior e coloquei um manequim novo na vitrine com um conjunto que tinha chegado da nova coleção dessa semana. Não demorou nem quinze minutos para a primeira cliente aparecer. — Lena, pelo amor de Deus... me salva. Sorri antes mesmo de responder. — O que foi dessa vez, Jéssica? Ela entrou já rindo. — Meu marido inventou um churrasco na casa da sogra e eu não tenho uma roupa. Cruzei os braços. — Tu tem um guarda-roupa inteiro. — Mas nenhuma serve. Balancei a cabeça, rindo. — Mulher é um bicho complicado mesmo. Passei quase meia hora ajudando ela a escolher entre vestidos, shorts e conjuntos. No fim, saiu levando bem mais do que tinha planejado. — Tu faz milagre. — Eu só vendo roupa. Quem faz milagre é Deus. Ela riu e foi embora. O restante da manhã passou movimentado. Entrava uma cliente, saía outra. Uma queria opinião sobre uma calça, outra queria presente para a filha, outra só entrou para conversar um pouco antes de seguir para o trabalho. Era disso que eu gostava, minha loja nunca foi só uma loja, era um ponto de encontro. Quase perto do horário do almoço, ouvi uma voz conhecida antes mesmo de levantar a cabeça. — Bom dia pra mulher mais difícil da Rocinha. Suspirei. — Ainda é cedo pra tu me irritar, Grego. Levantei os olhos e encontrei aquele sorriso convencido de sempre. — Irritar? Eu vim prestigiar teu comércio. — Prestigiar olhando e nunca comprando nada? Ele levou a mão ao peito. — Que acusação grave. Continuei organizando uma arara de vestidos. — Vai comprar alguma coisa ou só gastar meu tempo? Ele caminhou pela loja fingindo analisar as roupas. Pegou uma camisa social branca. — Gostei dessa. Olhei rapidamente. — Não combina contigo. Ele arqueou a sobrancelha. — Por quê? — Roupa de homem sério. Ouvi ele soltar uma risada. — Tu nunca perde a oportunidade. — Tu também não. Ele continuou andando até pegar uma jaqueta. — E essa? — Muito cara. — Eu tenho dinheiro. — Não falei do preço. Ele colocou a mão na cintura e começou a rir. — Tu acordou inspirada hoje. — Tu facilita. Antes que ele pudesse responder, outra voz entrou na loja. — Tá apanhando de novo? Levantei os olhos. Cairo. Sorri de leve. — Bom dia. — Bom dia, Lena. Grego apontou para mim. — Ela me humilha de graça. Cairo deu de ombros. — Tu procura. Não consegui segurar a risada. — Tá vendo? Até teu chefe concorda comigo. — Meu chefe nada. Meu irmão. Cairo pegou uma garrafa de água que sempre deixava na geladeira pequena da loja. Desde que comprei aquele refrigerador, ele vivia entrando ali para beber água ou tomar um café quando passava pela região. — Posso? — Quando foi que tu pediu permissão alguma vez? Ele sorriu discretamente. — Justo. Enquanto ele bebia água, Grego continuava andando pela loja como se realmente tivesse intenção de comprar alguma coisa. Parou em frente ao espelho. — Fala a verdade... eu fico bonito de qualquer jeito. Cruzei os braços. — A autoestima do homem é uma coisa impressionante. Cairo soltou uma risada baixa. — Isso aí ninguém tira dele. — Inveja. Olhei para Grego. — Não, obrigada. Uma senhora entrou na loja naquele instante. — Bom dia, Lena. — Bom dia, dona Cida. Ela olhou para os dois homens e balançou a cabeça. — Esses dois vivem aqui? Respondi antes que qualquer um deles abrisse a boca. — Infelizmente. Grego levou a mão ao peito de novo. — Eu sou muito maltratado. Dona Cida começou a rir. — Tu merece. Enquanto eu mostrava algumas blusas para ela, os dois ficaram conversando mais baixo perto da porta. Não consegui ouvir tudo, mas percebi que Cairo respondia apenas o necessário. Estranhei. Normalmente ele era quieto, mas hoje...Estava mais do que o normal. Quando dona Cida foi embora, Grego olhou para o relógio. — Bora? Cairo fez que sim. Os dois caminharam até a saída. Antes de passar pela porta, Grego virou para trás. — Um dia tu ainda aceita sair comigo. Sorri sem nem pensar. — No dia que nevar na Rocinha. Ele riu alto. — Eu gosto de desafio. — Então continua gostando. Os dois foram embora. Fiquei observando pela vitrine enquanto desciam a rua lado a lado. Grego falava sem parar, gesticulando como sempre. Cairo apenas escutava, respondendo uma coisa ou outra. Foi aí que percebi, conheço aquele homem há anos. O suficiente para notar quando alguma coisa muda. Ele estava diferente, mais calado, mais distante. Como se a cabeça estivesse em outro lugar. Franzi a testa por alguns segundos. Não fazia ideia do motivo, mas conhecendo o Cairo... Quando ele começava a pensar demais, era porque alguma coisa importante estava prestes a acontecer.
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