Cairo Narrando
Acordo antes do despertador tocar. E isso já é estranho. Normalmente, só abro os olhos quando o barulho começa a incomodar. Hoje não. Hoje eu abro os olhos e a primeira coisa que faço é procurar o celular.
Paro no meio do movimento. Fico olhando para minha própria mão segurando o aparelho. Reviro os olhos.
— Tá de s*******m.
Falo sozinho. Porque sei exatamente o que estou fazendo, estou procurando uma mensagem. Dela.
Abro o celular. Nada. Nenhuma mensagem nova. Mesmo assim, entro na conversa. A última coisa que ela mandou ainda está ali, um simples "bom dia". Uma coisa que qualquer pessoa ignoraria. Mas eu fico ali, olhando por alguns segundos. Não porque a mensagem seja especial. Mas porque veio dela.
E isso me incomoda. Eu não sou esse cara. Nunca fui. Minha vida sempre foi resolver problema, acordar cedo, tomar decisões, cuidar do que é meu. Nunca tive tempo para ficar esperando mensagem de ninguém. Muito menos de uma mulher que eu nunca vi. Mas aí está o problema, eu não estou esperando uma mensagem. Estou esperando ela.
Jogo o celular sobre a cama e me levanto. Vou ao banheiro. A água fria bate no rosto, mas minha cabeça continua no mesmo lugar. Nela. Aquela voz que eu nunca ouvi. Aquele rosto que eu nunca vi. Aquela mulher que, de alguma forma, conseguiu entrar na minha rotina sem sequer pedir permissão.
Depois do banho, me visto e saio. A Rocinha já está de pé. Gente indo trabalhar, comércio abrindo, criança correndo para a escola. É o mesmo cenário de todos os dias. Mas parece diferente. Talvez porque eu esteja diferente.
Chego na boca e encontro o Grego. Ele está sentado, mexendo no celular. Quando me vê, abre aquele sorriso debochado de sempre.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ele continua me olhando como se estivesse lendo algo que eu não disse.
— Só isso?
Paro e franzo a testa.
— O que foi?
Ele guarda o aparelho no bolso.
— Nada.
— Então para de me olhar assim.
Ele ri.
— Tu tá estranho.
— Eu?
— É.
Cruzo os braços.
— Desde quando tu repara em mim?
Ele se levanta e vem até mim.
— Desde que tu começou a olhar o celular a cada cinco minutos.
Fico em silêncio. Ele percebe tudo. E sorri mais ainda.
— Acertei.
— Não viaja.
— Cairo... — ele se aproxima, baixando um pouco o tom — eu te conheço.
Essa frase me faz calar. Porque ele conhece mesmo. Conhece meu jeito, minhas manias, meus silêncios.
— Não tem nada acontecendo.
Ele balança a cabeça, sem acreditar.
— Engraçado.
— O quê?
— Tu é péssimo mentindo.
Solto uma risada sem humor.
— Aprendeu com a Helena?
— Não. — Ele sorri de leve — Ela sempre fala isso.
Reviro os olhos. Helena realmente me conhece mais do que deveria.
— É só uma conversa.
O sorriso dele diminui, ficando mais sério.
— Conversa com quem?
Olho para ele. Ele entende que não deve insistir, mas já é tarde. Percebeu.
— Uma mulher?
Não respondo. Ele começa a rir de verdade.
— Não acredito.
— Cala a boca.
— O homem que dizia que não tinha paciência pra mulher agora tá sorrindo pra tela de celular.
— Eu não tô sorrindo.
Ele aponta para o meu rosto.
— Tá sim.
Nego com a cabeça, mas não consigo segurar. O pior é que ele tem razão. Mudo de assunto de uma vez.
— Vai trabalhar.
Ele levanta as mãos, se afastando, mas antes de sair ainda me diz:
— Só cuidado.
Olho para ele.
— Com o quê?
Ele dá de ombros, mas o olhar continua firme.
— Com alguém conseguir conhecer uma parte tua que nem a gente conhece.
Fico parado ali por alguns segundos. Aquela frase me pega de jeito.
O Grego segue e eu continuo o meu dia. Exatamente como sempre. Resolvo problemas, converso com moradores, escuto reclamações, ajudo onde precisa. Tem gente que olha pra mim e vê apenas o homem que manda. O homem que todos respeitam. O homem que ninguém quer enfrentar. Mas existem momentos em que eu lembro que não sou só isso. Quando uma senhora me agradece por ter ajudado com uma conta atrasada. Quando uma criança passa correndo e grita meu nome. Quando alguém me procura porque sabe que eu vou tentar resolver. Talvez seja isso que aquela mulher viu. Algo que eu mesmo tinha esquecido.
No meio da tarde, o celular vibra. Meu coração responde antes da minha cabeça. Olho a tela. É ela.
Desconhecida:
Como está seu dia?
Fico olhando aquela pergunta. É simples. Mas ninguém costuma perguntar isso. As pessoas perguntam se resolvi, se deu certo, se o problema acabou. Ninguém nunca pergunta como eu estou.
Eu:
Corrido.
Desconhecida:
Você sempre fala isso.
Eu:
Porque sempre é.
Desconhecida:
E você?
Eu:
Eu o quê?
Desconhecida:
Você descansa alguma vez?
Solto uma risada baixa.
Eu:
Às vezes.
Desconhecida:
Mentira.
Sorrio sozinho. Ela me conhece há pouco tempo, mas parece saber muito.
Eu:
E você? Quem cuida de você?
A mensagem é visualizada imediatamente. Mas ela não responde. Espero. Dessa vez, não tenho pressa. Depois de alguns minutos...
Desconhecida:
Ninguém pergunta isso.
Fico olhando a tela.
Eu:
Agora perguntou.
Ela demora um pouco mais.
Desconhecida:
Minha mãe cuidava.
Sinto o peito apertar. Lembro da conversa da madrugada.
Desconhecida:
Depois que ela foi embora...
Ela não termina a frase. Não precisa. Eu entendo.
Eu:
E agora?
Desconhecida:
Agora eu aprendi a cuidar de mim.
Fico encarando aquelas palavras. Não sei por quê, mas aquela resposta me incomoda. Parece frase de alguém que precisou crescer sozinha.
Eu:
Tu não deveria precisar fazer tudo sozinha.
Ela demora. Muito. Quando responde, a voz parece mais frágil.
Desconhecida:
Você fala como se entendesse.
Respiro fundo. Porque talvez eu entenda. Mais do que gostaria.
Eu:
Eu entendo.
Desconhecida:
Por quê?
Olho para a tela. Penso em responder mil coisas. Mas envio apenas:
Eu:
Porque eu também passei muito tempo achando que não precisava de ninguém.
Ela não responde de imediato. Mas quando a mensagem chega... é diferente.
Desconhecida:
Talvez por isso eu goste de conversar com você.
Fico parado. Lendo aquela frase. Mais uma vez. E outra. Não sei em qual momento mudou. Não sei quando ela deixou de ser apenas uma desconhecida. Mas deixou. E isso deveria me preocupar. Porque eu sempre fui bom em controlar tudo. Situações, pessoas, problemas. Mas não consigo controlar uma coisa simples, a vontade de saber se ela está bem.
Guardo o celular e olho a rua lá fora. Tudo continua igual. Mas eu não. E talvez essa seja a parte mais perigosa. Sempre achei que o maior risco era alguém descobrir meus pontos fracos. Agora começo a perceber... que talvez o maior risco seja alguém conseguir encontrar um ponto fraco que eu nem sabia que existia.