27

873 Palavras
Helena Narrando Acordo antes do despertador tocar. Isso acontece quase todos os dias. Não porque eu goste de acordar cedo, mas porque a vida não espera que a gente esteja pronta. A loja abre às oito, mas muito antes disso a rua já está em movimento. Tem gente indo trabalhar, criança correndo para a escola, comerciante levantando as portas e vizinha conversando de uma janela para outra. O morro tem o seu próprio ritmo. Quem olha de fora só enxerga barulho. Eu enxergo vida. Pego as chaves e caminho pelas ruas que conheço de cor. Cumprimento todo mundo que passa. — Bom dia, Helena. — Bom dia, dona Cida. — Hoje tem novidade na loja? Sorrio. — Tem sim. Chegaram umas peças novas ontem. Ela já muda o caminho, vindo comigo. É assim que funciona aqui. As pessoas não compram apenas roupa. Elas compram conversa. Compram confiança. Entro na loja e começo a organizar tudo. Dobro as blusas, arrumo os cabides e confiro as mensagens das clientes. Pouco tempo depois, a porta já começa a abrir. O dia começa de verdade. Uma cliente experimenta e pede opinião. Outra pergunta por um modelo específico. Uma menina entra de mãos dadas com a mãe e fica olhando os vestidos como se estivesse diante de algo mágico. Eu gosto disso. Gosto dessa sensação de fazer parte, mesmo de longe, da vida das pessoas. No meio da manhã, enquanto separo algumas peças, escuto uma voz conhecida. — Bom dia. Nem preciso olhar. Já sei quem é. Levanto os olhos devagar. Grego está encostado na porta, com aquele sorriso de quem sempre acha que está levando vantagem. — Bom dia. Volto a arrumar as roupas. Ele continua parado ali. — Só isso? Olho de volta. — O que tu quer que eu diga? Ele pensa um instante. — Sei lá. Que bom te ver. Dou uma risada. — Tu se acha demais. Ele entra, andando devagar entre os cabides. — Eu só estou dizendo que sou uma pessoa agradável. — Tu é uma pessoa insistente. — Também. Ele olha ao redor e comenta, sem tirar os olhos do ambiente: — Ficou bonita a loja. A frase me pega desprevenida. Porque ele não fala brincando. Ele fala sério. — Obrigada. Ele coloca as mãos no bolso. — Tá precisando de alguma coisa? Olho para ele, desconfiada. — Desde quando tu pergunta isso? Ele dá de ombros, com naturalidade. — Desde quando descobri que tu reclama quando eu não pergunto. Tento segurar o sorriso. Não consigo. — Tu é impossível. — Mas tu riu. — Infelizmente. Ele sorri de volta. E esse é o problema do Grego. Todo mundo conhece o lado brincalhão, o cara que provoca, que faz piada, que parece não levar nada a sério. Mas eu conheço outra parte. Aquela que aparece quando ninguém mais está olhando. A que ajuda sem contar para ninguém. A que lembra detalhes que ninguém percebe. A que se importa mais do que deixa transparecer. — Vai ficar aí parado ou vai comprar alguma coisa? — pergunto. Ele olha as roupas, depois volta o olhar para mim. — Eu não vim comprar. — Então veio fazer o quê? Ele pensa por um segundo, como se escolhesse bem as palavras. — Vim ver se tu estava bem. Fico em silêncio. Essa resposta não combina com o Grego que todo mundo conhece. — Eu estou bem. Ele assente. — Bom. E parece que era só isso que ele queria saber. Não insiste. Não faz piada. Não tenta me impressionar. Fica ali mais alguns minutos, conversando sobre coisas simples, sem pressa. Até que o celular dele toca. Ele olha a tela e a expressão muda de uma hora para outra. Atende logo. — Fala. Escuto apenas algumas palavras do outro lado, mas vejo ele ficar mais sério, firme. Aquele é o Grego que quase ninguém vê, o homem que resolve problemas. Quando desliga, guarda o aparelho no bolso e me olha de novo. — Preciso ir. — Já? Ele sorri, voltando ao tom de sempre. — Vai sentir minha falta? Reviro os olhos. — Sonha. Ele ri, já na porta. — Até depois, Helena. — Até. Ele sai. Fico olhando a porta por alguns instantes e depois balanço a cabeça. Grego é assim, complicado. Consegue ser irritante num minuto e no outro fazer você esquecer por que estava brava. Mais tarde, quando o movimento diminui, recebo uma mensagem do Cairo perguntando sobre uma encomenda que chegou. Respondo normalmente. Mas percebo algo diferente nele também. Mais distraído. Mais quieto. Conheço o Cairo há tempo suficiente para reconhecer quando alguma coisa mudou. Ele sempre foi o homem que carregou tudo sozinho. Nunca pediu ajuda. Nunca demonstrou fraqueza. Mas alguma coisa está acontecendo. E tenho a impressão de que ele mesmo ainda não entendeu direito o que é. Olho pela vitrine a rua lá fora. Vejo as pessoas passando, o morro vivendo o seu dia. E penso que talvez a maior mentira sobre homens como eles seja essa ideia de que não sentem nada. Sentem. Só aprenderam a esconder melhor. O problema é que, uma hora... alguém aparece e consegue enxergar. E quando isso acontece... nem o homem mais fechado consegue continuar fingindo que não existe nada ali.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR