Menor Narrando
Meu nome é Luan, mas quase ninguém me chama assim. Aqui no morro, nome de batismo fica para quem conhece a nossa história. Para o resto do mundo, a gente carrega o nome que ganhou na rua. O meu é Menor!
Não porque eu seja menos que ninguém. Pelo contrário. Aprendi cedo que, nesse lugar, você precisa provar todos os dias quem você é. Ninguém vai olhar para a sua idade e ter pena. Ninguém vai diminuir o peso das suas escolhas porque você ainda é novo.
Eu cresci vendo muita gente subir e cair. Vi homem que parecia invencível perder tudo por uma decisão errada. Vi gente abandonar os próprios parceiros quando a situação apertava. Mas também vi quem ficou.
E foi isso que mais aprendi com Cairo. Para muita gente, ele é só o dono da Rocinha. O homem que todos respeitam, que todos escutam quando fala e que carrega nas costas o peso de um lugar inteiro, mas eu conheço outro lado.
Conheço o homem que para para ouvir alguém quando ninguém mais quer ouvir. O homem que ajuda sem precisar que ninguém saiba. O homem que finge não se importar, mas é o primeiro a aparecer quando alguém que ele considera família precisa.
Foi por isso que, para mim, Cairo nunca foi só um chefe, ele foi o irmão mais velho que a vida colocou no meu caminho. Eu ainda era moleque quando comecei a andar com a rapaziada. Não tinha experiência, não tinha nome, não tinha respeito. Eu era só mais um tentando encontrar meu lugar.
Cairo foi um dos poucos que olhou para mim e enxergou alguma coisa. Ele não me prometeu facilidade, nunca disse que aquele caminho seria bonito.
Pelo contrário, a primeira coisa que ele me falou foi que eu precisava pensar antes de querer ser alguém.
— Tu acha que ser respeitado é andar armado e todo mundo ter medo de ti?
Eu lembro de ter ficado calado.
Ele continuou:
— Respeito é quando as pessoas sabem que podem confiar em você. Medo acaba. Confiança fica.
Na época eu não entendia completamente, hoje eu entendo. Por isso, quando dizem que sou cria dele, eu não vejo como ofensa, vejo como orgulho.
Naquele dia, cheguei na boca e encontrei Cairo sentado na sala, resolvendo alguns problemas como sempre. Ele levantou os olhos quando me viu e deu aquele sorriso de canto.
— Olha quem resolveu aparecer.
Joguei o boné em cima da mesa.
— Sentiu minha falta.
Ele soltou uma risada.
— Nem um pouco.
— Mentiroso.
— Tu continua convencido demais.
— E tu continua fingindo que não gosta de mim.
Ele balançou a cabeça, mas eu conhecia aquele olhar, era o jeito dele de demonstrar carinho sem precisar falar. Cairo nunca foi homem de abraços ou grandes declarações. Mas ele estava ali e às vezes isso dizia mais que qualquer palavra.
Enquanto ele voltava para os papéis sobre a mesa, eu ficava observando. Todo mundo via o chefe, eu via meu irmão. E talvez fosse justamente por isso que eu sabia uma coisa que pouca gente sabia. Até os homens mais fortes carregam coisas que ninguém imagina. E Cairo carregava mais do que deixava aparecer.