Um Novo Amigo

1386 Palavras
Uns dois meses já haviam se passado desde que Roberto viu eu o observando, e tudo continuou igual. Até que um dia eu fui colocar o lixo na lixeira que tinha na frente da minha casa, ele estava andando de bicicleta, eu me virei para entrar, quando eu escutei aquela doce voz dizer: - Hey! Eu surpreso, me virei, e ele sorrindo, me perguntou: - Qual o seu nome? - Meu nome? Droga! O que dizer? Eu tinha que pensar rápido! Se eu falasse a verdade, ele poderia não querer ser meu amigo, já que eu nunca tinha visto ele brincando com nenhum garoto antes. - Hã, meu nome é... é... Ta, Ta, Tamires. – Eu respondi. Por algum motivo que eu não sei direito, eu não consegui dizer a verdade, não consegui dizer que me chamava Thales, e que eu era menino, fiquei com medo dele não querer minha amizade se soubesse a verdade, e eu sabia que ele acreditaria se eu falasse que eu era uma garota, já estava acostumado com as pessoas me confundirem com uma menina, só quem me via como garoto mesmo era a minha família, que sabia a verdade. - Eu me chamo Roberto. Quantos anos você tem? – Ele me perguntou ao dar um leve sorriso. - 10 e você? - Eu perguntei, fingindo não saber a resposta. - 11. - Ele respondeu com aquele sorriso encantador. - Você é nova aqui? Nunca havia te visto antes. – Ele disse. - Sou, eu me mudei pra cá faz pouco tempo. – Eu respondi meio sem graça. E foi assim que tudo começou, foi assim que nos falamos pela primeira vez, e nos tornamos amigos. Roberto me convidou pra andar de bicicleta, eu peguei a minha bike, e fomos dar uma volta no bairro, paramos em um parquinho onde havia um belo gramado, sentamos ali, e ficamos conversando por algum tempo. Acho que cada um soube da vida um do outro em apenas uma ou duas horas, só que para mim a parte mais difícil foi ter que falar como uma garota, nunca havia passado por algo semelhante antes, e foi meio estranho. De repente começou a escurecer, e a trovejar, assim que percebemos que iria cair uma chuvarada, nós dois pegamos nossas bicicletas, e resolvemos ir em direção às nossas casas, e no meio do caminho pegamos um tremendo temporal, mas chegamos bem em casa. - Nos vemos amanhã? – Ele perguntou. - Só se você quiser... – Eu respondi meio envergonhado. - Até amanhã.- Ele disse sorrindo. Eu apenas sorri e entrei para a minha casa. Estava encharcado, pingando água, com frio, já estava até espirrando, porém estava sentindo algo que eu nunca havia sentido em toda a minha vida, era uma felicidade que parecia não ter fim, e eu queria que nunca tivesse. Minha mãe ao ver o meu estado perguntou onde eu estava. - Me divertindo. - Eu respondi. - Direto pro banho. - Ela me disse parecendo meio brava. Lá fui eu cantarolando pelos quatros cantos de casa, pulando de alegria, sorrindo pro nada. Enquanto eu tomava banho, eu não conseguia parar de lembrar do sorriso do Roberto, e do jeito que ele me olhava. Eu sabia que ele pensava que eu era uma garota, e até estava um pouco m*l de ter que mentir, ainda mais pra ele, pois fiquei com medo que ele descobrisse a verdade. Quando eu fui me deitar, Julia me perguntou o motivo da minha felicidade, eu apenas respondi que estava começando a gostar daquela cidade. Naquela mesma noite, ao pegar no sono, eu sonhei com o Roberto, sonhei que eu estava em um lugar lindo, cheio de gramado e flores, e eu estava andando de balanço, e ele vinha correndo, e ao me ver começava a embalar o meu balanço. Foi o sonho mais lindo que eu já tive na minha vida. Acordei no dia seguinte, uma manhã ensolarada de sábado, com o Roberto jogando pequenas pedrinhas na janela do meu quarto. Fui até a janela e ao ver ele, fiz sinal para que ele esperasse. Troquei de roupa, me lavei e me escovei, penteei o cabelo, coloquei perfume, e desci para ver ele. - O que você está fazendo aqui? – Eu perguntei. - Vim te chamar pra brincar. - Tá, mas quando quiser fazer isso me liga, ou deixa que eu te procuro, mas não venha na minha casa, por favor. Estava morrendo de medo que meus pais e a minha irmã vissem eu conversando com o Roberto, porque aí ele poderia descobrir toda a verdade, e aí eu estaria ferrado. - Mas por quê? – Ele perguntou sem entender o motivo do meu pedido. - Ah, é que meus pais são muito chatos, sabe como é filha mulher, né? - Não! Mas tudo bem. Topa jogar uma pelada? - Ele perguntou. Eu respondi que sim, fomos até o campinho do bairro, e ficamos algumas horas ali, jogamos futebol, conversamos, e rimos bastante. Roberto tinha um ótimo senso de humor, era muito inteligente pra sua idade, e falava um pouco sobre cada assunto, às vezes me sentia até meio perdido, mas concordava com tudo que ele dizia. Enquanto conversávamos passou um carrocinha de picolé, e como apesar da chuva do dia anterior estava muito calor, Roberto resolveu comprou um picolé, e perguntou se eu também queria. - Eu não trouxe dinheiro. - Eu respondi. Ele sorriu, e comprou um para mim também, um picolé de chocolate, o meu preferido. Ele era de família classe alta, andava sempre bem arrumado, e só usava roupa de marca, tinha tudo do bom e do melhor, quem via até achava ele meio mauricinho, filhinho de papai, mas eu não, para mim ele era diferente, um garoto humilde, de ótimo caráter, com um coração maior que o mundo. Já eu, vinha de uma família classe média, nunca tive tudo o que o Roberto teve, mas também nunca me faltou nada, e eu sempre fui feliz com o que eu tinha que pra mim era muito. - Você tem irmãos? - Ele perguntou. - Tenho uma irmã de 8 anos, a Julia, e você? - Sou filho único, mas tenho um irmão de criação, que é seis anos mais velho que eu. Quando meu pai se casou com a minha madrasta, ela já tinha ele. - E a sua mãe? - Eu perguntei. - Ela morreu quando eu tinha quatro anos em um acidente de carro. Eu estava junto, e lembro como se fosse ontem. Estávamos indo buscar o meu pai no serviço, e estava chovendo muito, quase não dava pra ver a rua. Estava trovejando muito, e eu estava muito assustado, a minha mãe não sabia se dirigia ou tentava me acalmar. Lembro que eu só conseguia ver o para brisas correndo de um lado pro outro, e de repente eu vi uma luz se aproximando da gente, mamãe tentou desviar, mas não conseguiu. A luz era de um caminhão, e de repente eu não vi mais nada. Só me lembro depois, quando eu acordei, a chuva já havia acalmado, não lembrava do que havia acontecido por causa da batida, só fui lembrar algumas horas depois. Lembro que eu olhei para o banco do motorista e vi a minha mãe deitada, com a cabeça com um enorme corte e um sangue que parecia já estar seco, eu chamei por ela, balancei, gritei, chorei, mas ela não acordou. Então eu sai do carro, e comecei a pedir por ajuda, e aí eu encontrei um homem muito bom, que era médico, levei ele até o carro onde minha mãe estava, ele a examinou e constatou que ela havia morrido. Então ele ligou para o meu pai, que já havia colocado a policia atrás da gente, e o homem informou o que havia acontecido, e o meu pai foi me buscar. - Nossa, que horror, eu sinto muito! - Eu disse. - Tudo bem. - Ele me disse sorrindo, mas com os olhos vermelhos, como se estivesse segurando o choro. Ao ver ele daquele jeito, me bateu uma louca vontade de abraçá- lo, dizer que eu estava do lado dele. Quase chorei ao ver ele naquele estado, mas tentei me conter, eu sorri, e ele me devolveu o sorriso, aquele sorriso que eu tanto gostava.
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