Noite de sábado…
Laura narrando.
Saio do banheiro apenas com um roupão de seda que me deram, usando minha lingerie por baixo, morrendo de vergonha. Seguro minha bolsa com minhas coisas e roupas.
— Laura, que corpo, hein? — uma enfermeira que se maquia comenta, e todas as meninas olham para mim.
— Obrigada, acho que vou morrer de vergonha — digo, e elas riem.
— Eu, pelo contrário, quero desfilar bem e achar um boy rico — uma delas fala, fazendo todas rirem.
— Bonitinha, vem vestir essa roupa aqui — um homem baixinho e de terno me chama, e eu o sigo.
— Não é muito curto?
— Guria, só veste. Toma o salto, e se não servir, bota um algodão. JAQUELINEEE, CADÊ MINHA ASSISTENTE? — ele sai
gritando, e eu vou para o trocador.
Me visto e saio para me olhar no espelho. Nunca me senti tão nua usando uma roupa.
— Nossa, que gostosa. Estou me descobrindo bi nesse desfile — uma residente diz, e dou risada, mesmo estando com vergonha.
— Meninas, aqui está a ordem de quem vai desfilar. Temos cinco minutos, se apressem — o Dr. Shepherd diz, e tento falar com ele,
mas ele sai correndo. Eu tinha dito que não queria nada curto.
— Laura, você é a sexta a desfilar, vem para a fila — uma menina me chama, e vou até ela.
— Segura a respiração para a barriga ficar bonita. Quer laquê no cabelo?
— Não precisa — digo e tento espiar pela cortina no canto. Meu coração acelera com a quantidade de gente que está aqui.
— Vai começar, gente. A música começa, e vocês entram. Todos sabem que não são modelos profissionais, então andem, parem na
metade com pose, andem quando a da frente sair, parem no final e voltem. Vamos lá! — uma das organizadoras me puxa para o lugar
na fila e vai controlando a saída e entrada das modelos.
Quando a menina à minha frente é empurrada para sair, sinto o friozinho na barriga aumentar.
— Ai, meu Deus, eu preciso ir ao banheiro rapidinho, sabe? Dar uma vomitada de nervosismo — falo para a assessora, que n**a.
— Segura, mi amore. b***a para fora e barriga para dentro. Vai! — ela me empurra, e respiro fundo, saindo.
Ando olhando para a frente e tento fazer o carão enquanto me concentro em não cair e continuar andando firmemente. Paro na
metade da passarela e faço uma pose, virando o rosto. Vejo uma garotinha loira no colo do pai, me olhando atentamente. Ele também
me olha, mas... de um jeito diferente que nem sei explicar, como se estivesse hipnotizado e eu fosse uma obra de arte à sua frente.
Seus olhos são perfeitos e parecem um poço cheio de segredos.
Um flash da câmera me acorda dos segundos de ilusão, e sorrio para a garotinha antes de voltar a andar. No final, fico mais cega
pelos flashes e volto comemorando por não ter caído, o que foi um milagre após ter passado por aqueles olhos que quase me
hipnotizaram.
Entro de novo no camarim, e algumas meninas me abraçam.
— Menina, você foi incrível, parecia uma modelo de verdade.
— Eu não tropecei, né? Fiquei com tanto medo — digo, tremendo um pouco, e elas me dão água, elogiando.
— Se tropeçasse ou até caísse, ninguém ia ligar com um rostinho e corpo desses.
— Vamos lá, gente, o desfile ainda não acabou — o baixinho de terno volta surtando.
[...]
Voltamos para a passarela, agora todas juntas, e o cara baixinho vai na frente, sorrindo e aparentemente calmo, mudando da água
para o vinho. Ele agradece com um buquê de flores e pega um microfone, falando da nobre causa que quis promover. Mas só consigo
prestar atenção na minha nuca queimando, pois sei que ele está me olhando. Me seguro para não virar e encará-lo de novo, porque
talvez não consiga desviar do seu olhar nunca mais.
— Menina, tem um gostoso te encarando ali — uma enfermeira fala, me cutucando. Quando a olho levemente, ela está sorrindo para
ele.
— Eu sei — falo baixinho de volta.
Vejo as meninas à minha frente darem a volta entrando, e faço o mesmo, tentando resistir à tentação de ver o desconhecido mais uma
vez. Estou me achando louca nesse momento.
[...]
Saio do trocador já com as minhas roupas e finalmente confortável. Vou me despedindo de algumas meninas, enquanto as outras
comentam sobre o desfile, e eu saio de fininho. Quase na porta dos fundos, o chefe Shepherd me para, e eu o olho com raiva.
— Eu tinha falado que não queria roupas curtas. Eu quase morri de vergonha, senhor Shepherd.
— Para com isso. Foi um lindo desfile, em um lindo dia. Vim te elogiar e dizer que um dos investidores do evento te convidou para a
festa de agora. Vamos? Eu e minha família te damos carona, se estiver sem carro. Não liga para meu filho Bailey, ele é um adulto na
dele.
— Ah, eu não sei, não. Não estou com roupas para uma festa grande, sabe? Ainda estou com as pernas bambas do desfile. Vou para
casa mesmo.
— Sério? — ele pergunta, e eu assinto.
— Prefiro ir embora.
— Boa noite, senhorita Every — ele diz, saindo com as mãos nos bolsos. Anda até a esposa, a quem aceno. Ela sorri para mim, me
fazendo sorrir junto. Aquela mulher parece uma pintura de tão linda.
Respiro fundo, lembrando que tenho que ir embora. Tento sair pelos fundos, mas a porta está trancada. Vou ter que encarar a
multidão. Refaço meu caminho, vendo muitas pessoas com roupas elegantes conversando e bebendo champanhe. Achei que a festa
seria em outro lugar. Vou andando, procurando a saída, e quando finalmente acho, me assusto com algo grudando nas minhas pernas,
quase me fazendo cair.
Olho para a cabeça loira e faço carinho nas suas costas, tentando que solte.
— Oi? Tudo bem, pequena? — digo, olhando para a garotinha e reconhecendo-a como a mesma do desfile, que estava com o homem
de olhos hipnotizantes.
— Oi, moça bonita. Você quer ser minha...
— Olivia — me arrepio com a voz séria atrás de mim, interrompendo a garotinha. Congelo, sem conseguir virar. — Desculpe minha
filha, ela saiu correndo.
Vejo ele vir para minha frente, mas não consigo levantar o olhar para seu rosto.
— Mas você que mand... — ela começa a falar, mas o homem tampa sua boca discretamente. Ela olha para ele sem entender.
Respiro fundo e levanto a cabeça para encará-lo. Prendo a respiração involuntariamente.
— Tudo bem, senhor.
— Me desculpa a indiscrição, mas você foi a modelo mais bonita da noite — ele diz, e fico morrendo de vergonha.
— Muito obrigada, mas eu nem sou modelo — digo, rindo, e ele sorri. — Sou apenas mais uma voluntária do hospital.
— A mais bonita. Muito prazer, senhorita — ele oferece a mão e fica esperando que eu diga meu nome. A cada palavra que sai da
boca dele, perco mais ar.
— Laura — digo, segurando sua mão, sentindo um leve choque. Acho que estou muito nervosa mesmo.
— Doutora Laura, decidiu ficar? Se quiser ir à festa real, te damos carona. Ah, boa noite, senhor — meu chefe aparece, sorrindo.
— Nossa, verdade. Eu tenho que ir embora, gente. Mil desculpas — digo, e a pequena abraça minhas pernas novamente.
— Não vai — ela pede baixinho, e me abaixo à sua altura.
— Você e seu papai devem ser importantes, não é, meu amor? — ela assente com um biquinho no rosto, e faço carinho na sua
bochecha. — Então ele e você precisam ir.
— Você é modelo, por que não vai também? — ela pergunta, e quase mudo de ideia ao ver sua carinha.
— Posso te contar um segredo? — ela assente, e me aproximo de sua orelha, falando baixinho. — Eu quase morri de vergonha
naquela passarela.
— Então você não é modelo? — ela pergunta baixinho, e assinto com a cabeça.
— Não sou. Eu sou pediatra... cuido de criançinhas bonitas, igual você — ela sorri e abraça meu pescoço.
— Para mim, você é uma modelo. A melhor.
— Obrigada, mas agora tenho que ir. Coma muito docinho nessa festa por mim, ok? — ela assente, se afastando, e me levanto. —
Boa noite, senhores.
Aceno levemente com a cabeça, e o homem com ela parece ficar com raiva, mas não diz nada. Saio andando para o elevador.
Quando as portas se abrem e entro, apertando o botão, consigo ver o homem e a pequena menina me olhando sair. Ele, com raiva...
muita raiva. Já ela, me olha sorrindo, e aceno enquanto o elevador se fecha.