Capítulo 14

1280 Palavras
Ao lembrar do Alan fiquei um quanto com a mente conturbada e culpada. E se ele se perdeu? Eu simplesmente não fiz um bom papel que uma "boa equipe" deveria fazer. - Você deixou o Alan sozinho? Olhei para baixo e mordi os lábios, demonstrando estar nervosa. Olhei para o meu celular e a bateria iria zerar a qualquer momento. - Vamos ligar para alguém do acampamento... Me dá o seu telefone. Caio olhou para o lado, parecendo estar querendo fugir do assunto. - Da o seu celular, Caio. -Porque não usa o seu? - Porque está 1%. Ele arregalou os olhos. - O que foi? - Perguntei assustada com o seu olhar, não foi difícil decifrar o significado. - Como você pode deixar o seu celular descarregar? - Ele levantou a voz. - E como você pode não estar com o seu celular? - Completei o seu insulto de querer se achar o certo. - Eu esqueci. Acontece. - Acontece? Agora a gente está perdido Caio! E o pior... Está escurecendo. Ele se manteve quieto e eu continuei. - Não devemos discutir agora, nós dois estamos errados. Bufei preocupada. - Logo eles viram atrás da gente. - Ele disse se sentando ao lado da bandeira. - Você vai ficar aí sentado ou vamos tentar sair daqui? Ele olhou pra mim com a cara debochada. - Você acha mesmo que eu vou te carregar no meio do mato, prestes a escurecer e sem saber o caminho? Acho mais fácil a gente ficar perto da onde pegamos a bandeira, porque obviamente o Jone sabe aonde colocou! Pior é que ele tinha razão, tentar sair daqui não vai resultar em boas coisas. Fechei os olhos respirando fundo tentando me manter equilibrada, e nos mantemos em alguns minutos em silêncio. Quando o silêncio tomou conta do lugar com apenas os sons dos mosquitos, parecia que o local se tornava mais insuportável. - Ah que silêncio... Será que pelo menos uma vez na vida a gente pode conversar? - Perguntei pegando de dentro da minha mochila umas duas lanternas. Entreguei ao Caio e acendemos. - Você quer conversar sobre o quê? Sua i****a. - Disse ele com a lanterna em seu rosto. - Quem é o seu pai? - Perguntei curiosa. Automaticamente sua expressão de tédio passou para uma expressão séria. - Quer dizer... Até agora não vi ele te visitando ou... - Será que podemos mudar de assunto? - Uou, acho que agora é aquele momento que a garota toca no ponto sensível do cara e temos uma conversa profunda sobre amor paternal? Ele acaba soltando uma leve risada. - Agora não é o momento que você deveria estar gritando comigo? - Perguntei franzindo a testa. - Acho que eu não estou com vontade de gritar com você agora. Fiquei surpresa com ás suas palavras. Iluminei as árvores com a lanterna, para ficar menos assustador. - O meu pai está preso. Assim que Caio disse isso, virei a lanterna em seu rosto. - Aí, tira essa m***a da minha cara. - Opa, desculpa. - Respondi rápida. - Porque está me contando isso? Eu poderia espalhar para o colégio. Ele abre um sorriso de lado. - Eu sei que não. Abaixei o olhar estando ansiosa á perguntar mais coisas, mas fiquei com receio de ele ficar irritado. Porque ele me contou algo tão pessoal? A gente é tipo inimigo. - Não vai perguntar o por quê? - Ele perguntou olhando diretamente em meus olhos. Senti um calafrio em minhas espinhas. - Porquê eu deveria? - Me atrevi a questionar. - Porque você é a Zoe, a garota curiosa e cheia de perguntas. - E levar patadas de você? Acho melhor eu me calar. - Falei olhando novamente para as árvores balançando com o vento. - Qual é o lance com o seu pai? Engoli a seco. - Bom, se serve de consolo... Os meus pais se separaram faz tempo, meu pai sempre me deu tudo, mas o que eu mais queria ele não me dava... Que era presença. Olhei para o Caio novamente e completei: - Certamente para algumas pessoas o que supre a felicidade são os bens materiais ou até mesmo as contas pagas, não vou mentir que isso realmente trás uma sensação boa, ainda mais pra quem não tem dinheiro... Acho que ter pais que possam pagar a nossa faculdade ou o carro dos sonhos e futuramente ter os bens deles é o sonho de qualquer um. Mas pra quem já nasce em berço de ouro, não é tão relevante. Caio se manteve calado e eu o encarei no fundo dos seus olhos. - Você sabe porque os meus pais não estão mais juntos? Caio pela primeira vez, parecia interessado em conversar comigo. - Por quê? - Porque às vezes amar não é o suficiente... Ele se dedicava para ela e não á ela. O meu pai nasceu de uma família rica, e eu o admiro ter se esforçado tanto na sua empresa para dar todo o conforto que ganhamos. Passei os meus braços em volta da perna. - Mas... Mesmo que ele tenha se dedicado a tudo isso, ele não se dedicou à nossa família. Ele quis fazer de tudo pro nosso conforto, mas não a nossa relação. - Sua mãe quem quis se separar? Abri um leve sorriso. - Sim, minha mãe é totalmente diferente do meu pai. Ela é vegetariana e faz Yoga. Como uma "hippie" daria certo com um empresário de geração? Caio soltou uma risada. - Eu também estou tentando entender. - Ela me contou que eles mesmo com tanta diferenças de classes, ainda eram completamente apaixonados. Acho que a minha mãe consegue fazer os caras irem para outro "mundo". - Porque ela quis morar tão longe? - Ela gosta de aventuras. - História interessante, Zoe. - Caio disse cruzando os braços. - Chega a ser estranho você estar me escutando. - Não vai se acostumando! - Ele respondeu revirando os olhos. - O dia que quiser me contar a sua vou gostar de saber. - Falei abrindo um sorriso e o encarando. - Quer saber o que sobre mim? Até que as nossas histórias são um pouco parecidas. - No que? - Bom, meu pai também era ausente, porém ele não era uma pessoa boa, ele fez a minha mãe chorar muito! Então ele fez algo muito r**m e agora está preso, mas prefiro deixar em sigilo. - Seja lá o que ele fez, pelo menos você tem a sua mãe ao seu lado. - Caio desviou o olhar para as árvores e mudou de assunto. - Aonde está o pessoal? Já está muito escuro! Aliás... O seu joelho e o seu pé ainda está doendo? - Sim. Caio se aproximou com a lanterna, iluminando a minha perna e apertou o meu pé. - Aí, aí! Está doendo, não aperta! - Gritei. - Foi m*l. Encarei o Caio analisando os meus pés. - Nossa, eu acho que eu trouxe alguns kits de socorro que o Jone entregou para um de nós do grupo. Como que ele pega um kit de socorros e não um celular? Revirei os olhos e bufei. Caio tirou da bolsa uma faixa branca e começou a enrolar no meu pé com cuidado, então sutilmente analisei a forma cuidadosa que ele estava passando no meu pé. Tudo estava ficando um pouco estranho, porque à algumas horas atrás estávamos disputando uma aposta no puro ódio, e agora aqui... Ele simplesmente está sendo legal? Engoli a seco quando comecei a observa-lo... Os seus cabelos meio bagunçados e a sua roupa colada em seu corpo. Eu não havia notado que quando ele era legal... E atraente.
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