- Eu não sou cego de nascença - disse ele, provavelmente afagando as barbas que, supunha eu, a partir do exame de seu caráter, deveriam ser medonhas. - Queres saber como perdi a visão? Ora, eu não havia perguntado nada e não tinha a mínima curiosidade de sabê-lo. Mesmo assim, ele continuou: - De certa forma, foi um “suicídio da visão”. Eu nunca havia ouvido tanta parvoíce em minha vida. Mesmo assim, prestei atenção. - Quem era eu? Um ocultista muito pouco famoso. E, decerto, o mais fiel discípulo de Narciso. Porque, além de alfarrábios cabalísticos, colecionava espelhos tal qual um filatelista renomado disputa selos raros. Em uma viagem a Roterdã, fiquei sabendo da existência de uma relíquia milenar. Era um pequeno espelho oboval que, segundo um respeitadíssimo e honesto

