Um tesouro vindo da alma
A manhã estava linda, os pássaros cantavam alegremente na Green Tree, o vento rugia em minha janela sutilmente, o céu estava um lindo azul claro com nuvens branquinhas e bem desenhadas. Parecia uma obra prima, um quadro que acabara de ser pintado por seu mais talentoso pintor.
— Misericordioso pai celestial, obrigada por esse dia incrível — digo enquanto olho para o céu — espero que no colégio seja tão bom quanto o dia que o Senhor nos proporcionou.
— Está rezando? — Marilla entrou no quarto com peças de roupas limpas.
— O dia não está magnífico? — digo — olha só para esse céu.
— Realmente Anne, o dia está incrível. Arrume-se e desça para o café. Não se esqueça que hoje, Jerry irá com você para o colégio.
Assinto.
— Marilla, será que hoje após a aula eu posso ir comprar algumas roupas que preciso?
Ela concorda.
— Certo, obrigada. Vou ver se Diana e Ruby me acompanham.
— Significa que você já fez algumas amigas? — ela sorri — estou feliz por isso.
— É mais ou menos isso, obrigada Marilla.
. . .
Pego um jeans preto, uma camiseta azul, deixo os cabelos soltos. Passo um gloss, sem nenhuma outra maquiagem, eu gosto da minha naturalidade, apesar de maquiagens nos deixar muito mais bonitas e atraentes. Procuro um sapato mais bonito, não encontro então coloco minhas botas pretas com um pequeno salto. Desço as escadas rapidamente, e assim que atravesso a porta da cozinha dou de cara com Jerry já sentado a mesa, com uma maleta preta esperando para irmos ao colégio.
— Suponho que está ansioso assim como eu estava ontem — digo me sentando.
— É eu estou bastante ansioso e um tanto nervoso. Como é lá?
— Bom, um pouco estranho. As pessoas não são tão receptivas, e já te aconselho, se você não tem intenção de ficar o ano todo sendo a dupla de uma pessoa que não se deu bem, não bata nela com uma apostila.
— Então será um dia e tanto — ele diz receoso.
— Bom, mais ou menos, pense positivo o dia está lindo — falo — e ninguém pode estragar isso.
— Pensamentos precipitados são ruins, talvez devessem se concentrar nos estudos e não no que as pessoas pensam de vocês.
— Certo — Jerry diz com certeza ainda apreensivo.
— Matthew tem uma consulta importante hoje. Então provavelmente Jerry quando você chegar não estaremos.
— Anne estará onde? — ele me olha.
— Ela irá fazer umas compras com as colegas.
— Se quiser eu posso acompanhá-las.
— É uma ótima ideia Jerry, Anne não conhece a cidade e não é bom que garotas andem sozinhas.
— O que? — falo irada — eu não preciso de guarda costas Marilla. Obrigada Jerry por se oferecer mas eu não quero que você vá, é uma coisa de meninas.
— Eu fico distante se quiser — ele ergue os ombros — eu só quero conhecer a cidade também.
Sinto um pouco de pena, eu poderia levá-lo. Mas isso não seria um passeio de garotas, e ele veria todas as minhas perguntas ridículas sobre moda.
— Jerry vai e pronto — Marilla diz.
— Marilla!
— Não questione Anne.
— Muito obrigada Jerry — falo encarando-o furiosamente e pego minhas coisas.
— Não vai nem terminar o café Anne?
— Perdi o apetite. Até mais Marilla.
Saio da casa, com passos rápidos para encontrar Diana. Ela está lá na moita me esperando. Nos cumprimentamos com um beijo no rosto, e seguimos rumo ao colégio, passamos na rua de Ruby e exatamente às 7h50 chegamos. Subimos as escadas, mas hoje a atenção não está focada em mim, olho para trás e lá está Jerry cabisbaixo e um tanto envergonhado.
No mesmo instante minha ficha cai. Esqueci dele.
Diana olha para trás e pousa os olhos em Jerry, Ruby faz o mesmo. O garoto está com as bochechas vermelhas, e percebi que algumas garotas começaram a observá-lo com perversidade. Reviro os olhos, caminho até ele. Agora a atenção é redobrada.
— Desculpe eu esqueci que você viria comigo, eu estava nervosa demais.
Puxo ele pelo braço e faço subir as escadas. Todos nos observam, descaradamente.
— Diana, Ruby esse é Jerry meu primo. Ele veio da França fazer um intercâmbio aqui.
— Bonjour Jerry — Diana diz encantada.
— Bonjour — ele sorri.
Por um tempo encaro os dois, e Ruby faz o mesmo que eu, só que com a boca entreaberta. Ótimo, Diana além de bonita e rica, é excepcionalmente fluente em francês, é o que tudo indica, tem algo melhor que isso?
— Vamos entrar, a aula está prestes a começar.
— O que vocês disseram? — Ruby questiona.
— Olá — os dois respondem com um sorriso de fora a fora.
— Ótimo, vamos entrar agora.
. . .
Ruby, Diana e Jerry caminham para o armário deles depois de me deixarem no meu. Pelo menos hoje, o corredor não estava cheio de pessoas e Gilbert Blythe provavelmente já estava a caminho da sala. Guardo alguns cadernos, pego outros e colo uma foto na porta do armário, uma foto minha, da Marilla e do Matthew.
— São seus pais? — a voz sussurra ao lado do meu ouvido e viro-me com o susto.
Gilbert Blythe estava lá, e sua voz era suave. O encaro, e seus olhos não estão como ontem, há algo de diferente nele e por mais que eu tente encontrar o que o deixa assim, está camuflado demais para ser visto por olhos carnais.
— Adotivos na verdade — digo sem atacá-lo — moro com eles há dois anos.
— Parece que se dão muito bem.
— Sim, são pessoas incríveis.
O sinal toca e ele abre o armário dele. Penso em perguntar se ele está bem. Mas não digo nada, fico lá estática. Eu queria tentar ser legal, mas como ser legal se eu não sei nem como conversar?
— O sinal tocou — falo — devemos ir.
Ele está parado, olhando para algo dentro do armário.
— Pode ir se quiser — respondeu — não precisa me esperar.
— Certo — falo — então até a aula.
Saio em direção a sala, e Gilbert continua lá na frente do armário aberto com um olhar vazio e frenético. Antes que eu vire o corredor, olho por cima do ombro e o vejo dando um soco na porta. Fico parada, talvez não devesse deixá-lo sozinho. Talvez eu devesse voltar.
Diana e Ruby correm até mim.
— Você está com a cara estranha.
— Não, eu estou bem — falo.
— Vamos logo, o professor Philips é exigente com horário. Se não chegarmos em dez minutos iremos para a detenção.
Elas me puxam, e eu vou. Entramos na sala e nos sentamos, eu logicamente sozinha, já que Gilbert não me acompanhou. O horário tolerado está prestes a acabar, e em segundos o garoto entra na sala já lançando palavras de desculpa. O professor olha o relógio digital, e manda Gilbert se sentar, ele senta ao meu lado. O encaro, penso em novamente perguntar se ele está bem, ele me encara de volta. Seus olhos estão sem o brilho natural. Algo está errado, mas como antes, eu continuo sem coragem para lhe perguntar se está bem. Perco a oportunidade, ele permaneceu a aula inteira calado e depois eu não o vi mais.
Todas as outras aulas, eu fiquei sozinha, as meninas disseram que as vezes ele fazia isso. Mas o que eu não entendo é o porquê.
. . .