De coração para coração.
Sinto o vapor quente na ponta do nariz, e o cheiro forte de canela impossível de ser confundido. Abro os olhos e Diana está segurando minha mão.
— Por Deus Anne, quase matou-me de susto! Pensei que estava morta.
— Vamos querida, tome isso — diz Mary me oferecendo chocolate quente com canela.
— A luz voltou — olho ao redor do cômodo, e me deparo com duas orbes verdes fixas em mim.
Encaro-o por alguns instantes, e desvio. Olhar para Gilbert já não era mais um desejo absurdo e irresistível, e me sinto uma pessoa ridícula ao imaginar que quase me entreguei para ele.
— Você está bem? — sua voz suave ecoa em meus ouvidos.
Não respondo, somente observo o líquido dentro da caneca.
— Eu, eu pensei que ia morrer — digo para Diana — mas sua voz me acalmou, obrigada Diana por manter-me acordada, digo, pelo menos até chegar aqui. Acho que dormi feito um bebê.
— Ah Anne, eu faria novamente, não suportaria perdê-la assim, talvez você pudesse pensar antes de agir, atitudes impensadas geram grande consequências.
Encaro Gilbert que entende com clareza a minha indireta com o olhar.
— É Diana, realmente tais atos podem ser prejudiciais.
— Talvez devessem conversar — ela sugere, só que em voz alta.
Meu corpo ainda estava frio, mas a minha mente estava quente, eu não podia simplesmente escutar silenciosamente as desculpas de Gilbert, eu não merecia ser enganada mais uma vez.
— Eu não acho que seja uma ideia boa — digo — ainda mais porque sei que as coisas estão um pouco bagunçadas em minha mente.
— Por favor Anne — Gilbert diz insistente — preciso contar tudo.
Respiro fundo e penso — ah Anne, você vai se arrepender de ceder mais uma vez.
Contudo, seu olhar cabisbaixo e com as esperanças frustradas, me convence.
— Tudo bem Gilbert — digo.
Ele se senta em minha frente, antes de Diana sair ela aperta minha mão como se fosse um consolo.
— Qualquer coisa, grite — ela sussurra.
— Obrigada Diana.
Em poucos segundos, a sala está vazia.
. . .
(Narração Diana)
— Você ainda não me disse o que houve de errado com eles dois — Jerry cochicha para ninguém escutasse.
Caminho pela sala de visitas com os braços cruzados, atônita para saber por fim o que Anne decidiu, mesmo tendo a certeza de que ela não o perdoaria, talvez nunca. Winifred cutuca o esmalte, Bash e Mary estão se paquerando, e Jerry me segue enquanto vê com clareza a minha inquietação.
Desvio sutilmente os olhos para Winifred, afim de alertar Jerry que a culpada de toda aquela situação era a loira oxigenada. Jerry me encara, com o cenho franzido, enquanto as mãos estão no bolso; sua respiração está forte, e sua expressão demonstra claramente seus pensamentos inundados por injúrias.
— O que? — Winifred o encara — por que está me olhando assim?
Sinto o coração palpitando forte, e o medo de não aguentar minhas reações espontâneas, eu poderia com toda certeza esbofeteá-la a qualquer momento. A raiva era tamanha, que sentia a palma da mão ferver.
— Você veio aqui certamente para estragar tudo — ele acusa — e nem queira saber o que penso sobre sua atitude imunda.
Bash e Mary tentam acalmar a situação. Mas Winifred, com a voz mansa e cheia de classe, se levanta. E responde.
— Eu? — ela aponta para si mesma como se estivesse ofendida — eu jamais viria até aqui estragar um romance, não faz parte do meu... — Ela fita Jerry com desprezo — comportamento.
— Ah claro que não — respondo — até porque, você faz parte de outra categoria — encaro-a de cima abaixo com o mesmo desprezo, ela sabia ser maldosa? Eu também sabia ser. Jerry era bondoso demais para escutar ofensas de uma pessoa como ela.
— Categoria?
— Ah quase me esqueci, lixos tóxicos não tem categoria — ela me encara com a boca aberta, como se estivesse indignada — o que você veio fazer aqui, Winifred? — a encaro com repúdio — veio acabar com a felicidade de Gilbert?
— Eu não vim acabar com ninguém vim porque estava passeando e consequentemente, descobri algo que acho que ninguém gostaria de saber.
— Certo, sinto muito por sua... Infelicidade.
— Infelicidade? — ela diz com sarcasmo — isso você deveria dizer para Gilbert.
— Por que?
— Não é sempre que tem a opção de ficar com alguém como eu, trocar-me por uma... Garota ruiva, teimosa e sardenta, quanto mau gosto.
Em segundos, sinto minha mão direita esbofeteá-la. O barulho é tão alto que todos pulam com o impacto. A jovem loira me encara de cima (levando em consideração que é mais alta que eu) e antes que pudesse devolver o t**a, Jerry me puxa, deixando-a no vácuo.
— Não ouse falar de Anne novamente — aponto o indicador enquanto falo — você deveria ser um pouquinho mais coerente com suas observações. E Anne, é linda e com certeza tem uma alma iluminada. Mas você Winifred, é coberta por escuridão, se existe algo que eu sinto em relação a você é pena.
Ela se senta como se as palavras tivessem tido um grande impacto, e lhe tirassem do fundo do poço de suas opiniões infames.
— O meu bebê não merece isso — ela pousa a mão na barriga enquanto senta.
— Bebê? — Bash e Mary falam em coro surpresos.
— É uma longa história, encaro-os. Mas acho que Winifred tem tempo suficiente para nos contar.
. . .
(Narração Anne)
Gilbert puxa a linha de sua blusa enquanto me encara com o olhar vazio. Quem diria... A pouco estava tão radiante que enxergava sua alegria sem ao menos ele dizer.
— Você deve me dizer a verdade — falo com a voz trêmula, sem saber se é devido ao frio ou ao nervosismo.
— Eu não sei do que ela está falando — ele ergue os ombros.
Sinto verdade.
— Você jura que não se lembra de nada Gilbert? — pressiono-o.
— Me lembro das noites que passei sem ter você Anne. — ele tenta pegar minha mão mas eu tiro antes que o toque aconteça — me lembro de como a brisa do vento à noite batia em meu rosto, e me lembro da lua refletida no mar — ele suspira — me lembro perfeitamente em decidir que voltaria para cá para ficar com você, minha Anne.
Reviro os olhos.
— Perguntei sobre suas noites calorosas no navio Gilbert, não sobre sua saudade de mim.
— Estou lhe dizendo isso porque é a única coisa que aconteceu — ele me encara — a maior parte do tempo eu pensei em você.
— E quando não estava pensando...
— Eu estava sonhando — seu sorriso é manhoso.
Condeno minha mente por querer perdoá-lo, e se ele estiver mentindo, posso garantir que ele faz isso muito bem.
— Então, você está dizendo que é mentira dela? — o encaro.
— Sim.
— Sinto muito Gilbert, mas eu não consigo acreditar.
— Pensei que o que sentimos poderia suportar tudo, até invenções e mentiras. — ele desvia o olhar — mas acho que não é forte o suficiente. É uma pena saber que tudo pode acabar por causa de uma invenção.
— Talvez Gilbert, se for uma invenção isso possa ser consertado. Mas no momento estou decidida a não continuar.
— O r**m é saber que se isso se resolver, pode ser tarde demais para nós.
— Isso só o tempo irá dizer — falo — agora deixe-me descansar, acho que a noite foi tempestuosa demais e acabou tirando toda minha energia, sanidade, e etc.
Ele se levanta e antes de sair, fala em sussurro.
— Boa noite, ruivinha.
Tento sorrir, penso em responder, mas quando ele sai, a única coisa que consigo fazer é cobrir minha cabeça e chorar...
. . .