Mentiras

3073 Palavras
Não me dou ao trabalho de bater na porta. Chuto-a com toda minha força e vejo a maçaneta quebrar com o impacto. E a porta se abre. Dentro do quarto, na cama, se encontra Jason aos beijos com uma das empregadas. Instantaneamente a moça com o tronco exposto se constrange e cobre suas vergonhas. Meu irmão, porém, não parece abalado ou incomodado com minha presença. Ele manda que a moça se retire e ela obedece abandonando o cômodo o mais rápido que pode. Jason me manda um sorriso de lado enquanto recolhe sua camiseta do chão e a veste. Era como se ele estivesse esperando pelo momento. O que instantemente me incomodou e deixou-me desconfiado. Apesar disso estava sendo movido pelos meus sentimentos. Pela raiva e rancor acumulados por anos.  —Você é desprezível! Eu nunca imaginaria que tinha sido você — digo transbordando em ódio. Ouso os passos apressados de Stefany descendo os degraus e se aproximando de nós. Mas não ligo. —Por que irmão? — Jason diz fazendo-se de desentendido. Sua voz tem um tom bondoso e calmo. Que parece não condizer com sua face de deboche. Ele está atuando?  Por quê? Eu percebi que existia algo por trás de suas atitudes que denunciavam suas más intenções. Mas minha raiva falou mais alto. —Se ousar fazer algo assim novamente. Terei prazer em matá-lo com minhas próprias mãos. Jeffrey não vai protegê-lo mais. E mesmo que ele tente... acabarei com os dois— disse e sai dali rapidamente. Enquanto afastava-me esbarro em Stefany. Ela parece assustada e confusa. Mas não paro para lhe explicar nada. Melhor mantê-la fora daquilo. Arrasta-la para isso seria envolvê-la mais ainda em nossa família. E nos nossos problemas. Era injusto com ela. Sua face inocente tomada pela genuína preocupação. Eu faria o meu melhor para livrá-la do fardo que nosso casamento seria. Porém, no momento tudo que queria era espaço. Sai do castelo em direção a floresta. Em busca de encontrar a colina no norte da densa mata. O local que sempre me acolheu dês da infância. Onde podia refletir sem ninguém para incomodar. Onde as estrelas eram a melhor companhia.                                                                                       Stefany Bieber   Demora alguns segundos para me dar conta do que aconteceu. Meu pescoço dói pela brutalidade que a gargantilha foi retirada. E confusa permaneço parada até que decido seguir John. Eu devia impedi-lo de fazer alguma besteira. Já que o objeto deve lhe ter feito tirar conclusões erradas. Corro atrás dele, imaginando que o mesmo foi tirar satisfação com Jason. E o encontro saindo do quarto do irmão. Ele esbarra em mim e sua irritação é perceptível. Tento falar algo, mas ele passa como um furacão sem me dar tempo para fazer ou falar nada. Penso em segui-lo. — Deixe-o Stefany. Ele precisa de um tempo sozinho— a voz triste de Jason chama minha atenção. John deve ter vindo brigar com irmão. Provavelmente pensa que nos dois temos algum tipo de envolvimento. Eu deveria esclarecer a situação. Mas a essa altura não tenho noção de para onde John foi. Sair em busca dele a esmo seria bobagem. —Desculpa-me. Não queria isso. Ele interpretou as coisas errado— disse mostrando a ele o tecido de veludo rasgado que a poucos minutos compunha a bela gargantilha. —Não é sua culpa. Eu não devia ter lhe dado isso— ele diz se aproximando e pegando o tecido n***o de meus dedos em um movimento delicado que denunciava certo apego a peça. —Por que diz isso? — questiono com a curiosidade borbulhando em meu ser. — Esta gargantilha pertencia a Olivia, minha amada noiva. Não me espanta que ele tenha tirado conclusões erradas. John tem razão em sentir raiva— sua voz demostrava certa dor que ele pareceu incapaz de esconder ao relembrá-la. Olivia?! Agora as oliveiras que envolviam o leão no desenho do medalhão faziam sentido. Ele devia amá-la muito. Para lhe dar um presente tão bonito e delicado. —Ela era uma plebeia— ele passou o polegar pelo tecido de veludo com carinho — Jeffrey mandou matá-la semanas antes do casamento. Meu pai não deixaria o nobre herdeiro Bieber se casar com uma moça plebeia. Uma empregada.  Por causa disso que estive fora nos últimos anos. Não conseguia suportar ficar depois do que houve. Mas voltei quando soube do casamento do John. Ele é meu irmão. Sei que nosso relacionamento não é um dos melhores. Mas queria estar aqui para ele quando o mesmo fosse coroado — Jason disse e o vi colocar o tecido rasgado de volta na caixa de prata. Ele guardaria aquilo? Então minha mente entendeu que foi a única coisa que lhe restou dela. Uma lágrima solitária corre por sua face e ele rapidamente a seca. Como se não quisesse chorar na minha frente. Comovida pela situação de dele. E sem saber o que fazer, eu o abraço.  Tentando de alguma forma lhe confortar. Afinal, em seu ciúme John arruinou a única memoria que o irmão tinha de seu verdadeiro amor. Jason parece surpreso com meu ato. Inicialmente ele está desconcertado, completamente parado e distante, mas por fim correspondeu meu abraço murmurando um “Obrigado”. Como se houvesse entendido minha intenção e apreciado o gesto. Eu nunca tinha abraçado um homem. Ele tinha um cheiro agradável. Algo como uma brisa fria. Naquele momento, quando olhei nos seus olhos, pela primeira vez não vi nenhum mistério ou enigma.  Vi um homem ferido por uma criação duvidosa. Que o forçou a criar uma carcaça fria e distante para se manter dentro dos padrões esperados. Então seus olhos se tornaram foscos novamente. E nos afastamos. A pessoa cujas intenções eram um mistério para mim estava de volta.   —Melhor você ir, não queremos mais problemas— ele disse seriamente.   Provavelmente se John visse aquilo, só pioraria as coisas. Então sai o mais rápido que pude.                                                                                    John Bieber   A memória de Olivia voltou a mim como um fantasma. Olhei novamente para o medalhão em meus dedos. Eu tinha 14 anos quando o fiz. Nunca fui o melhor ferreiro. Espadas sempre foram meus melhores trabalhos. Fazer algo delicado como aquela peça demandou vários dias. Eu a amava? Não. Hoje tenho noção que era jovem demais para compreender o significado da palavra amor. E o que sentia era mera atração. Alguns dias depois de entregar a ela a gargantilha de presente. A jovem desapareceu. Na época, em minha mente só existia uma explicação para aquilo. Jeffrey devia ter mandado que uns de seus assassinos liquidasse a moça. Meu pai só se importa com uma coisa e isso é nome da família. Ele com certeza esperava que eu me envolvesse com alguma nobre. Ou uma jovem de boa família. Como o meu irmão Mark. Ele se casou com Emily, uma burguesa. O casamento não sofreu nenhuma intervenção do nosso pai. Já que para ele a família Fox, era uma aliança estratégica bem-vinda. Mas eu passei a desejar aquela empregada. Não foi difícil concluir que Jeffrey a matou. E por anos acreditei nisso. No fim, havia sido Jason. Meu irmão. Jamais poderia ter imaginado algo assim. Ele não tinha motivos. Pelo menos eu não conseguia vê-los. Apesar disso não duvidava da capacidade de Jason. Em alguns pontos ele parecia muito com Jeffrey. Provavelmente porque ele sempre foi aquele que passou mais tempo com nosso pai. Jeffrey sempre deu mais atenção a ele. Sendo o herdeiro teve várias aulas e preparações para se tornar o nobre representante da família. Estas que meu pai tinha prazer em avaliar e acompanhar. E esse tempo extra teve suas consequências. Analiso o medalhão novamente. Eu devia m***r Jason. Eu compartilhei com ele o que aquela pessoa significava. Foi o único com quem me abri sobre isso. E saber o que ele fez com a informação encheu-me de fúria. Pensar que ele era capaz de liquidar uma jovem inocente. Independente das minhas emoções sobre ela, faziam me considerar a vingança. Mas quando pensava mais sobre a ideia conseguia ver melhor como nos dois somos diferentes. Sou incapaz de levantar-me e seguir os planos vingativos que minha mente criava. No fundo era incapaz de ferir meu irmão ou meu pai. Mesmo ciente das pessoas terríveis que eles são. Não consigo matá-los.                                                                                        Jason Bieber   Lembrava-me bem da moça. Era jovem, mas possuía corpo de mulher. Provavelmente a beleza física foi o que atraiu meu irmão. John confiou a mim seus sentimentos a respeito da nova empregada. Como seu irmão mais velho senti-me lisonjeado por ter considerado ouvir meus conselhos a respeito. John sempre foi muito fechado e discreto. Raramente compartilhando seus sentimentos. Sempre foi um homem de poucas palavras. Jamais teria notado se ele não tivesse falado abertamente. Os comentários dos nossos irmãos, porém conseguiam destruir qualquer fantasia romântica jovem dos fatos. Quando lhe perguntei, Fred me disse que Olivia era o tipo de mulher que daria qualquer coisa que eu quisesse se lhe desse uma moeda de ouro. Eu não precisava pagar para ter o que ele dizia. Conseguia facilmente de graça. Não precisava ficar com ela. Mas ver quão t**o era John a tratar uma mulher como aquela, como uma dama dava-me náuseas. Ela devia ter uns 15 anos, eu uns 21.  Era uma tarde tranquila de dezembro quando a encontrei no celeiro. Há apenas alguns metros do castelo. Pedi a Fred que combinasse com a moça. Quando cheguei ela já me aguardava lá. Fingindo distração mesmo tendo visto-me sair do castelo. Tinha longos cabelos escuros. Um sorriso m*l-intencionado. Todos os indícios estavam ali. Claramente uma empregada cheia de ambição. Assim que cheguei tranquei a única saída. Queria impedir que ela fugisse ou que alguém nos interrompesse. Mas ela não parecia temer a mim. Não parecia considerar uma fuga. A jovem sorriu largo assim que repousou seu olhar sobre mim. Transbordando em expectativa e malicia. O que apenas confirmou meus pensamentos iniciais. —Achei que não viria mais—Olivia fingiu tristeza fazendo um bico— Sabe estava ansiosa para conhecer o próximo rei— analisando-me da cabeça aos pés e mordendo o lábio inferior. Deixando claro que minha aparência física lhe agradava. Como muitas, acreditava que podia fazer com que eu me apaixonasse por ela e com isso obteria a posição impossível de rainha. Estava redondamente enganada, obviamente. Primeiramente porque eu não era o primeiro na linha de sucessão. Mesmo que meu pai agisse como se fosse. Segundo porque sou incapaz de me apaixonar. Amor é um sentimento de tolos. E terceiro por que mesmo que fosse remotamente possível que eu me apaixonasse o tipo de pessoa que essa jovem era por opção me deixava enojado. Uma repulsa maior que qualquer outro sentimento. —Fred disse que você faz qualquer coisa por uma moeda de ouro— disse direto a encarando sem paciência. Foi quando meu olhar parou sobre a gargantilha. O mesmo objeto que John havia me questionado anteriormente se era um presente ideal para uma dama. Essa mulher não era uma dama. Mas julgando pelo tempo que ele passou no ferreiro e os machucados visíveis em suas palmas era obvio que ele mesmo fez a peça.  Aproximo-me da jovem. Rompendo a distância entre nós e levando os lábios próximos aos seus ouvidos.   —Preste atenção em minhas palavras sua oportunista de m***a. Você vai desaparecer do castelo. Vai deixar meu irmão em paz. E eu gentilmente retribuirei a gentileza com este saco de moedas— disse tudo desejando que minhas palavras soassem ameaçadoras o suficiente. E que o saco de moedas que coloquei em seus dedos enquanto as dizia fossem o suficiente para que nunca mais a vise. Ela sorriu grandiosamente, demonstrando que sim. Assim como esperava de uma mulher cheia de ganância, mas desprovida de cérebro. —E caso pense em voltar. Saiba que se chegar perto do meu irmão t**o novamente. Eu mesmo lhe cortarei a garganta — completei sombriamente fazendo sua postura descontraído sumir por alguns segundos. Ela deu alguns passos em direção a porta. Porém, hesitou se virando para encarar-me novamente. — É uma pena. Eu queria realmente descobrir qual era o seu gosto — ela disse com um sorriso malicioso. E deixando a língua deslizar pelos lábios carnudos. Entretanto fez menção de ir embora. Eu a impeço antes disso. E o sorriso maroto retorna a sua face. —A gargantilha, devolva-me— apontei. Eu obviamente não deixaria o objeto com ela. —Não vale nada mesmo—Ela disse removendo-a — Só tem um pouco de prata. Eu falei com o joalheiro—ela disse. Claro que uma mulher como ela. Quando ganhou a joia foi atrás de um especialista para ver quanto o objeto podia lhe render. —Talvez não tenha valor para você— disse pegando o tecido de veludo entre os dedos. Depois disso ela partiu. Nunca mais ouvi falar sobre ela. Foi o melhor. Uma mulher como aquela com o coração de um Bieber nas mãos seria um grande problema. O saco de moedas foi um preço pequeno. Olhei novamente para a caixa ornamentada que havia me levado a reviver aquele momento do passado. Quando o John invadiu meu quarto demorei alguns segundos para entender sobre o que ele se referia. Certamente ficou insultado com a minha audácia em dar o objeto a sua esposa. Sabia no momento que a entreguei a gargantilha que tinha altas chances de gerar uma situação do tipo. E no momento que o fiz pensei que podia gerar algo bom para mim. Estava correto. John é reservado demais com seus sentimentos para contar a Stefany o verdadeiro motivo de sua chateação. Por sua vez Stefany concluindo que a reação dele foi movida por ciúmes não tocará mais no assunto. E no fim eu fui quem sai por cima nessa história. Porque não importava a que conclusão John chegasse com o conhecimento que adquiriu ao descobrir que provavelmente eu fui o último a ver sua paixonite do passado. Ele não faria nada. Stefany a partir de então me veria como um homem ferido pelo destino. Sua pena podia ser uma ferramenta para atingir seu coração. Mas ao mesmo tempo ver aquele medalhão novamente havia me lembrado do motivo pelo qual o guardei. Era uma lembrança do momento que meu irmão mais novo precisou de mim. Julgou que era a pessoa certa para dividir seus sentimentos. Que me viu como um conselheiro apto. A memória de nossa única conversa sobre mulheres aqueceu meu coração com uma certa nostalgia. Não seria falso e diria que nós éramos diferentes na infância. Porque na verdade nos desentendíamos ainda mais naquela época. Acredito que nascemos como polos iguais de um imã onde perto o suficiente entravamos em conflito. Apesar disso ligados por um laço de sangue imutável e inquebrável.                                                                                      Stefany Bieber Depois do que houve retornei ao meu quarto. Fiz um grande esforço para dormir. Mesmo com minha cabeça longe. Pensava em para onde teria ido John. Desejava que ele não fizesse nada perigoso ou se colocasse em perigo. Esperava que ele estivesse seguro e bem em algum lugar no castelo. Mas dormi sem receber nenhuma resposta. O clima só piorou dês do desentendimento gerado pela gargantilha. Parecia que todos dentro daquela casa estavam se evitando mutualmente. Estava chateado com John, seu jeito impulsivo de agir naquele dia e o fato de que as dúvidas continuaram na minha mente mesmo com o amanhecer. Levaram-me a concluir que só devia falar com ele depois que o mesmo desse o primeiro passo. Além de explicar o que houve, queria que o mesmo se desculpasse com o irmão. Apesar de compadecer da tristeza que os acontecimentos causaram a Jason. Não me sentia á vontade para conversar com ele. Movida por instinto e uma sensação de que devia manter distância dele. Passei a evitá-lo também. Enquanto isso Jason parecia magoado demais com o irmão para ir atrás de suas merecidas desculpas. Assim como também parecia ocupado com suas próprias tarefas e projetos. As raras vezes que o vi pelo castelo nos dias que se passaram ele demonstrava ter muito o que fazer. Já que estava sempre acompanhado de burgueses e membros do ciclo. Ele pareceu respeitar meu distanciamento. Já John, era uma real incógnita. Enquanto podia supor que Jason estava ocupado com afazeres rotineiros de um nobre herdeiro. Eu sequer encontrava John para supor qualquer coisa. Sabia que ele estava no castelo já que as empregadas cochichavam. Ainda mantinha uma pose de medo e admiração ao seu respeito. E seu ar imponente permanecia nos cômodos alguns segundos após ele abandoná-los o que me fazia imaginar que o mesmo estivera ali. Outra coisa que demostrava isso era o bolo confeitado de framboesa. Sabia que era o café da manhã e sobremesa favoritos de John. As empregadas sempre se preocupavam em fazê-lo todos os dias.  Sempre me senti tentada a roubar uma fatia apenas para descobrir o que tinha de especial na receita para lhe agradar tanto. Mas qualquer menção minha de comer o bolo e as empregadas iam a loucura. Quase como se estivesse à beira de cometer um crime de estado. Não qualquer crime. Mas um digno de prisão perpétua ou pena de morte. Em minha solidão, consegui me aproximar mais dos empregados. Buscando fazer pequenos gestos amigáveis. Convidei Sophie, a moça que prontamente respondeu minhas perguntas no primeiro dia, para um café. Tivemos uma conversa muito divertida e nos aproximamos muito. Ainda mantínhamos uma clara hierarquia entre nós. Mas gostava de pensar que estávamos construindo uma amizade aos poucos. Sophie é mais jovem que eu e trabalha no Castelo Dourado a muitos anos. Ela me revelou várias coisas sobre o ele. O castelo possuía muitos segredos. Assim como a própria família acho. E alguns pequenos ambientes pela construção eram verdadeiros tesouros. Lugares belos, tranquilos e confortáveis que faziam do edifício abundante de ouro em mais do que um castelo vazio fundado para ostentar poder aos que a sociedade julgava serem menores. Mas também um livro aberto contendo a história daqueles que viveram ali. Quando me sentava no sofá, ou quando passava nos corredores. Gostava de imaginar as histórias que aquelas paredes e objetos podiam contar. Uma marca mais evidente na parede ao fim da escada principal denunciava que alguém sofrerá ali uma queda. Mas quem? Está pessoa ficou bem? Tantos mistérios. Gostaria de saber o que ali denunciava momentos da infância de John por exemplo. Porém, pareciam apenas mais perguntas para a lista que estava se acumulando em minha mente.
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