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1652 Palavras
Cobra Narrando A vida nunca foi fácil pra ninguém que nasce no morro. Mas pra preto, favelado e sem pai, ela vem no soco. Eu aprendi cedo que ou cê corre atrás, ou fica pelo caminho. E eu nunca fui de ficar pra trás. Nasci e cresci no Santa Marta, onde o asfalto some e a lei é outra. Minha mãe, Dona Marta, fez o impossível pra me criar longe dessa p***a de vida, mas o morro chama. O crime, a grana, o respeito… É tudo sedução pra quem cresce sem nada. Muleque novo, eu já tava metido nas parada. Primeiro, levando recado, depois segurando carga, vendendo bagulho pros cliente. Quando vi, já era homem de confiança do chefão. Mas eu queria mais. Sempre quis mais. — “Tu é muito ambicioso, Caio” — os cara falava. Porra, e tinha que ser mesmo. Aqui ninguém dá nada pra ninguém, e eu nunca aceitei menos do que eu merecia. O tempo passou, e quando chegou minha hora, eu tomei o morro pra mim. Fiz guerra, derramei sangue, cobrei traição. Os que ficaram do meu lado tão comigo até hoje. Os que não ficaram? Tão no chão ou sumiram. Agora, o Santa Marta é meu. Dono do morro, o Cobra. Nome veio da tatuagem, uma cobra que começa no meu peito e desce pelo braço. Peguei na época que eu ainda era soldado. Simboliza lealdade, estratégia. Cobra não dá bote à toa, mas quando dá, não erra. Igual eu. Com poder veio a grana. E com grana veio as mulher. Já tive muita, já peguei mais do que lembro. Mas nem toda mulher vale o tempo de um homem como eu. A maioria quer status, quer dizer que foi “a mina do Cobra”, quer viver no luxo sem dar nada em troca. Débora… essa eu achei que fosse diferente. Ela chegou quando eu já tava no topo. Malhada, loira de farmácia, peito de silicone, b***a redonda de lipo. Padrãozinho que geral baba. No começo, era só f**a boa e risada. Depois, veio o rolo de casar. Na época, eu achei que fazia sentido. Mulher bonita do lado, casamento de fachada, vida de patrão. Só que o tempo mostrou que beleza não segura p***a nenhuma. Débora quer grana, quer atenção, quer que eu largue tudo e vire maridinho de i********:. Mas essa vida aqui não tem espaço pra isso. Eu sou o Cobra, o dono dessa p***a toda. Meu tempo não é dela. As briga começou pequena, depois virou rotina. Ela reclama que eu não tô em casa, que eu só penso no morro, que eu não quero saber dela. E talvez seja verdade. Eu já não sinto a mesma coisa. — “Tu não me come mais igual antes, Caio!” — ela gritou outro dia, jogando um copo na parede. Eu ri. Porque eu realmente não como. Foda que largar não é tão simples. Mulher quando acostuma no luxo, não aceita perder. Débora pode ser vazia, mas não é burra. Sabe que se terminar, volta a ser só mais uma mina padrão, enquanto eu continuo sendo o Cobra. Ela acha que sabe jogar, mas eu sou dono do jogo. No fundo, eu sei que nossa parada já era. Só tô esperando o momento certo. Enquanto isso, eu sigo minha vida. As mulher que eu tenho por fora, ela desconfia, mas não fala nada. Melhor fingir que não vê, quer dizer, ela ja viu mas depois fingiu que nada aconteceu. Foi escolha dela po… E, no meio dessa p***a toda, tem minha mãe. A única mulher que eu realmente me importo. Quando ela ficou doente, foi como se o chão sumisse. Eu sou o cara que resolve tudo, que comanda um exército. Mas contra essa merda de doença, eu não posso fazer nada. Então, eu faço o que posso: dou tudo pra ela. Casa, conforto, comida. Só que Dona Marta é teimosa. Acha que pode viver como antes, como se nada tivesse acontecendo. Porra, mãe, eu te amo, mas cê não tá entendendo que eu não posso perder a senhora. Botei uma equipe inteira pra cuidar dela. Mas a mulher não gosta. Vive batendo de frente comigo, dizendo que eu tô exagerando, que ainda não morreu. O sol nem nasceu direito e eu já tô de pé. No corre, como sempre. A vida de quem manda no morro não tem descanso. Mas hoje, antes de qualquer coisa, eu passo na casa da minha mãe. Entro sem fazer barulho, o cheiro de café já se espalhando pela casa. Na sala, uma enfermeira tá sentada, mexendo no celular, uniforme branquinho, cara de quem acabou de acordar. Nem lembro o nome. Só sei que minha mãe já não simpatizou. Passo reto, chego na cozinha. Dona Marta tá sentada na mesa, café na mão, conversando com a cozinheira da casa — Bom dia, minha rainha — digo, sentando ao lado dela. Ela levanta a sobrancelha, botando a xícara devagar na mesa. — A nojenta loira deixou cê vir tomar café comigo? Solto uma risada baixa, balançando a cabeça. — Cê não muda, né, mãe? — E tô errada? — Ela cruza os braços, me encarando. — Aquela lá só quer mordomia. Pego um pão da mesa e dou uma mordida, olhando ela de canto. — Débora tá dormindo. Ela solta um riso debochado, mexendo o café devagar. — Claro que tá. Uma hora dessas, né? Não limpa uma casa, não lava uma louça, não trabalha. Vai acordar cedo pra quê? Eu rio, puxando ela pra um abraço, enchendo de beijo. — Hmmm, te amo, mãe. Ela faz uma careta, tentando se soltar. — Sai, Caio! Vai me sujar todo de barba. Eu sorrio, passando a mão no cabelo dela. — Como cê tá se sentindo hoje? Ela suspira e dá um gole no café. — Tô ótima. Dormi tão bem essa noite… Meu peito alivia. Vejo o sorriso dela e fico em paz. Se ela tá bem, eu tô bem. — E o almoço, mãe? Vamo escolher o que pedir pra fazer? Ela ri, coçando o queixo, pensativa. — Queria uma moqueca de peixe… com bastante camarão. Sorrio, apontando pra ela. — Teu desejo é uma ordem, minha rainha. Olho pra cozinheira, que tá de pé perto do fogão, e faço um sinal com a cabeça. Ela já entende, sai da cozinha pra providenciar tudo. Mas aí, Dona Marta me solta uma que já sei que vai dar r**m. — Ai, Lília… eu vou na feira contigo, então. Meu semblante fecha na hora. — Claro que não, mãe. Nunca. Ela me olha na mesma hora, franzindo a testa. — Que p***a é essa, Caio? Vai me prender dentro de casa agora? — Cê sabe que não pode, mãe. Ela se levanta da mesa com raiva, batendo a mão no tampo. — Eu não posso por quê? Hein? O que vai acontecer comigo se eu sair na rua pra comprar um peixe, Caio? Eu vou morrer? — Mãe… — Para de me tratar como uma doente terminal, moleque! — Ela bate no peito, furiosa. — Eu ainda tô viva! Eu tenho que viver! Fecho os olhos, respiro fundo. — Eu só quero te proteger, mãe. Ela ri, debochada. — Proteger o c*****o! Cê quer me ver morrer mais rápido me impedindo de viver. Fico calado. Sei que, na cabeça dela, faz sentido. Mas na minha, eu só tô fazendo o certo. Ela suspira fundo, balança a cabeça e sai da cozinha, irritada. Fico ali, quieto, passando a mão no rosto. Eu não sei como lidar com isso. Sou o cara que manda no morro. O cara que resolve qualquer problema. Mas quando se trata da minha mãe, eu sou só um filho desesperado, tentando segurar o tempo na palma da mão. Tô sentado ali, ainda puto, tentando controlar o estresse. Minha mãe me tira do sério. Ela sabe que tira. Mas aí, quando acho que ela vai ficar no quarto emburrada, escuto os passos vindo do corredor. Quando levanto o olhar, quase dou um treco. Dona Marta surge na cozinha de vestido estampado, brincão dourado, óculos na cara e até batom passado. Cheirosa, como se fosse pra festa. Fico só olhando, já sentindo o sangue esquentar. — Onde cê vai, cara? — pergunto, me recostando na cadeira, cruzando os braços. Ela respira fundo, ajeitando a bolsa no ombro. — Eu vou fazer feira junto com a Lília do nosso almoço, Caio. — Não é possível… Ela me encara, dura. — Eu posso ir. E não vou me cansar. Fecho os olhos e solto um sopro cansado. Sei que discutir com ela é perder tempo. Mas c*****o, que mulher teimosa. Meto a mão no bolso, puxo umas notas e largo em cima da mesa. — Tá aqui. Ela abre a boca pra reclamar, mas levanto a mão, já cortando. — Não quero ao menos ver a senhora pegando peso, ouviu, Lília? A cozinheira, que tava só de canto, balança a cabeça rápido. — Pode deixar, Cobra. Mas minha mãe já me olha torto. — Tu acha que eu sou o quê? Uma velha inválida? — Acho que se eu ver ou souber que cê pegou sacola de feira pesada, eu vou voltar aqui e a coisa vai ficar muito feia. Ela cruza os braços, levantando o queixo, cheia de marra. — Vai me bater, Caio? Eu rio, mas é um riso seco, irritado. — Vou, mãe. Com um beijo bem grande na testa. Ela revira os olhos e sai andando. Eu fico ali só olhando, sentindo o peso no peito. Eu amo essa mulher, p***a. Mas ela me testa. Levanto da cadeira, meto a mão no bolso de novo e pego o celular. A irritação ainda ferve em mim. Não posso perder tempo aqui, tenho coisa pra resolver. Saio da casa e desço a viela até a boca, onde o corre já tá rolando. Bora trabalhar.
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