O QUE FOI ENSINADO

399 Palavras
ANTES O presente chegou sem embrulho. — Segura. Morgana tinha oito anos. A faca era pesada. Grande demais pra mão pequena. Mas ela não deixou cair. Don Giuseppe observava. Imóvel. — De novo. Ela atacou. Errado. Lento. Previsível. A correção veio rápido. Dor. Seca. Sem aviso. Ela caiu. O ar fugiu do peito. Mas não chorou. Não mais. — Levanta. Ela levantou. Sempre levantava. — Você não pode hesitar. Ele disse. — Hesitação mata. Silêncio. — Fraqueza mata. Aquilo entrou. Fundo. Ficou. 🩸 Dias viraram rotina. Treino. Erro. Dor. Correção. E repetia. Até o erro sumir. Ou até ela deixar de sentir. 🩸 A primeira vez que viu alguém morrer… não foi surpresa. Foi aula. Ela observou. Atenta. Como mandaram. Sem desviar. Sem tremer. — Presta atenção. A voz ao lado. — É assim que se faz. E ela prestou. Aprendeu. Gravou. 🩸 A primeira vez que participou… não foi escolha. Foi ordem. E ela obedeceu. Porque era isso que tinha aprendido. Obedecer. Ser útil. Não falhar. Não sentir. 🩸 Algumas vezes… ela também foi colocada no outro lado. Testada. Até onde aguentava. Até onde quebrava. Ou não. E ela não quebrou. Nunca. 🩸 Com o tempo… a faca deixou de ser pesada. Virou extensão. Precisão. Controle. E então veio o presente. A Karambit. Preta. Fria. Cravejada de vermelho. Como sangue seco. Don Giuseppe colocou na mão dela. — Agora você tá pronta. Ela olhou. E pela primeira vez… não viu uma arma. Viu propósito. 🩸 — Você não é fraca. Ele disse. — Nunca vai ser. Aquilo… foi tudo. Mais do que casa. Mais do que promessa. Aquilo era valor. Era identidade. E ela aceitou. Sem questionar. 🩸 AGORA Morgana girava a karambit entre os dedos. Movimento automático. Preciso. Natural. Como respirar. Anna observava. Em silêncio. — Você sempre foi assim? A pergunta veio leve. Mas carregada. Morgana não parou o movimento. — Assim como? Anna hesitou. — Forte. Silêncio. Morgana deu um meio sorriso. Pequeno. Quase inexistente. — Eu aprendi. Resposta simples. Mas não completa. Nunca completa. Anna sustentou o olhar. — Às vezes eu acho que você nunca foi criança. Aquilo… ficou. Um segundo a mais. Mas Morgana só respondeu: — Fui o suficiente. Mentira. Mas era a única versão que ela aceitava. FINAL A faca parou. Na mão dela. Firme. Segura. Como sempre. Porque no mundo dela… não existe espaço pra fraqueza. E nunca existiu.
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