À MESA

616 Palavras
ANTES DO JANTAR O escritório ainda carregava o peso da conversa anterior. Leon entrou. Sabia que tinha sido chamado. Sabia por quê. Don Giuseppe não perdeu tempo. — Você acha que eu não vejo? Direto. Leon não respondeu de imediato. Sustentou o olhar. — Sempre viu. Calmo. Sem negar. Não fazia sentido negar. Don Giuseppe assentiu. — Desde o começo. Pausa. — Só mudou a forma. Silêncio. — Agora é mais perigoso. Leon encostou levemente na mesa. — Eu controlo. Resposta rápida. Automática. Errada. Don Giuseppe soltou um meio sorriso. — Não controla. Simples. Verdade. — Mas sabe esconder. Olhar firme. — E é isso que importa. Silêncio. — Não me interessa o que vocês fazem. Pausa. — Me interessa o que isso causa. Mais perto. — Negócio não pode sentir. — Família não pode rachar. Cada palavra… colocada. — Se isso cruzar qualquer uma dessas linhas… Ele não terminou. Não precisava. Leon assentiu. — Não vai. Mas a voz… não tinha tanta certeza quanto queria. Don Giuseppe percebeu. Claro que percebeu. Mas deixou. Porque agora… era questão de tempo. 🩸 A casa se preparava. Luzes. Mesa posta. Cheiro de comida. Tentativa de normalidade. Eleanor em movimento. Organizando. Controlando o caos do jeito dela. Sem gritar. Sem impor. Só mantendo tudo de pé. 🩸 Um por um desceu. Anna primeiro. Leve. Falante. Gianni depois. Mais quieto. Mais pesado. Leon… controlado. Como sempre. E então… Morgana. Última. Como se soubesse o efeito. Vestido preto. Simples. Mas não inocente. Ajustado. Marcando. Presença. Os olhos castanhos mais vivos. Mais intensos. E por um segundo… ninguém falou. 🩸 Gianni desviou primeiro. Rápido. Como se olhar fosse errado. E talvez fosse. A culpa apertou. Mais uma vez. 🩸 Leon não desviou. Nem por um segundo. Os olhos fixos. Diretos. Sem vergonha. Sem cuidado. E ali… não era só o vestido. Era memória. Era toque. Era o que ele já tinha visto. E o que não conseguia esquecer. 🩸 Don Giuseppe observava. Não ela. Mas eles. Todos. Cada reação. Cada silêncio. Cada desvio. E confirmava. Em silêncio. 🩸 — Meu Deus, olha você. Anna quebrou. Sorrindo. Leve. — Tá absurda. Morgana travou um segundo. Algo raro. — Para. Baixo. Quase tímido. Anna riu. — Não, eu vou falar mesmo. Apontou. — Se eu fosse homem, tava perdida. Gianni engasgou com a própria respiração. Leon soltou um ar pelo nariz. Disfarçando. Mal. Morgana desviou o olhar. Mas corou. De leve. E isso… não passou despercebido. 🩸 O jantar começou. Conversas leves. Forçadas no início. Mas Anna… segurava. Puxava assunto. Mudava o clima. Criava risos onde não existiam. E aos poucos… funcionou. 🩸 Mas nem tudo. Porque alguns silêncios… não saem. 🩸 Leon ainda olhava. Entre uma fala e outra. Entre um gesto e outro. Sempre voltava. Pra ela. E cada vez que voltava… lembrava. Do quarto. Da noite. Do jeito que ela tinha cedido. Do jeito que ela tinha ficado. E isso… não ajudava. Nada. 🩸 Morgana sentia. Claro que sentia. E evitava. Mas falhava. Às vezes. E quando falhava… os olhos encontravam os dele. Por um segundo. Dois. Tempo demais. E então desviava. Como se não tivesse acontecido. Como se desse pra apagar. 🩸 Gianni via. Não tudo. Mas o suficiente. E aquilo… doía. Porque ele não entendia. Mas sentia que tinha algo ali. Algo que ele não fazia parte. E talvez nunca fizesse. 🩸 FINAL O jantar terminou melhor do que começou. Risos. Conversas leves. Quase normal. Quase. Porque por baixo da mesa… ninguém estava em paz. E Don Giuseppe sabia. Desde o primeiro olhar. E continuava observando. Esperando. Porque ele não interrompia histórias assim. Ele deixava acontecer. Até o ponto certo. E quando esse ponto chegasse… ninguém ali sairia ileso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR