Capítulo 75

987 Palavras
Entre Rotinas e Saudade A casa estava silenciosa naquela manhã. Adrian percebeu isso no instante em que fechou a porta do quarto e caminhou até a cozinha. Não havia o som suave de Samuel resmungando no berço, nem a voz baixa de Lúcia falando com ele como se o bebê entendesse cada palavra. O silêncio não era r**m, mas era diferente. Um silêncio de ausência. Ele respirou fundo e tentou se concentrar. Precisava retomar a rotina no escritório. Os dias em casa tinham sido necessários, importantes, mas o trabalho acumulado não esperava. Processos, reuniões, prazos. O mundo seguia girando, mesmo quando a vida mudava completamente. Enquanto preparava o café, lembrou-se do sorriso de Lúcia quando ele perguntou, na noite anterior, se ela queria passar o dia na casa dos pais. — Você quer ir pra lá amanhã? — ele perguntou, com cuidado, como quem oferece algo precioso. Ela tinha olhado surpresa. — Posso? — Claro que pode — respondeu. — Vai fazer bem. Você fica um pouco com eles, descansa… eu busco você e o Samuel à noite. O sorriso dela foi imediato. Um sorriso largo, verdadeiro, quase infantil. — Faz tempo que não fico lá assim… sem pressa. Mas, logo depois, veio a preocupação. — Adrian… e você? O que você vai comer? Ele riu na hora. — Eu sobrevivo, princesa. Não se preocupa comigo. Vai se divertir. Lúcia ainda fez aquele olhar desconfiado, típico dela, como quem já estava calculando se ele ia mesmo comer direito. — Promete que vai se alimentar direito? — Prometo — respondeu, dando um beijo na testa dela. Agora, sozinho na cozinha, Adrian sorriu ao lembrar disso. Ele seguiu para o escritório depois de se arrumar. O prédio parecia o mesmo, mas ele não era. Os colegas comentaram que ele estava “mais sério”, “mais centrado”. Alguns diziam que era coisa de homem casado. Outros, que era paternidade. Adrian sabia que era tudo isso junto — e mais um pouco. Tentou se concentrar nos papéis, mas a cabeça, de vez em quando, fugia para outro lugar. Na fazenda, Lúcia chegava à casa dos pais com Samuel no colo. Dona Alice abriu a porta antes mesmo que ela batesse. — Minha filha! O abraço foi apertado, cuidadoso por causa do bebê, mas cheio de saudade. — Entra, entra… deixa eu ver esse menino. Seu Raul apareceu logo atrás, sério como sempre, mas com os olhos brilhando quando viu o neto. — Está maior — comentou. — Forte. — Puxou ao pai — respondeu Lúcia, sorrindo. Ela se sentiu em casa no mesmo instante. O cheiro da cozinha, o barulho conhecido, a sensação de estar protegida. Ali, ela não precisava explicar nada, nem provar coisa alguma. Era só filha. E agora, mãe também. Dona Alice preparava o almoço enquanto Lúcia se sentava no sofá, ajeitando Samuel com cuidado. — Você comeu direito hoje cedo? — a mãe perguntou, do fogão. — Comi — respondeu. — Adrian fez questão de me ver comer antes de sair. — Homem responsável — comentou Dona Alice, satisfeita. Lúcia sorriu. Sabia que o marido tinha conquistado o respeito dos pais não com palavras, mas com atitudes. Enquanto isso, Adrian tentava almoçar no escritório. Pediu algo simples, mas comeu sem muito apetite. Sentia falta do ritual de sentar à mesa com Lúcia, de ouvir o barulho da colher, de ver Samuel sendo alimentado. Ele terminou o dia cansado. Produtivo, sim, mas cansado de um jeito diferente. O relógio parecia andar mais devagar conforme a noite se aproximava. Quando finalmente fechou o escritório, foi direto buscar a família. Na casa dos pais de Lúcia, o clima era de fim de tarde tranquilo. Samuel dormia no colo da avó. Lúcia estava sentada perto da janela, observando o céu mudar de cor. — Cheguei — disse Adrian, entrando. Lúcia levantou os olhos e sorriu daquele jeito que fazia tudo valer a pena. — Estava esperando você. Dona Alice entregou Samuel com cuidado. — Ele mamou faz pouco — avisou. — Está tranquilo. Seu Raul apertou a mão de Adrian. — Trabalhou muito? — Como sempre — respondeu ele. — Mas agora estou inteiro aqui. Lúcia se despediu dos pais com abraços demorados. Antes de sair, a mãe a puxou de lado. — Você está bem, filha? — Estou — respondeu, sem hesitar. — Estou feliz. No carro, no caminho de volta, o silêncio não era pesado. Era confortável. Samuel dormia na cadeirinha, e Lúcia observava a estrada. — Obrigada por ter me deixado ir — disse ela, quebrando o silêncio. — Eu não deixei — corrigiu Adrian, sorrindo. — Eu quis. Ela o olhou, emocionada. — Às vezes fico com medo de te deixar sozinho com tudo. — E eu fico com medo de te prender demais — respondeu ele. — A gente equilibra. Chegaram em casa. Adrian levou as bolsas, Lúcia pegou Samuel. A rotina da noite começou naturalmente, como se sempre tivesse sido assim. Depois de colocar o bebê para dormir, Lúcia sentou-se no sofá, cansada, mas tranquila. Adrian sentou ao lado dela. — Comeu bem lá? — perguntou. — Muito — respondeu. — Mamãe não economizou. — Ainda bem — disse ele, aliviado. Ela riu. — E você? Comeu direito mesmo? Ele levantou as mãos, rendido. — Mais ou menos. — Adrian… — começou ela, fingindo reprovação. — Amanhã você compensa — ele disse, puxando-a para perto. Lúcia encostou a cabeça no ombro dele. — Foi bom estar lá hoje — confessou. — Mas é bom voltar também. Adrian beijou os cabelos dela. — A casa é onde a gente está junto. Ela fechou os olhos, sentindo o cansaço do dia. Naquela noite, enquanto a casa dormia, Adrian teve certeza de uma coisa simples e profunda: retomar a rotina era necessário, mas o que dava sentido a tudo era saber que, no fim do dia, Lúcia e Samuel estariam ali. Esperando por ele.
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