Capítulo 54

1205 Palavras
Cuidar Também é Amor O caminho até o hospital de Formosura pareceu mais longo do que realmente era. Lúcia dirigia com atenção redobrada, mãos firmes no volante, olhos atentos à estrada, enquanto de tempos em tempos desviava o olhar para Adrian, sentado ao seu lado, tentando disfarçar a dor com a dignidade de quem não queria preocupar ainda mais. — Tá doendo muito? — ela perguntou, pela terceira vez. — Tá… suportável — respondeu ele, com um meio sorriso. — Já doeu mais quando você apertou a faixa lá no campo. — Reclama não — disse ela, tentando manter o tom leve. — Aquilo era pra te ajudar. — E ajudou — ele respondeu, sincero. — Se não fosse você… Ela não deixou ele terminar. Apenas respirou fundo e seguiu dirigindo. O coração ainda batia acelerado. A imagem dele no chão, minutos antes, não saía da cabeça. Quando chegaram ao hospital, Lúcia estacionou perto da entrada. Desceu rápido, deu a volta no carro e abriu a porta para Adrian. — Calma — disse ela. — Devagar. Ela o ajudou a sair, passando o braço dele por seus ombros. Adrian apoiou parte do peso nela, sentindo o corpo dela firme, seguro. Mesmo mancando, ele percebeu algo curioso: nunca tinha se sentido tão bem cuidado. Dentro do hospital, o cheiro característico de álcool e medicamentos trouxe um pouco de realidade à situação. Lúcia foi direta ao balcão. — Ele sofreu um acidente no campo — explicou. — Foi atacado por um boi. A enfermeira olhou para Adrian, avaliando. — Senta ali que o médico já chama. Lúcia o acomodou na cadeira com cuidado, ajoelhou-se diante dele e ajeitou melhor a faixa improvisada que ela mesma tinha feito antes. — Você fica aqui — disse. — Eu vou resolver a ficha. Adrian observava cada gesto dela. A maneira como falava com as pessoas, como se movimentava com naturalidade naquele ambiente, como resolvia tudo sem drama. Aquilo só aumentava a admiração que ele já sentia. Não demorou muito para o médico chamar. — Adrian Santiago? — Sou eu — respondeu, levantando-se com dificuldade. — Eu ajudo — disse Lúcia imediatamente. Dentro do consultório, o médico pediu que Adrian se deitasse na maca. Lúcia permaneceu ao lado, atenta a cada pergunta, a cada movimento. — Onde dói mais? — perguntou o médico. — Na perna… e uns ralados aqui — Adrian indicou. O médico examinou com cuidado, apalpou, pediu para ele mexer o pé, a perna, observou os arranhões. — Vamos fazer um raio-x só pra garantir — disse. Lúcia assentiu, embora já soubesse, pelo jeito da queda, que não havia fratura grave. Ainda assim, só relaxaria quando tivesse certeza. O exame confirmou o que ela imaginava. — Nada quebrado — disse o médico, olhando os resultados. — Foi mais o impacto mesmo. Alguns arranhões profundos, contusão na perna. Vai doer por alguns dias. Lúcia respirou aliviada sem perceber. — Ele vai precisar de muletas? — perguntou. — Por alguns dias, sim. Só pra não forçar — respondeu o médico. — Vou passar um anti-inflamatório, analgésico e uma pomada para os ferimentos. Ele escreveu a receita e entregou a Lúcia. — Repouso — completou. — E nada de campo por enquanto. Adrian soltou um suspiro resignado. — Tá vendo? — disse Lúcia, olhando para ele. — Te falei pra não brincar com boi bravo. O médico sorriu de canto, percebendo a cumplicidade entre eles. — Ele está em boas mãos — comentou. — Pode ir tranquilo. Lúcia ajudou Adrian a se levantar novamente, agora com as muletas. — Devagar — repetiu, paciente. Saíram do hospital e foram até o carro. Lúcia abriu a porta, ajeitou o banco, certificou-se de que ele estava confortável. — Espera um pouquinho — disse ela, fechando a porta. — Vou ali rapidinho. — Onde você vai? — perguntou ele. — Farmácia — respondeu, já se afastando. Adrian ficou observando pelo vidro enquanto ela entrava na farmácia do outro lado da rua. Sentado ali, com a perna dolorida e o corpo cansado, ele sentiu algo diferente: uma calma estranha. Não estava preocupado com o trabalho, nem com prazos, nem com nada. Só com ela. Poucos minutos depois, Lúcia voltou. Na mão, uma sacola da farmácia… e uma caixa de chocolate. Ela abriu a porta do carro e colocou tudo no banco. — Pronto — disse. — Remédios, pomada… e isso aqui. Entregou a caixa de chocolate a ele. — Pra adoçar o dia — completou. Adrian abriu um sorriso largo, genuíno, daqueles que nascem sem esforço. — Você lembra até disso… — disse, emocionado. — Do chocolate que eu gosto. — Claro que lembro — respondeu ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Eu presto atenção em você. Ele segurou a caixa por um instante, depois levantou o olhar para ela. — Lúcia… — a voz saiu mais baixa. — Você é a melhor. Ela desviou o olhar, um pouco sem jeito, mas sorrindo. — Para com isso — disse. — Eu só tô cuidando do meu namorado. — Não é “só” — respondeu ele. — É muito mais. Ela fechou a porta, deu a volta e entrou no carro. Antes de ligar, ficou alguns segundos em silêncio. — Você me deu um susto hoje — confessou. — Um dos maiores da minha vida. — Me desculpa — disse Adrian, sincero. — Eu não queria. — Eu sei — respondeu ela. — Mas promete que vai confiar mais em mim quando for fazer essas coisas? — Prometo — respondeu ele sem hesitar. — Eu confio em você pra tudo. Ela ligou o carro e começou a dirigir de volta, agora com mais calma. O céu já começava a mudar de cor, anunciando o fim da tarde. — Vou te levar pra casa — disse ela. — E você vai descansar. Nada de querer ser herói. — Sim, senhora — respondeu ele, rindo. Lúcia sorriu também, mas por dentro sentia algo profundo, quase avassalador. O medo que sentiu ao vê-lo machucado tinha deixado uma marca clara: o amor que ela sentia por Adrian já não era pequeno, nem simples. Era forte, protetor, urgente. Quando chegaram à casa dele, Lúcia estacionou e ajudou Adrian a sair novamente. Cada passo era lento, mas seguro. — Vou ficar um pouco — disse ela. — Até ter certeza de que você está bem. — Eu ia pedir isso — respondeu ele. Ela o levou até o sofá, ajeitou as almofadas, colocou os remédios sobre a mesa e explicou tudo direitinho, como se ele fosse esquecer. — Você já explicou três vezes — ele brincou. — Vou explicar quantas forem necessárias — respondeu ela. — Porque eu me importo. Ele segurou a mão dela, puxando-a suavemente para sentar ao seu lado. — Obrigado — disse, olhando nos olhos dela. — Por tudo. Ela apertou a mão dele de volta. — Sempre — respondeu. Naquele dia, entre hospital, farmácia, muletas e chocolate, Adrian entendeu algo que nenhuma palavra bonita explicaria melhor: amar Lúcia era ser cuidado mesmo nos momentos difíceis. E Lúcia, enquanto observava ele ali, descansando, teve a certeza silenciosa de que faria isso quantas vezes fosse preciso. Porque amar, para ela, sempre foi isso: estar.
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