Cuidar Também é Amor
O caminho até o hospital de Formosura pareceu mais longo do que realmente era. Lúcia dirigia com atenção redobrada, mãos firmes no volante, olhos atentos à estrada, enquanto de tempos em tempos desviava o olhar para Adrian, sentado ao seu lado, tentando disfarçar a dor com a dignidade de quem não queria preocupar ainda mais.
— Tá doendo muito? — ela perguntou, pela terceira vez.
— Tá… suportável — respondeu ele, com um meio sorriso. — Já doeu mais quando você apertou a faixa lá no campo.
— Reclama não — disse ela, tentando manter o tom leve. — Aquilo era pra te ajudar.
— E ajudou — ele respondeu, sincero. — Se não fosse você…
Ela não deixou ele terminar. Apenas respirou fundo e seguiu dirigindo. O coração ainda batia acelerado. A imagem dele no chão, minutos antes, não saía da cabeça.
Quando chegaram ao hospital, Lúcia estacionou perto da entrada. Desceu rápido, deu a volta no carro e abriu a porta para Adrian.
— Calma — disse ela. — Devagar.
Ela o ajudou a sair, passando o braço dele por seus ombros. Adrian apoiou parte do peso nela, sentindo o corpo dela firme, seguro. Mesmo mancando, ele percebeu algo curioso: nunca tinha se sentido tão bem cuidado.
Dentro do hospital, o cheiro característico de álcool e medicamentos trouxe um pouco de realidade à situação. Lúcia foi direta ao balcão.
— Ele sofreu um acidente no campo — explicou. — Foi atacado por um boi.
A enfermeira olhou para Adrian, avaliando.
— Senta ali que o médico já chama.
Lúcia o acomodou na cadeira com cuidado, ajoelhou-se diante dele e ajeitou melhor a faixa improvisada que ela mesma tinha feito antes.
— Você fica aqui — disse. — Eu vou resolver a ficha.
Adrian observava cada gesto dela. A maneira como falava com as pessoas, como se movimentava com naturalidade naquele ambiente, como resolvia tudo sem drama. Aquilo só aumentava a admiração que ele já sentia.
Não demorou muito para o médico chamar.
— Adrian Santiago?
— Sou eu — respondeu, levantando-se com dificuldade.
— Eu ajudo — disse Lúcia imediatamente.
Dentro do consultório, o médico pediu que Adrian se deitasse na maca. Lúcia permaneceu ao lado, atenta a cada pergunta, a cada movimento.
— Onde dói mais? — perguntou o médico.
— Na perna… e uns ralados aqui — Adrian indicou.
O médico examinou com cuidado, apalpou, pediu para ele mexer o pé, a perna, observou os arranhões.
— Vamos fazer um raio-x só pra garantir — disse.
Lúcia assentiu, embora já soubesse, pelo jeito da queda, que não havia fratura grave. Ainda assim, só relaxaria quando tivesse certeza.
O exame confirmou o que ela imaginava.
— Nada quebrado — disse o médico, olhando os resultados. — Foi mais o impacto mesmo. Alguns arranhões profundos, contusão na perna. Vai doer por alguns dias.
Lúcia respirou aliviada sem perceber.
— Ele vai precisar de muletas? — perguntou.
— Por alguns dias, sim. Só pra não forçar — respondeu o médico. — Vou passar um anti-inflamatório, analgésico e uma pomada para os ferimentos.
Ele escreveu a receita e entregou a Lúcia.
— Repouso — completou. — E nada de campo por enquanto.
Adrian soltou um suspiro resignado.
— Tá vendo? — disse Lúcia, olhando para ele. — Te falei pra não brincar com boi bravo.
O médico sorriu de canto, percebendo a cumplicidade entre eles.
— Ele está em boas mãos — comentou. — Pode ir tranquilo.
Lúcia ajudou Adrian a se levantar novamente, agora com as muletas.
— Devagar — repetiu, paciente.
Saíram do hospital e foram até o carro. Lúcia abriu a porta, ajeitou o banco, certificou-se de que ele estava confortável.
— Espera um pouquinho — disse ela, fechando a porta. — Vou ali rapidinho.
— Onde você vai? — perguntou ele.
— Farmácia — respondeu, já se afastando.
Adrian ficou observando pelo vidro enquanto ela entrava na farmácia do outro lado da rua. Sentado ali, com a perna dolorida e o corpo cansado, ele sentiu algo diferente: uma calma estranha. Não estava preocupado com o trabalho, nem com prazos, nem com nada. Só com ela.
Poucos minutos depois, Lúcia voltou. Na mão, uma sacola da farmácia… e uma caixa de chocolate.
Ela abriu a porta do carro e colocou tudo no banco.
— Pronto — disse. — Remédios, pomada… e isso aqui.
Entregou a caixa de chocolate a ele.
— Pra adoçar o dia — completou.
Adrian abriu um sorriso largo, genuíno, daqueles que nascem sem esforço.
— Você lembra até disso… — disse, emocionado. — Do chocolate que eu gosto.
— Claro que lembro — respondeu ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Eu presto atenção em você.
Ele segurou a caixa por um instante, depois levantou o olhar para ela.
— Lúcia… — a voz saiu mais baixa. — Você é a melhor.
Ela desviou o olhar, um pouco sem jeito, mas sorrindo.
— Para com isso — disse. — Eu só tô cuidando do meu namorado.
— Não é “só” — respondeu ele. — É muito mais.
Ela fechou a porta, deu a volta e entrou no carro. Antes de ligar, ficou alguns segundos em silêncio.
— Você me deu um susto hoje — confessou. — Um dos maiores da minha vida.
— Me desculpa — disse Adrian, sincero. — Eu não queria.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas promete que vai confiar mais em mim quando for fazer essas coisas?
— Prometo — respondeu ele sem hesitar. — Eu confio em você pra tudo.
Ela ligou o carro e começou a dirigir de volta, agora com mais calma. O céu já começava a mudar de cor, anunciando o fim da tarde.
— Vou te levar pra casa — disse ela. — E você vai descansar. Nada de querer ser herói.
— Sim, senhora — respondeu ele, rindo.
Lúcia sorriu também, mas por dentro sentia algo profundo, quase avassalador. O medo que sentiu ao vê-lo machucado tinha deixado uma marca clara: o amor que ela sentia por Adrian já não era pequeno, nem simples. Era forte, protetor, urgente.
Quando chegaram à casa dele, Lúcia estacionou e ajudou Adrian a sair novamente. Cada passo era lento, mas seguro.
— Vou ficar um pouco — disse ela. — Até ter certeza de que você está bem.
— Eu ia pedir isso — respondeu ele.
Ela o levou até o sofá, ajeitou as almofadas, colocou os remédios sobre a mesa e explicou tudo direitinho, como se ele fosse esquecer.
— Você já explicou três vezes — ele brincou.
— Vou explicar quantas forem necessárias — respondeu ela. — Porque eu me importo.
Ele segurou a mão dela, puxando-a suavemente para sentar ao seu lado.
— Obrigado — disse, olhando nos olhos dela. — Por tudo.
Ela apertou a mão dele de volta.
— Sempre — respondeu.
Naquele dia, entre hospital, farmácia, muletas e chocolate, Adrian entendeu algo que nenhuma palavra bonita explicaria melhor: amar Lúcia era ser cuidado mesmo nos momentos difíceis.
E Lúcia, enquanto observava ele ali, descansando, teve a certeza silenciosa de que faria isso quantas vezes fosse preciso. Porque amar, para ela, sempre foi isso: estar.