Capítulo 29

916 Palavras
Entre a Lida e a Espera Lúcia acordou antes mesmo do despertador. O céu ainda estava escuro, com aquele silêncio profundo que só existe na roça antes do sol nascer. Ficou alguns minutos sentada na cama, respirando fundo. Estava apreensiva. Não era medo, era responsabilidade. O dia seria longo. Pela manhã, faria o serviço de Ramires como sempre. Conferir depósito, passar nos barracões, ver se estava tudo em ordem. À tarde, começariam os preparativos para o jantar. Não era qualquer jantar. Era o jantar. Levantou-se, lavou o rosto com água fria e prendeu o cabelo comprido num laço simples. Vestiu a calça folgada, a camiseta larga e calçou a bota. Ainda na cozinha, falou com os pais enquanto tomava um café rápido. — Hoje vou fazer um jantar aqui em casa — disse com naturalidade. — Vamos ter visita. Dona Alice ergueu os olhos da xícara. — Visita? — perguntou. — Quem? — Depois eu explico melhor — respondeu Lúcia. — Mas vai ser um jantar bonito. Seu Raul apenas observou a filha. Conhecia aquele tom. Algo importante estava por trás, mas ele respeitava o tempo dela. — Então vou ajudar no que precisar — disse a mãe. Lúcia sorriu agradecida. Antes de sair, pegou o celular simples, daqueles de botão, e digitou com cuidado. Ainda era cedo, o sol nem tinha dado sinal de vida, mas ela sabia que precisava perguntar. Bom dia, Adrian. Queria saber o que você gosta de comer e se tem alguma restrição alimentar. Poderia chamar seus pais para o jantar. Guardou o celular no bolso e seguiu para o curral. O cheiro de terra molhada e o canto distante de um g**o anunciavam que o dia começava. Do outro lado da fazenda, na sede, Adrian dormia profundamente. Tinha sido uma das melhores noites em muito tempo. Falar com Lúcia na cachoeira tinha feito algo dentro dele se aquietar. Dormiu sem sonhos confusos, sem aquela inquietação no peito. O barulho do celular vibrou sobre o criado-mudo. Ele abriu os olhos devagar, meio desorientado, até lembrar. Pegou o aparelho e leu a mensagem. Um sorriso surgiu de imediato. Sentou-se na cama e respondeu sem pensar muito. Bom dia, Lúcia. Não tenho nenhuma restrição alimentar. Vou chamar eles. Eu gosto de massa em geral. Posso falar sobre o que é o jantar? Ficou olhando a tela por alguns segundos, esperando. Sabia que ela estava na lida cedo. Ainda assim, aquela troca de mensagens simples já deixava o dia melhor. Enquanto isso, Lúcia já estava selando o cavalo. As mãos firmes, o gesto seguro. Era ali, no meio da lida, que ela se sentia mais no controle. Conferiu as rédeas, ajeitou a sela e só então ouviu o celular vibrar no bolso. Pegou, leu a mensagem e sorriu ao ver que ele tinha respondido rápido. Pensou por alguns segundos antes de digitar. Os dedos demoraram mais, o sinal não ajudava, e o cavalo se mexia impaciente. Pode sim. Desculpa não responder rápido, é que já estou indo pra lida. Mais tarde a gente conversa. Guardou o celular e montou. O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu de laranja e dourado. Ela seguiu pelos caminhos da fazenda, cumprimentando os peões, observando se estava tudo em ordem. Passou pelo depósito, conferiu as anotações, verificou o que estava faltando para a próxima compra. Tudo precisava funcionar. A fazenda era grande demais para descuido. Apesar da concentração, o pensamento insistia em voltar para a noite que viria. Adrian sentado à mesa. Os pais dele ali. Seu pai observando tudo com aquele olhar atento. O jantar não era só comida. Era um acordo silencioso. Na sede, Adrian desceu para o café da manhã com os pais. Dona Margarete percebeu o bom humor do filho na hora. — Dormiu bem hoje, meu filho — comentou. — Dormi — respondeu ele, servindo café. — Fazia tempo que isso não acontecia. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou o pai, desconfiado. Adrian respirou fundo. — Aconteceu, sim. — Fez uma pausa. — Fomos convidados pra um jantar hoje à noite. — Jantar onde? — quis saber a mãe. — Na casa do Seu Raul… — respondeu. — É Os dois se entreolharam. — Lúcia? — repetiu Dona Margarete. — Aquela moça da fazenda? — Ela mesma — disse Adrian. — Eu quero que vocês vão comigo. O pai apoiou os cotovelos na mesa. — E por que esse jantar é importante? — perguntou. Adrian foi direto. — Porque eu vou pedir a mão dela em namoro. Houve um silêncio breve, carregado. Depois, Dona Margarete sorriu de leve. — Então é sério. — É — respondeu ele. — Muito. O pai assentiu. — Se é assim, vamos. Adrian sentiu um alívio enorme. Tudo parecia se encaixar, passo a passo, sem atropelos. Enquanto isso, Lúcia encerrava a parte da manhã cansada, mas satisfeita. Deixou o cavalo, lavou o rosto novamente e voltou para casa já pensando na lista mental do que precisava preparar: ingredientes, tempo de cozimento, mesa, tudo. Antes de entrar, pegou o celular mais uma vez. Nenhuma mensagem nova. Não se incomodou. Sabia que à tarde conversariam melhor. Olhou para o céu, agora claro, e respirou fundo. Era estranho como a rotina seguia igual — a lida, o sol, a terra — mas tudo parecia diferente por dentro. O jantar da noite não mudaria só o rumo da conversa. Mudaria o rumo dela também. E, pela primeira vez, isso não a assustava. Pelo contrário. Dava uma sensação boa de começo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR