Manhãs Altas
Lúcia acordou devagar, como se o corpo ainda estivesse se adaptando ao silêncio diferente daquele lugar. Não era o silêncio da fazenda, cortado pelo vento, pelos animais, pela vida que começava cedo. Era um silêncio macio, envolto em paredes altas, vidro, ar-condicionado e uma cidade inteira pulsando lá fora sem conseguir atravessar aquelas janelas grossas.
Abriu os olhos e, por alguns segundos, ficou apenas sentindo.
A cama era maravilhosa. Grande, confortável, com lençóis macios que pareciam abraçá-la. Lúcia virou o rosto devagar e seu primeiro instinto foi procurar Samuel. Não o viu ao lado, e o coração deu um pequeno salto — reflexo de mãe recente, de cuidado constante.
Esticou o braço e pegou a babá eletrônica que estava sobre o criado-mudo.
A tela se acendeu, e ali estava ele.
Samuel dormia profundamente, o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo, as mãozinhas fechadas, o rosto sereno. Lúcia sorriu sem perceber. Um sorriso calmo, cheio de amor, daquele tipo que aquece o peito.
— Dorme bem, meu amor… — sussurrou, mesmo sabendo que ele não podia ouvi-la.
Levantou-se com cuidado, sentindo o chão frio sob os pés. O quarto era amplo, elegante, mas não impessoal. Adrian tinha feito questão de deixar tudo confortável, acolhedor. Ainda assim, Lúcia sentia aquele misto de encantamento e estranhamento que só quem muda de cenário de forma brusca conhece.
Foi até o banheiro.
Assim que entrou, parou por um instante.
Era muito chique.
O espaço parecia coisa de hotel cinco estrelas. Mármore claro, metais reluzentes, espelhos grandes, iluminação suave. A banheira ocupava um canto inteiro, convidativa, e o box era amplo, com água que prometia cair na temperatura perfeita.
— Meu Deus… — murmurou, sorrindo sozinha.
Fez sua higiene com calma, como não fazia havia tempos. Tomou um banho demorado, deixando a água quente escorrer pelos ombros, relaxando o corpo ainda cansado da viagem longa do dia anterior. Pensou em Samuel, em Adrian, na semana que tinham pela frente.
Saiu do banho com os cabelos ainda úmidos e escolheu um conjunto que havia separado na noite anterior. Era simples, mas elegante. Um daqueles que não gritavam luxo, mas revelavam cuidado. Vestiu-se e, ao se olhar no espelho, quase não se reconheceu.
Estava linda.
Não por causa da roupa, mas pelo brilho diferente no olhar. Pela postura mais segura. Pela vida que tinha mudado tudo dentro dela.
Respirou fundo e saiu do quarto, andando em passos silenciosos pelo corredor amplo. A cobertura parecia ainda maior à luz da manhã. O sol entrava pelas janelas enormes, iluminando a sala, refletindo nos móveis claros, criando um clima leve.
O cheiro de café a guiou até a cozinha.
E então ela o viu.
Adrian estava ali, encostado na bancada, usando uma camisa clara com as mangas dobradas até o antebraço e uma calça bem cortada. O cabelo estava arrumado de um jeito displicente, como se ele tivesse acabado de passar a mão e pronto. A postura era confiante, natural.
Lúcia parou por um segundo, sem que ele percebesse.
Ele parecia ter saído de uma capa de revista.
Havia algo nele diferente naquela manhã. Talvez fosse o ambiente, talvez fosse a cidade, talvez fosse o simples fato de estar ali, no território dele, onde tudo parecia se alinhar com quem ele era fora da fazenda.
— Bom dia — ele disse, virando-se ao perceber sua presença.
Os olhos de Adrian encontraram os dela, e um sorriso lento, verdadeiro, surgiu em seu rosto.
Ele caminhou até ela sem pressa, segurou seu rosto com cuidado e depositou um beijo suave em seus lábios.
— Bom dia, princesa.
O beijo não foi intenso, nem demorado. Foi um beijo de começo de dia. De carinho. De cumplicidade.
Lúcia sentiu o coração acelerar de leve.
— Bom dia — respondeu, a voz um pouco mais baixa do que pretendia.
Ela olhou para ele, analisando-o com atenção. E pensou, sem querer:
A cidade fez bem a ele.
Havia um brilho diferente em Adrian. Um ar mais solto, mais à vontade. Como se aquele cenário despertasse uma versão dele que ela ainda estava começando a conhecer.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
— Muito — respondeu. — A cama é perfeita.
— Fico feliz — disse ele, puxando uma cadeira para ela. — Senta. Fiz café.
Lúcia se sentou, observando enquanto ele se movia pela cozinha com naturalidade. Adrian parecia saber exatamente onde cada coisa estava, como se aquele lugar fosse realmente uma extensão dele.
— E o Samuel? — ele perguntou, enquanto colocava café na xícara dela.
— Está dormindo — respondeu. — Nem se mexeu.
— Que bom. Viagem cansa mesmo.
Ele colocou pão, frutas, manteiga sobre a mesa, tudo com um cuidado quase automático. Lúcia observava em silêncio, absorvendo cada gesto.
— Você fica diferente aqui — ela disse, sem pensar muito.
Adrian levantou o olhar, curioso.
— Diferente como?
Ela hesitou um instante, procurando as palavras.
— Mais… leve. Parece que você respira diferente.
Ele sorriu, encostando-se à bancada.
— Talvez porque aqui seja o lugar onde eu sempre resolvi problemas. Onde eu trabalho, onde eu mando, onde eu decido. — Fez uma pausa e completou: — Mas nunca foi um lugar onde eu vivi de verdade.
Lúcia sentiu o peso daquelas palavras.
— Até agora? — perguntou.
— Até agora — confirmou ele, sem hesitar.
Sentou-se à frente dela e tomou um gole de café.
— Eu passei anos entrando e saindo desse apartamento sem perceber o quanto ele era vazio. Era bonito, confortável… mas faltava tudo.
Ela entendeu o que ele queria dizer sem que ele precisasse explicar.
— Agora tem cheiro de café, de bebê… — ela sorriu.
— E de você — completou ele, com a voz baixa.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi cheio.
Depois do café, Lúcia ajudou a organizar a cozinha, mesmo Adrian dizendo que não precisava. Ela gostava de se sentir útil, de participar, de não ser apenas uma visita naquele espaço.
— Hoje eu vou resolver algumas coisas no escritório — Adrian disse. — Mas volto cedo.
— Eu fico com o Samuel — respondeu. — E… posso sair um pouco depois?
— Claro — ele disse. — Se quiser, te levo antes de ir.
Ela assentiu, agradecida.
Pouco depois, Adrian foi se trocar. Lúcia passou novamente pelo quarto de Samuel, conferiu a babá, ajeitou a mantinha. Ficou alguns minutos ali, observando-o dormir, sentindo o coração transbordar.
Quando Adrian voltou, já pronto para sair, parou na porta do quarto e observou a cena: Lúcia em pé ao lado do berço, o rosto suave, a mão pousada com cuidado na madeira clara.
Aquela imagem ficou gravada nele.
— Vocês dois mudaram tudo — ele disse, sem perceber que falava em voz alta.
Lúcia virou-se, surpresa.
— O quê?
Ele se aproximou e beijou-lhe a testa.
— Nada. Só… nada.
Antes de sair, Adrian deixou um beijo rápido nos lábios dela e outro na testa de Samuel.
— Qualquer coisa me liga — disse.
— Eu ligo — prometeu.
Quando a porta se fechou, Lúcia voltou para a sala e foi até a janela. Observou a cidade lá embaixo, viva, intensa. Pensou em como tudo tinha mudado em tão pouco tempo.
Ela não estava mais apenas se adaptando à cidade. Estava aprendendo a viver uma nova vida.
E, naquele começo de manhã, sentiu algo muito claro no peito:
Apesar do medo, do segredo, das complicações… ela estava exatamente onde precisava estar.