8: Firewall de Vidro

500 Palavras
Alana A Dayane acha que me dobra com um copo de gim, mas ela esquece que eu passei noites em claro derrubando firewalls muito mais complexos que um porre de baile funk. O álcool aqueceu meu sangue, mas minha consciência continuava ali, operando em segundo plano, fria e calculista. Eu sentia o olhar do João Victor em cada poro da minha pele. Mesmo de costas, eu sabia onde ele estava. A presença dele é como um sinal de Wi-Fi de alta potência: você não vê, mas sente a conexão pesando o ambiente. Me virei devagar, fingindo que estava apenas curtindo a batida do tamborzão, e deixei meus olhos encontrarem os dele lá no alto. Ele não disfarçava. João Victor me olhava como se estivesse decidindo se me invadia por força bruta ou por engenharia social. Analisei ele de volta, agora com o filtro da bebida deixando tudo mais nítido Ele estava encostado no parapeito, o corpo de 1,90m relaxado, mas os músculos do braço — cobertos por aquela tinta preta densa — estavam rígidos. Ele exalava um desejo cru, mas era um desejo inteligente. Ele não queria só o meu corpo; ele queria o que estava guardado na minha cabeça. O platinado do cabelo dele sob as luzes estroboscópicas do baile fazia ele parecer um ponto de luz no meio do caos. E os olhos verdes... eles brilhavam com um sarcasmo silencioso, como se dissessem: "Eu sei que você está fingindo que não se importa". Ele estava jogando verde para colher maduro. Aquele convite silencioso, aquela autoridade que ele usou para afastar a Dayane... tudo era teste. Ele queria ver se eu ia espanar, se eu ia pedir arrego ou se ia cair nos encantos do "Dono do Morro". — Ele não tira o olho de você, Lã — Dayane sussurrou no meu ouvido, rindo, visivelmente mais alterada que eu. — O JV é difícil, mas quando foca... sai de baixo. — Ele não tá focado em mim, Day. Ele tá focado no que ele não consegue controlar — respondi, dando mais um gole no gim. Eu sabia que o jogo dele era me deixar confortável para eu deslizar. Ele estava me dando corda, esperando que eu mesma desse o nó na minha garganta. O que ele não sabia é que eu inventei a corda. Fiz questão de sustentar o olhar dele enquanto levava o copo à boca, deixando um sorriso de canto surgir — um código visual que ele, com certeza, saberia traduzir. Eu não sou uma civil assustada e nem uma fã do camarote. Eu sou a falha no sistema dele que ele está começando a amar odiar. O grave da música bateu forte, e eu virei de costas de novo, descendo até o chão em um passo lento, sentindo o olhar dele queimar minha coluna. Eu podia sentir a pulsação dele daqui. O perigo não era o morro, nem a firma, nem a polícia. O perigo era que, pela primeira vez, eu estava gostando de ser rastreada.
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