Veneno Eu tava ali, sentado na minha cadeira de sempre, com o rádio na cintura e o pensamento longe. O cheiro de pólvora ainda grudado na pele depois da última troca. Meus dedos tremiam, mas não era medo. Era algo diferente... era vontade de mudar. A favela tava silenciosa demais. A guerra tinha dado uma pausa. Mas a minha cabeça, não. – Tá pensando em quê? – Negrete perguntou, sentando do meu lado. – Tô pensando em sair – soltei de uma vez. Ele me olhou como se tivesse ouvido errado. – Sair... de onde? – Do corre. Do morro. Do tráfico. Tudo. O silêncio entre nós foi mais barulhento que qualquer rajada de AK. – Cê pirou? – Não, mano. Tô mais lúcido do que nunca. Eu quero viver. Quero ter uma família. Casar com a Rebeca sem medo de ser preso ou tomar um tiro no dia da cerimônia.

